O mundo espiritual, divisões de classe e o fim do diabo

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Foto: Zoran Borojevic / Unsplash

Releituras kardecistas com Marcio Sales Saraiva

Se no mundo físico temos uma sociedade dividida em classes sociais diferentes, com preconceitos e exclusões que mantêm determinadas hierarquias sociais, mais ou menos opressivas, não é assim no mundo espiritual.

Os espíritos de luz dizem para Allan Kardec que existe diferença no mundo dos espíritos, mas ela está assentada no “grau de perfeição” –ciência, sabedoria e virtudes ou bondade– de cada um e nas afinidades que os aproximam (questão 96 e 98 de “O livro dos espíritos”).

Basicamente, os espíritos de luz identificam, grosso modo, três grandes famílias de espíritos: os espíritos puros (também chamados de anjos), os espíritos medianos (também chamados de bons espíritos, pois desejam fazer o bem) e os espíritos imperfeitos (neles prevalecem a ignorância, as más paixões ou o desejo do mal). Em outras palavras, na cosmovisão espírita não existem demônios ou espíritos devotados única e exclusivamente para o mal. Não há também a figura de satanás, nem de capetas que estariam constantemente atrapalhando os planos do bem.

Esse temor de espíritos malignos foi algo que o espiritismo kardequiano destruiu, libertando o ser humano de crendices inúteis e favorecendo que o mesmo assuma sua responsabilidade existencial sem culpas e sem buscar legitimação em “ações do diabo”.

Além disso, os chamados espíritos imperfeitos são apenas irmãos nossos que, com o tempo, alcançarão também o grau de perfeição que todos nós estamos destinados, ou seja, a plenitude em comunhão com Deus.

Não há, portanto, um estado fixo na maldade, mas apenas ilusão e ignorância que, gradualmente, será dissipada, fazendo com que esses espíritos imperfeitos cheguem ao grau de espíritos medianos até se elevarem à categoria de espíritos puros.

Sim, um dia, todos nós seremos espíritos puros, mas entre esse estado final e o que vivemos ainda hoje, vai um enorme abismo que, somente através das reencarnações, poderemos nos depurar e alcançá-lo.

Esta concepção evolucionista e progressiva é um poderoso antídoto contra os preconceitos e os pavores causados pelas velhas concepções religiosas de céu e inferno, povoado por demônios que atordoavam a paz de espíritos dos seres encarnados.

O espiritismo nos traz, assim, uma visão de mundo onde o mal e a ignorância são estados transitórios da alma e, como todas as coisas, tende ao crescimento e amadurecimento, através de erros e acertos, ao longo de um processo pedagógico chamado de reencarnação.

Um dos dados mais interessantes, na questão 99, é que os espíritos de luz colocam os omissos, aqueles que não fazem nem o bem nem o mal, os que não se engajam nem a favor nem contra, dentro da categoria de espíritos imperfeitos ou inferiores.

Se em algumas religiões, o silêncio e a “neutralidade” são valorizados, no espiritismo kardecista não é assim, pois nele não basta ficar “de fora” das coisas que acontecem na vida, escondendo-se das nossas responsabilidades éticas e políticas. É preciso se comprometer com o bem, com o processo de crescimento de si mesmo e da sociedade onde vive, pois nós somos responsáveis pela nossa existência e pelo mundo social que criamos ao longo das reencarnações.

É dentro deste quadro que Allan Kardec apresenta, em “O livro dos espíritos”, a chamada “escala espírita”, subdividindo as três grandes famílias espirituais em 10 “classes” ou “categorias” de espíritos. Não se trata de uma visão dogmática. Kardec deixa claro que esta tabela classificatória “nada tem de absoluta” (questão 100) e que “os espíritos não ligam a menor importância” (questão 100) para tais convenções, pois o importante é a compreensão geral da ideia e não as tabelas que humanamente construímos. As fronteiras entre as famílias espirituais são borradas ou fluidas, pois há intercâmbio e interações de diversos tipos.

Em resumo, esqueça essa conversa de diabo ou satanás, pois no mundo dos espíritos (ou extrafísico) temos apenas três grandes famílias espirituais, mas não encontramos nenhuma classe de “espíritos demoníacos” –de acordo com Allan Kardec!– e nem uma divisão de classe social onde relações de dominação e exploração sejam estruturais, como nas sociedades capitalistas existentes.

Só nos mundos inferiores e nas regiões menos adiantadas da espiritualidade (ou erraticidade) encontramos relações de dominação e exploração, portanto, abolir tais estruturas de opressão, exploração e violência deveria ser o objetivo de todos os espíritas encarnados, procurando fazer deste planeta um espaço de igualdade, liberdade, justiça e fraternidade.

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