Ouvindo as mulheres: aborto e movimento espírita

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Malvestida / Unsplash

Feminismos –  com Elizabeth Hernandes e Marcos Costa

“Minha percepção acerca do aborto não foi modificada pelos homens, mas pelas mulheres”.

A publicação, neste portal, do artigo “Desprezado Patriarcado, até quando?”  suscitou amplo debate, como é usual ocorrer, sempre que se aborda a temática do aborto. Uma das repercussões diz respeito à chamada, feita por um grupo de mulheres do EàE-DF, para um debate sobre o assunto. O encontro virtual, denominado “Diálogos sobre o aborto: enfoque espírita”, marcado para 30 de julho de 2022, tem como objetivo discutir o assunto e produzir um documento a ser apresentado na plenária do II Encontro Nacional da Esquerda Espírita, dia 10 de julho em São Paulo.

Uma das questões que acirrou o debate do grupo do DF, foi o fato de os homens participarem na condição de ouvintes e, uma das contribuições apresentadas veio de Marcos Costa, que destacou a abordagem do assunto com base na codificação kardequiana e reafirmou a disposição de, neste assunto, ser ouvinte.

Coerente com o que defende, Marcos aceitou que seu texto fosse publicado, desde que sua fala fosse mediada por uma mulher. Assim, apresento o relato do companheiro, no qual trabalhamos em conjunto no que tange à forma porque, na essência, não houve ressalva.

O relato de um homem que se dispõe a ouvir as mulheres e caminhar junto traz esperança e perspectiva de concretude: juntos, humanos de todos os sexos e gêneros, podemos implantar o reino de justiça que Jesus anunciou para todos, todas e todes.

Não havendo o que acrescentar, segue o relato de um homem que ouve as mulheres.

“A experiência do corpo feminino não faz parte da minha encarnação atual, portanto para saber das dores e das alegrias de ser mulher somente escutando uma mulher.

Preliminarmente, é importante destacar que movimento espírita, doutrina espírita e espiritismo são grandezas diferentes que, embora à primeira vista tratem de espiritismo, significam coisas distintas. Movimento espírita é o conjunto social de espíritas, que agem de forma não uníssona, mas com certas semelhanças por se definirem espíritas, e abrange pessoas de todas as identidades. Doutrina espírita é o texto compilado e explicitado desde Kardec, havendo concordância e discordância entre pontos, especialmente no que tange às explicações naturais e aos costumes, ainda mais assumindo-se que, com o tempo, a ciência e a sociedade evoluem. Espiritismo é a essência das ideias, que fluem no convívio entre os espíritas, no desvelar do plano espiritual, no trato com a existência carnal e espiritual, na práxis dos princípios morais e éticos, esses últimos, imutáveis.

Fui muito a reboque do conceito pronto acerca do aborto dentro do movimento espírita. Desde criancinha escutava que aborto é errado e me parece que esse assunto foi levado ao patamar de ‘pecado capital’ dentro do espiritismo.

Frequentei várias casas espíritas, venho de uma família espírita e era conceito absoluto: aborto é crime, compreende-se até que há atenuantes, mas a ideia geral é de que a mulher deve levar a gravidez até o fim, como forma de ‘demonstrar renúncia e abnegação’. É compreensível apenas o aborto espontâneo.

Na leitura da literatura de Kardec, entretanto, o aborto é considerado como a interrupção de uma possibilidade de vida (questão 353 e 359 do LE), não de uma vida formada, e quem o faz, assumirá as consequências dos seus atos pela interrupção de uma possibilidade de vida (q. 358 do LE). Além disso, fica claro que há atenuantes (q. 359 do LE) e que o espírito que não reencarnou terá outras oportunidades (q. 357 do LE).

Faço um parêntese e passo a tratar de outro ponto que também é considerado como capital para a doutrina espírita, mas que não tem o mesmo tratamento rígido, o suicídio.

Em O livro dos espíritos o suicídio é tratado com muito mais rigor (questões 943 a 957), como um crime, sendo que se compreende os atenuantes, sejam culturais, falta de conhecimento, ausência de discernimento (doença mental). Mais ainda, entende-se que o suicídio provocado por situações de penúria é um ato reprovável, porém, será mais culpado aquele que provocou a penúria.

Volto ao assunto e faço um balanço entre os dois atos mais reprováveis dentro da doutrina espírita, o aborto e o suicídio. Se há o entendimento dos espíritos de que o suicídio é ato bem mais reprovável, contudo, conforme os atenuantes já explicitados demonstram, há a presença não somente da misericórdia divina, mas da inteligência do plano espiritual ao lidar com o assunto, por que o movimento espírita não apresenta compreensão idêntica quanto ao aborto?

Ressalto aqui os atenuantes citados: falta de conhecimento, penúria, fatores culturais e problemas de discernimento.

A quem interessa reprovar mais o aborto que o suicídio?

Eu tenho a resposta: é de interesse do patriarcado. O controle dos corpos femininos que se apresenta nas prescrições religiosas, que são em si instituições políticas, como é o movimento espírita, é universalmente exercido pelo homem.

Sempre escutei: ‘ora’ (dirão alguns dentro do movimento espírita), ‘a dor educa!’ A mulher que escolhe progredir na gravidez, com todos os percalços, como resultado de sua renúncia e abnegação, será uma pessoa mais evoluída. Palavras usadas de modo dúbio, como vou demonstrar.

Veja, no começo do texto expliquei que vendo e ouvindo aprendo muito sobre o que não posso vivenciar. Minha percepção acerca do aborto não foi modificada pelos homens, mas pelas mulheres. Conversando e convivendo com quem interrompeu uma gravidez não escutei uma só história que não fosse de muita dor, de muita angústia. Por que essa mulher que sofre com a angústia e a dor de ter de suprimir a gravidez também não teria como resultado um aprendizado, uma evolução?

É controle sobre os corpos, é controle social! O querido Engels explicitou que o modo de produção familiar foi o primeiro que existiu, com a exploração do trabalho do mais forte sobre o mais fraco, do homem sobre a mulher, ou seja, a luta de classes começou com o patriarcado.

Isso fica também muito evidente quando se identifica o tratamento diferenciado, especialmente entre as mulheres pobres e as ricas, quando o assunto é aborto.

Para quem pode pagar, há inúmeras clínicas, esteticamente perfeitas, estéreis e mantidas sob uma fachada impecável. Os cuidados permitem a diminuição das possíveis sequelas a níveis aceitáveis do ponto de vista sanitário.

Para as mulheres pobres há a opção de perfuração de placenta, chás e medicamentos abortivos, ou mesmo remoção por choque mecânico. O resultado é um trauma físico e nem sempre há um médico para atendê-las, causa de inúmeras sequelas e mortes.

Historicamente o homem limitou ou extinguiu os direitos das mulheres, fato incontroverso. E, ao lembrarmos que hoje podem votar, trabalhar e escolher companheires, não podemos esquecer que nós homens não as permitimos escolher a gravidez, não permitimos os corpos femininos expostos, não permitimos as ideias femininas.

Mas, na cabeça do homem médio, parece que o aborto é uma visita ao supermercado, onde se recolhe na prateleira um produto e se paga no caixa. Ledo engano, lembro sempre que é resultado de muita dor e desespero.

As experiências de países, cito em especial os extremamente católicos, como Portugal e Uruguai (têm outros, mas vou ficar nesses exemplos), demonstram que, ao legalizarem o aborto, houve uma diminuição dessa incidência.

Parece paradoxal, mas não é. Como o estado regulamentou uma situação que era tratada nos porões, as mulheres puderam ter auxílio e orientação profissionais.

Quando manifestam a intenção de interromper a gravidez, há um período necessário de reflexão em que as mulheres são atendidas por profissionais capacitados, caso persista o interesse em prosseguir com o aborto, são informadas dos riscos à sua saúde resultantes e do apoio do estado à gravidez e à maternidade. Caso a mulher persista na decisão, são encaminhadas a uma clínica segura. Isso possibilitou a diminuição da morte materna para índices irrisórios.

No Brasil, entre 1996 e 2018, ocorreram 38.919 óbitos maternos resultantes de causas obstétricas diretas, ou seja, complicações obstétricas durante gravidez, parto ou puerpério devido a intervenções desnecessárias, omissões, tratamento incorreto ou a uma cadeia de eventos resultantes de qualquer dessas causas. A principal causa de morte foi a hipertensão (8.186 óbitos), seguida por hemorragias (5.160 óbitos), infecção puerperal (2.624 óbitos) e, em quarto lugar, o aborto (1.896 óbitos). Ainda de acordo com essa sinistra estatística, a cada quatro dias morre uma mulher em decorrência de um aborto sem condições seguras. Na maioria dos casos de morte, trata-se de uma mulher pobre, que não teve acesso a uma clínica segura (1). [VEJA OS DADOS AQUI]

Por isso, ouço as mulheres e com elas me solidarizo e busco ter empatia. Não sinto necessidade de ter voz nesse assunto, embora este longo texto, que trato mais como uma contribuição mínima. Sou um homem que apoia a descriminalização do aborto porque não quero ver nenhuma mulher presa ou morta em decorrência do controle que uma sociedade machista, misógina e exclusiva quer exercer sobre seus corpos.”

2 COMENTÁRIOS

  1. Fico com o que explana o texto. O Espiritismo nada proíbe apenas, nos faz refletir: Poderia fazer algo diferente, será mesmo necessário fazer isso ou aquilo? Quanto a grande maioria que se posiciona contra o aborto é conivente com o homem que abandona a mulher grávida, ou com filhos as custa das mulheres. É o velho continuo machismo com apoio das religiões tradicionais.

  2. Ótima reflexão. E quando se posiciona pela descriminalização do aborto, não se está posicionando a favor do aborto, este é um engano comum. Esta- se tentando lidar com uma situação social e de saúde que existe, independentemente de lei. E existe de maneira diferenciada para mulheres ricas e pobres. Querer obrigar uma mulher a levar uma gravidez até o final, condená-la por partir para o aborto em situações que desconhecemos é, como disse o autor desse texto, desconhecer a história de dor e desespero que pode estar por trás desta decisão. Ao passo que, se essas mulheres que não se sentem aptas a ter um filho naquele momento, forem acolhidas pela saúde pública, podem vislumbrar saídas que não vislumbravam antes, podem receber um apoio que nunca tiveram de nenhuma instância em sua vida. É muito evidente o motivo pelo qual a descriminalização do aborto faz diminuir sua incidência.
    E quem condena as mulheres que decidem pelo aborto? Estão aptos/aptas a adotarem, apoiarem e acompanharem os filhos abandonados por aí?

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