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O fascismo não arromba a porta. Ele é convidado para jantar

Gastão Cassel – EàE Santa Catarina

Há uma ideia um tanto confortável de que o fascismo chega fazendo barulho. Botas marchando, tanques nas ruas, bandeiras, prisões, discursos histéricos e alguma música marcial ao fundo. Seria ótimo se fosse sempre assim. Ficaria fácil reconhecer o perigo. Mas o filme O Aniversário, de Jan Komasa, escolhe um caminho bem mais incômodo. O autoritarismo chega educado, bem vestido, articulado, trazendo um presente e acompanhado do filho da família. Entra pela porta da frente. Depois senta à mesa. E talvez esteja aí a grande sacada do filme. Para falar de um tema gigantesco: a erosão da democracia e a ascensão de um movimento autoritário, Komasa praticamente não sai de uma casa. Não precisa mostrar multidões, palácios governamentais, parlamentos cercados ou tropas ocupando avenidas. Grande parte da transformação política de um país nos é apresentada na sala de jantar, na cozinha e no quintal de uma família. Parece pouco espaço para assunto tão grande. É justamente o contrário. A casa dos Taylor é o país. E a mesa de jantar é o campo de batalha. Tudo começa na comemoração dos 25 anos de casamento de Ellen e Paul Taylor, vividos por Diane Lane e Kyle Chandler. Família rica, bem-sucedida, progressista, aparentemente sólida. Os filhos chegam para a festa e o filho Josh aparece acompanhado da nova namorada, Liz, interpretada por Phoebe Dynevor. Ellen imediatamente a reconhece. Liz foi sua aluna na universidade e as duas tiveram um conflito no passado em torno de um trabalho acadêmico no qual a jovem defendia ideias de concentração política e partido único. O que parecia uma história velha entre professora e aluna logo revela outra coisa. Liz transformou aquelas ideias num livro e se tornou uma das figuras de um movimento político crescente chamado A Mudança. O nome, claro, é perfeito. Movimentos autoritários raramente se apresentam dizendo: “Olá, viemos acabar com suas liberdades”. Eles anunciam renovação. Ordem. Unidade. Segurança. Reconstrução. Mudança. Sempre mudança. O assustador em O Aniversário é justamente acompanhar como aquilo que inicialmente parece absurdo vai adquirindo respeitabilidade. Primeiro é uma ideia excêntrica. Depois vira livro. Depois discurso político. Depois movimento social. Depois comportamento aceitável. Finalmente, passa a definir o que pode ou não ser dito. Não acontece de uma vez. Acontece aos poucos. É assim também que a casa dos Taylor vai mudando. O roteiro avança no tempo acompanhando novos aniversários de casamento. A cada reencontro, alguma coisa foi perdida. Relações se alteraram. Pessoas mudaram de posição. Os silêncios ficaram maiores. Certos assuntos já não podem ser tratados da mesma maneira. A política deixou de estar “lá fora”. Está sentada à mesa.  

O autoritarismo de roupa limpa

Outro mérito enorme do filme é evitar a caricatura. Liz não parece uma vilã saída de um filme sobre nazistas. Não grita o tempo inteiro, não usa uniforme, não bate continência. É jovem, inteligente, elegante e sabe falar. Este talvez seja um dos aspectos mais importantes do filme para pensar a extrema direita contemporânea: o autoritarismo não precisa mais se apresentar com a estética do autoritarismo do século passado. Aliás, vem embalada no rótulo de uma grande empresa de tecnologia. Pode usar roupas bonitas, dominar as redes sociais, frequentar universidades, escrever livros e falar em renovação. Pode sorrir! O discurso vai chegando embalado em palavras aparentemente razoáveis. União nacional. Eficiência. Segurança. Superação das divisões. Defesa da maioria. Até que alguém percebe que, no pacote, estavam também a intolerância ao dissenso, a perseguição aos adversários e a ideia de que algumas pessoas têm menos direito de existir politicamente do que outras. Komasa deliberadamente evita associar A Mudança a um partido real. Mas o repertório é reconhecível: partido único, conformidade nacional, obediência política, eliminação progressiva da divergência. A linguagem pode ser nova, mas o mecanismo é bastante antigo. E o mais interessante é que o filme não está particularmente preocupado em explicar a ideologia de A Mudança em detalhes. Quer mostrar como ela funciona sobre as pessoas.

“Não vamos estragar o jantar falando de política”

Nesse ponto Paul, personagem de Kyle Chandler, o pai da família, talvez seja um dos mais interessantes. Ele não é um militante autoritário. Muito pelo contrário. O pai quer apenas que todo mundo se dê bem. Quer evitar brigas. Preservar a família. Manter a festa funcionando. Quando as coisas ficam tensas, prefere contemporizar. Há sempre um vinho para servir, uma conversa para mudar de assunto, uma possibilidade de dizer que talvez alguém esteja exagerando. É aquela velha esperança de que, se todo mundo moderar um pouco o tom, o problema desaparecerá. Não desaparece. O filme transforma a conciliação de Paul numa pergunta bastante desconfortável: até que ponto a tentativa permanente de não criar conflito ajuda justamente quem está disposto a destruir as regras que permitiam a convivência? É a versão política do clássico “não vamos falar disso para não estragar o jantar”. Só que o jantar já está estragado. O problema é que ninguém quer olhar para a situação azeda. O filme sugere, assim, algo fundamental: a normalização do autoritarismo não depende apenas dos fanáticos que o defendem. Depende também de uma quantidade razoável de pessoas que preferem acreditar que não é tão grave assim. Gente educada, sensata, equilibrada. Gente que pede calma.

Contradições e complexidades

Seria simples demais fazer de Ellen, a mãe,  apenas a heroína lúcida enfrentando uma fascista. O filme é melhor do que isso. Ellen percebe rapidamente o perigo de Liz, mas também carrega arrogância, rigidez e a segurança típica de quem passou boa parte da vida acreditando que determinados absurdos intelectuais jamais ultrapassariam os muros da universidade. Sua perplexidade é ver que ultrapassaram. Há nesse confronto uma crítica importante ao liberalismo confortável e a determinados setores da academia que acreditam que ideias autoritárias podem ser derrotadas simplesmente demonstrando que são intelectualmente ruins. Às vezes podem. Às vezes não. Porque política não é apenas argumento. É também pertencimento, ressentimento, identidade, medo, frustração e desejo de reconhecimento. Liz, a vilã disfarçada, encontrou nisso tudo um território fértil. Nada disso a absolve de suas escolhas. Ressentimento não transforma autoritarismo em resposta legítima. Mas ajuda a compreender de onde movimentos dessa natureza retiram parte de sua energia. Pessoas frustradas dificilmente se apaixonam por uma tabela de dados. Elas se apaixonam por narrativas. Principalmente por aquelas que explicam por que estão frustradas e ainda oferecem alguém para culpar.

Uma família inteira cabe dentro de um país

É por isso que confinar quase todo o filme à casa é uma escolha tão brilhante. O autoritarismo apresentado por O Aniversário não destrói primeiro as instituições. Destrói relações. Filhos se afastam dos pais. Irmãos passam a desconfiar uns dos outros. Afetos começam a depender de alinhamentos políticos. Pequenas concessões produzem concessões maiores. O país vai se modificando enquanto a família se modifica. Uma coisa espelha a outra. Não precisamos acompanhar o que acontece no parlamento porque vemos o que acontece entre irmãos. Não precisamos assistir às reuniões do governo porque percebemos o medo surgindo nas conversas domésticas. Não precisamos ver a multidão marchando porque seus efeitos já chegaram as fachadas e quintais com suas bandeiras Essa opção transforma um suspense político numa espécie de filme de terror doméstico. Porque todos conhecemos aquela sala. Talvez não aquela exatamente, mas alguma muito parecida. A mesa onde alguém disse uma barbaridade e outra pessoa preferiu mudar de assunto. A conversa em que uma frase intolerante foi tratada como simples “opinião” ou “liberdade de expressão”. O almoço no qual alguém resolveu não responder para evitar confusão. Nada disso significa que toda divergência política represente autoritarismo. Democracia existe justamente porque as pessoas podem discordar profundamente. A questão colocada pelo filme é outra. O que acontece quando alguém usa as liberdades da democracia para construir um sistema no qual essas mesmas liberdades deixarão de existir? É aí que a confortável neutralidade começa a ficar menos confortável.

O horror está justamente na normalidade

O Aniversário não é um filme perfeito. Há simplificações importantes e talvez falte explicar melhor por que A Mudança consegue conquistar tanta gente tão rapidamente. As estruturas econômicas (no caso uma mega corporação) e sociais que sustentariam tamanho processo político aparecem pouco. Mas talvez isso também seja consequência da escolha radical feita pelo roteiro. Estamos presos dentro daquela casa. Sabemos do mundo praticamente aquilo que a família sabe. E assim percebemos uma sociedade autoritária não pelos grandes acontecimentos históricos, mas pela alteração progressiva da vida cotidiana: Um livro desaparece da estante. Uma pessoa mede melhor as palavras. Outra prefere não responder. Uma relação profissional termina. Uma amizade se torna perigosa. Até que aquilo que seria impensável alguns anos antes passa a ser rotina. É essa normalidade que assusta. Porque O Aniversário não fala de um monstro que aparece de repente. Fala de uma sociedade que vai se acostumando com o monstro. Aos poucos. Entre um aniversário e outro. Entre uma concessão e outra. Entre um silêncio e outro. Talvez por isso o filme funcione tão bem como advertência sobre a fragilidade democrática neste começo de século. Não porque pretenda explicar completamente o fascismo ou qualquer outro autoritarismo. Mas porque mostra o seu processo de capilarização. O grande embate político não acontece apenas nas eleições, nos parlamentos ou nas ruas. Também acontece nos afetos, nas conversas, na linguagem, nas relações de trabalho e dentro das famílias. A política entra em casa porque a sociedade já estava dentro dela. No fim, talvez essa seja a imagem mais perturbadora deixada por O Aniversário: o fascismo nem sempre precisa arrombar a porta. Às vezes alguém abre, puxa uma cadeira, serve uma taça de vinho. E pede que, por favor, ninguém fale de política durante o jantar.

O Aniversário (Anniversary, 2025) Direção: Jan Komasa Roteiro: Lori Rosene-Gambino e Jan Komasa Com Diane Lane, Kyle Chandler, Phoebe Dynevor e Dylan O’Brien Duração: 1h51 Disponível no Prime Video.

Espiritismo não é neutralidade: política, consciência e responsabilidade coletiva em 2026

Gastão Cassel – EàE Santa Catarina

Há uma frase repetida com alguma frequência nos meios espíritas: “espiritismo não tem nada a ver com política”. À primeira vista, ela pode parecer uma recomendação prudente. Afinal, partidos são transitórios, candidatos são falíveis e instituições religiosas ou filosóficas não deveriam transformar-se em comitês eleitorais. O problema começa quando dessa prudência se extrai uma conclusão muito diferente: a de que as condições concretas em que as pessoas vivem — pobreza, desigualdade, violência, racismo, fome, destruição ambiental, acesso à saúde e à educação, direitos civis, liberdade e democracia — não pertencem ao campo das preocupações espíritas. Essa conclusão é difícil de conciliar com Allan Kardec. Não porque Kardec tenha formulado um programa partidário, naturalmente. O espiritismo nasceu no século XIX e não poderia fornecer respostas prontas às disputas eleitorais brasileiras do século XXI. Mas porque há, no pensamento espírita, uma concepção de ser humano, sociedade, progresso, justiça e responsabilidade que inevitavelmente produz consequências para nossa vida coletiva. E política, em seu sentido mais fundamental, é exatamente isso: a maneira pela qual organizamos a vida coletiva.

O espírito encarna em uma sociedade

Uma das dificuldades de determinada interpretação do espiritismo brasileiro é transformar a evolução espiritual em uma experiência quase exclusivamente privada. O indivíduo encarna, enfrenta suas provas, procura corrigir seus defeitos, pratica sua chamada “reforma íntima”, desencarna e prossegue sua caminhada. Nessa perspectiva, o mundo material torna-se quase um cenário diante do qual acontece uma história fundamentalmente individual. Mas O livro dos espíritos oferece outra perspectiva. Na questão 573, Kardec pergunta em que consiste a missão dos espíritos encarnados. A resposta inclui algo extraordinariamente concreto: auxiliar o progresso e “melhorar as instituições, por meios diretos e materiais”. Melhorar instituições. Há poucas expressões mais políticas do que essa. Instituições não são abstrações espirituais. São escolas, leis, governos, formas de organização da economia, sistemas de proteção social, relações de trabalho, mecanismos de distribuição de poder. São construções humanas que organizam a maneira pela qual milhões de pessoas convivem. O próprio texto acrescenta que tanto quem governa quanto quem instrui ou cultiva a terra participa desse processo. A evolução do espírito não ocorre fora da sociedade: ocorre dentro dela e, em alguma medida, transformando-a. O espiritismo, portanto, não pode ser reduzido a um projeto de salvação individual. O espírito não encarna sozinho. Encarnamos em famílias, comunidades, classes sociais, culturas e nações. Dependemos de outras pessoas para sobreviver desde o primeiro instante da existência corporal. Comemos aquilo que alguém produziu, usamos estradas que outras pessoas construíram, somos cuidados por sistemas coletivos de saúde, aprendemos em instituições de ensino, trabalhamos dentro de relações econômicas e somos protegidos — ou desprotegidos — pelas leis da sociedade em que vivemos. A existência humana é inevitavelmente coletiva.

A desigualdade não vem de Deus

Há outra passagem particularmente importante. Na questão 806 de O livro dos espíritos, Kardec pergunta: “É Lei da Natureza a desigualdade das condições sociais?” A resposta é inequívoca: “Não; é obra dos homens e não de Deus.” A afirmação tem consequências enormes. Se a desigualdade social fosse determinada por Deus, combater a desigualdade significaria combater uma ordem divina. Mas Kardec afirma exatamente o contrário: as desigualdades sociais são produzidas historicamente pelos seres humanos. Portanto, também podem e devem ser transformadas pelos seres humanos. A continuação da questão é igualmente esclarecedora. Perguntados se algum dia essas desigualdades desapareceriam, os espíritos associam sua superação ao desaparecimento do predomínio do egoísmo e do orgulho. É difícil imaginar uma crítica social mais clara. O egoísmo não aparece apenas como defeito psicológico ou de caráter de um indivíduo. Ele produz consequências sociais. Pode organizar relações econômicas, justificar privilégios e naturalizar uma sociedade na qual alguns acumulam excessos enquanto outros não conseguem satisfazer necessidades elementares. Por isso, combater o egoísmo não é somente modificar sentimentos privados. Também significa perguntar se nossas instituições alimentam ou reduzem o egoísmo, se distribuem oportunidades ou reproduzem privilégios, se protegem os vulneráveis ou ampliam sua vulnerabilidade. Na questão 914, ao tratar justamente do egoísmo, O livro dos espíritos chega novamente às instituições: para combatê-lo, afirma-se também a necessidade de reformar as instituições humanas que o alimentam. Não estamos diante de uma doutrina da passividade. Estamos diante de uma concepção de progresso que relaciona transformação moral e transformação social.

Caridade não é substituir justiça

Outra deformação frequente consiste em imaginar que os problemas sociais se resolvem exclusivamente pela caridade individual. Distribuir alimento a quem tem fome é indispensável. Amparar quem sofre é obrigação moral. Acolher quem necessita de ajuda é uma das expressões mais belas da solidariedade. Mas surge uma pergunta inevitável: por que alguém está com fome? Se a cada semana distribuímos cem cestas básicas e, na semana seguinte, existem outras cem famílias necessitando delas, a caridade exige que continuemos oferecendo alimento. Mas a razão também exige que perguntemos por que uma sociedade capaz de produzir comida em abundância produz simultaneamente pessoas que não conseguem comprá-la. Nesse momento, a caridade encontra a política. Não para abandonar o auxílio imediato, mas para acrescentar outra dimensão: transformar as condições que produzem continuamente o sofrimento que tentamos aliviar. O manifesto publicado pelo Espíritas à Esquerda nas eleições de 2022 recordava uma afirmação particularmente expressiva da questão 930 de O livro dos espíritos: numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deveria morrer de fome. Não se trata apenas de dar pão. Trata-se de organizar a sociedade para que ninguém seja privado dele. Essa diferença é essencial. A solidariedade socorre. A justiça procura impedir que seja necessário socorrer sempre as mesmas vítimas das mesmas estruturas. As duas coisas são necessárias.

Somos responsáveis pelo mundo em que reencarnamos

A reencarnação acrescenta ainda uma dimensão interessante a essa questão. Se acreditamos que nossa trajetória espiritual ocorre através de múltiplas existências, a sociedade que construímos não é apenas uma herança que deixaremos abstratamente “para nossos filhos e netos”. É também um mundo ao qual nós mesmos, como espíritos, poderemos retornar. Kardec percebe essa dimensão coletiva do progresso ao discutir, nas questões 789 e seguintes, o desenvolvimento das sociedades. A humanidade avança por meio das pessoas que se esclarecem e transformam progressivamente seu ambiente social. Essa concepção desfaz a oposição simplista entre evolução individual e evolução coletiva. Uma sociedade mais justa cria melhores condições para o desenvolvimento daqueles que nela encarnam. Uma sociedade mais violenta, desigual e autoritária multiplica obstáculos, sofrimentos e conflitos. Construir instituições melhores é, portanto, também trabalhar pelas condições em que se realizará a experiência espiritual de todos. Inclusive, possivelmente, a nossa.

O que significa ser uma sociedade civilizada?

A palavra “civilização” merece especial atenção num momento eleitoral. Na questão 793, Kardec pergunta por quais sinais se poderia reconhecer uma civilização completa. A resposta não fala de riqueza, tecnologia, poder militar ou grandes obras. O critério fundamental é o desenvolvimento moral. No comentário que acompanha a questão, a sociedade verdadeiramente civilizada aparece relacionada à diminuição do egoísmo, da cobiça e do orgulho, à liberdade da inteligência, à bondade e à generosidade, à redução dos preconceitos, a leis que não consagrem privilégios e que protejam igualmente as pessoas. É uma definição exigente de civilização, mas principalmente oferece um critério bastante atual para pensar a política. Não basta perguntar se uma candidatura promete crescimento econômico. É preciso perguntar: crescimento para quem? Não basta perguntar se promete ordem. É preciso perguntar: uma ordem construída sobre quais direitos? Não basta perguntar se invoca valores morais. É preciso perguntar: esses valores produzem solidariedade, respeito e proteção das pessoas ou produzem perseguição e exclusão? Não basta perguntar se alguém fala em Deus. É necessário observar o que faz com os filhos de Deus. O próprio Kardec é contundente em O que é o espiritismo ao distinguir a aparência religiosa da prática do bem. Uma crença, por mais correta que seu adepto a considere, perde valor moral quando serve de justificativa para atos desumanos ou contrários à caridade. Esse princípio deveria produzir enorme cautela diante da instrumentalização eleitoral da religião.

Espiritismo e política não significam espiritismo partidário

Reconhecer a dimensão política do espiritismo não significa transformar Kardec em cabo eleitoral. Seria tão equivocado dizer que “espírita precisa pertencer a determinado partido” quanto afirmar que “espírita não deve se preocupar com política”. O espiritismo não fornece uma legenda. Fornece princípios. E princípios sempre precisam ser confrontados com a realidade. Entre tais princípios estão a dignidade de todas as pessoas, a solidariedade, a igualdade de direitos, a liberdade de consciência, a justiça, a proteção da vida, a superação do egoísmo, o progresso das instituições e o compromisso com aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade. São critérios suficientemente concretos para impedir uma suposta neutralidade moral. Porque nem todas as propostas políticas são equivalentes diante deles. Projetos que ampliam direitos e projetos que os restringem não são a mesma coisa. Políticas que reduzem desigualdades e políticas que aprofundam privilégios não são a mesma coisa. Defender a liberdade religiosa e utilizar uma religião para impor regras ao conjunto da sociedade não são a mesma coisa. Proteger instituições democráticas e enfraquecê-las não são a mesma coisa. Combater preconceitos e mobilizá-los eleitoralmente não são a mesma coisa. Preservar a vida e tratar determinadas vidas como descartáveis não são a mesma coisa. Reconhecer essas diferenças não é transformar o espiritismo em partido. É levar seus princípios a sério.

A ilusão da neutralidade

Existe ainda uma questão incômoda. Diante de uma injustiça concreta, a neutralidade nem sempre produz um resultado neutro. Imagine uma situação simples: alguém mais forte agride alguém mais fraco diante de nós. Podemos decidir não participar da agressão. Mas se temos possibilidade de interrompê-la e simplesmente declaramos que “não queremos tomar partido”, nossa omissão interfere objetivamente no resultado. A vida social apresenta situações muito mais complexas, evidentemente. Mas o princípio permanece. Todas as decisões coletivas distribuem recursos, direitos, oportunidades e poder. Um orçamento público é uma escolha. Uma política ambiental é uma escolha. Uma legislação trabalhista é uma escolha. A existência ou não de programas contra a fome é uma escolha. Financiar escolas ou abandoná-las é uma escolha. Fortalecer ou enfraquecer políticas de saúde é uma escolha. Garantir ou retirar direitos é uma escolha. E votar também é uma escolha. Não existe voto sem consequência social. Por isso a consciência espírita não deveria perguntar apenas: “o que é melhor para mim?” Precisaria acrescentar: O que esta escolha produz para o outro?, especialmente para quem possui menos poder do que eu.

As eleições de 2026

Em outubro de 2026, milhões de brasileiros voltarão às urnas, novamente estarão em disputa muito mais do que nomes. Estarão em disputa concepções diferentes de sociedade, de democracia, de economia, de direitos, de meio ambiente, de cultura, de ciência e do papel do Estado. Nenhum candidato deve ser sacralizado. Nenhum dirigente político é espírito missionário simplesmente porque seus admiradores assim desejam. Nenhuma comunicação mediúnica deveria substituir análise política. Nenhuma profecia deveria substituir informação. Nenhum médium deveria substituir a consciência do eleitor. A fé raciocinada exige justamente o contrário: informação, investigação, comparação entre palavras e atos e disposição para submeter nossas próprias preferências à crítica. O espírita pode — e provavelmente deve — fazer perguntas muito concretas. Que projeto reduz a desigualdade? Qual protege melhor a democracia e suas instituições? Qual reconhece a igualdade fundamental entre as pessoas? Qual assegura maior proteção aos trabalhadores e aos vulneráveis? Qual trata a educação e a ciência como instrumentos de progresso? Qual protege o meio ambiente e as condições de vida das próximas gerações? Qual respeita a liberdade religiosa e o Estado laico? Qual promove políticas capazes de diminuir a fome, a pobreza e a exclusão? Qual transforma em políticas públicas aquilo que tantas vezes chamamos, dentro das casas espíritas, de fraternidade, solidariedade e amor ao próximo? Essas questões não determinam mecanicamente um voto. Mas tornam impossível dizer que todos os projetos de sociedade possuem o mesmo significado moral.

O Reino precisa começar aqui

Talvez uma das interpretações mais empobrecedoras da espiritualidade seja imaginar que o sofrimento deste mundo importa pouco porque existe outra vida depois dele. Se existe vida depois da morte, isso deveria aumentar, e não diminuir, nossa responsabilidade pela vida antes da morte. Estamos aqui. É aqui que alguém sente fome. É aqui que uma criança precisa de escola. É aqui que uma pessoa adoecida necessita de atendimento. É aqui que alguém sofre racismo, violência ou discriminação. É aqui que rios são contaminados e florestas destruídas. É aqui que trabalhadores precisam viver com dignidade. É aqui que instituições podem proteger o fraco ou servir ao forte. É aqui que fazemos escolhas. E talvez esteja justamente nisso uma das dimensões mais profundas da encarnação. Não passamos pela Terra apenas para aperfeiçoar silenciosamente nossa individualidade, como estudantes preocupados exclusivamente com a própria nota. Participamos de uma experiência coletiva. Aprendemos uns com os outros. Dependemos uns dos outros. Transformamos uns aos outros. Kardec não nos oferece uma cédula eleitoral preenchida. Oferece algo mais trabalhoso: princípios diante dos quais precisamos assumir responsabilidade pelas nossas próprias escolhas. Nas eleições, como na vida, o livre-arbítrio não significa que todas as escolhas sejam moralmente equivalentes. Significa justamente que somos responsáveis por elas. E talvez a pergunta fundamental para 2026 não seja simplesmente “em quem vou votar?”, mas uma pergunta anterior e mais exigente: que sociedade estou ajudando a construir com o meu voto? Para quem compreende o espiritismo como compromisso com o progresso, a igualdade, a solidariedade e a transformação das instituições humanas, essa nunca poderá ser uma questão secundária.

O mundo vai acabar?

COLUNA – Nós contra o fim do mundo – Por Sinuê Neckel Miguel

No carnaval de 2024, Baby Consuelo e Ivete Sangalo protagonizaram um embate sobre o apocalipse. De um lado a enunciação do fim iminente, do outro a declaração confiante de sua anulação por força da vontade. Claro, a linguagem e o contexto envolviam o desejo de domínio de uma vertente teológica neopentecostal e, no outro campo, a ânsia de uma retomada de controle da situação por meio de palavras reconfortantes aderentes ao espírito festivo carnavalesco. A reação de boa parte da esquerda foi um misto de ridicularização ao “extravagante” e de crítica ao ímpeto invasivo e agressivo da estratégia de conquista religiosa utilizada por Baby Consuelo. Embora seja necessário marcar posição contra tal estratégia, creio que algo ainda mais importante se perdeu. Eu me refiro ao reconhecimento do espírito do nosso tempo e da base objetiva que lhe suporta, a fim de disputar sua interpretação e imprimir a reação de que precisamos com urgência máxima. Expectativas proféticas ligadas ao “fim do mundo” abundam na história, em particular no âmbito do cristianismo, legando-nos alguma disposição a pensarmos em termos de finitude da aventura humana na Terra. A devida compreensão dessa complexa configuração religiosa dos temores atuais merecerá uma apreciação cuidadosa em texto vindouro. Importa apontar, de imediato, que a experiência religiosa contemporânea influencia e é influenciada pela cultura de massa produzida pela indústria cultural. Embora tenhamos um considerável repertório apocalíptico no nosso imaginário hollywoodiano, temos vivido, coletivamente, em modo de negação acerca das ameaças reais ao nosso futuro. Nos acostumamos a consumir distopias em cenários pós-apocalípticos, desencadeados por toda a sorte de catástrofes globais envolvendo guerra nuclear, crise de infertilidade, vírus e pandemias altamente letais, geoengenharia, máquinas inteligentes, asteroides, escassez de recursos, colapso da agricultura e colapso climático. Esse imaginário apocalíptico parece ambíguo. Por um lado, é capaz de nutrir em nós um sorrateiro sentimento de antecipação do futuro distópico, talvez até levando a algum desconforto com o presente. Em alguns casos, obras apocalípticas provocam sérios questionamentos éticos e grande impacto emocional – a depender, é claro, de vários fatores ligados a nós, os receptores da mensagem. É o caso de filmes de sucesso, como Não olhe para cima (2021), de Adam McKay, mas também de filmes menos conhecidos, como Pequena Grande Vida (2017), de Alexander Payne. O problema é que o caráter de entretenimento motivado pela busca de sucesso comercial parece predominar. Acabamos nos divertindo com o cinema da catástrofe, cheio de ação, heróis salvadores e destruição esteticamente atraente. O futuro apocalíptico acaba assimilado como fantasia de ficção científica, vagamente distante. Passivos diante das imagens que consumimos com excitação e aliviados com a catarse dos desfechos de salvação, vamos nos acomodando em nossa dessensibilização frente às ameaças reais que estão em curso. Entender a nossa paralisia política e nosso bloqueio emocional é uma das pré-condições fundamentais para encontrarmos alguma saída para escaparmos do abismo para onde estamos nos dirigindo. Por isso voltaremos muitas vezes a esse tópico em textos futuros. Por ora, quero enfatizar a necessidade de nos abrirmos para um diálogo franco sobre os riscos reais que ameaçam o nosso mundo – isto é, o clima, o solo, as águas, a biodiversidade que sustentam a humanidade na escala global que atingimos. O Planeta Terra é resiliente sim. A vida já se recuperou de extinções em massa por cinco vezes. Mas, o que está em jogo são as condições estruturais para a vida humana organizada em grande escala (o que costumamos chamar de civilização) e para a riquíssima vida não humana que coabita conosco este planeta. No limite (os piores “cenários”), estamos falando do risco de chegarmos à beira de nossa própria extinção. É, portanto, difícil encontrar adjetivos adequados para falar a respeito disso com o devido tom de gravidade. Vou tentar começando com uma longa citação do best-seller A terra inabitável: uma história do futuro, do jornalista David Wallace-Wells: “É pior, muito pior do que você imagina. A lentidão da mudança climática é um conto de fadas, talvez tão pernicioso quanto aquele que afirma que ela não existe, e chega a nós em um pacote com vários outros, numa antologia de ilusões reconfortantes: a de que o aquecimento global é uma saga ártica, que se desenrola num lugar remoto; de que é estritamente uma questão de nível do mar e litorais, não uma crise abrangente que afeta cada canto do globo, cada ser vivo; de que se trata de uma crise do mundo “natural”, não do humano; de que as duas coisas são diferentes e vivemos hoje de algum modo alijados, acima ou no mínimo protegidos da natureza, não inescapavelmente dentro dela e literalmente sujeitados a ela; de que a riqueza pode ser um escudo contra as devastações do aquecimento. De que a queima de combustíveis fósseis é o preço do crescimento econômico contínuo; de que o crescimento e a tecnologia que ele gera nos propiciarão a engenharia necessária para escapar do desastre ambiental; de que há algum análogo dessa ameaça, em escala ou escopo, no longo arco da história humana, capaz de nos deixar confiantes de que sairemos vitoriosos dessa nossa mediação de forças com ela. Nada disso é verdade.” Há pelo menos cerca de três décadas existe conhecimento científico muito robusto sobre o caráter antropogênico (isto é, de causa humana) do aquecimento global e sobre sua gravidade. Conhecimento colocado ao alcance do público, dos governantes e de todos os atores econômicos que concentram poder em nosso Planeta. Mas, acordo após acordo nas esferas de negociação global, as conferências do clima, não estamos nem perto de desviarmos da rota suicida na qual estamos, como civilização e como humanidade. E não é que as emissões de gases de efeito estufa não estejam diminuindo na velocidade requerida. Elas sequer estão diminuindo. Na verdade, globalmente, seguem aumentando, ano após ano e, pasmem, em velocidade crescente. Fala-se muito em transição energética. As chamadas fontes de energia renováveis, se confiarmos em discursos institucionais e empresariais reconfortantes (tais como as palavras de Ivete), irão nos salvar. Só que não. Pelo menos não por mera adição. Nosso modo de vida capitalista é grotescamente “energívoro”. Nos atuais padrões de produção e consumo não há a menor chance de transição energética. Aliás, nunca houve transição energética na história. Sempre houve adição simbiótica. A história real é biomassa + carvão + petróleo + nuclear + hidrelétrica + eólica + solar. Em números absolutos, nenhuma fonte diminui, só aumenta. Devoramos o mundo mineral e os combustíveis fósseis numa escala colossal. As renováveis não chegarão nem perto de fazer o milagre prometido. A única saída, portanto, é revolucionária. Na verdade, apenas o começo da possibilidade de uma saída, ainda carregada de imensos riscos, inclusive existenciais. Nos próximos textos, pretendo deixar claro o porquê de tão grave conclusão. Para concluir, insisto: encaremos a realidade de frente. O espírito do nosso tempo é, com justa razão, o de fim do mundo. Fim do nosso mundo – das condições de habitabilidade para a nossa espécie e para quase todas as demais. Reconhecer esse risco real e crescente é apenas o primeiro passo para a luta hercúlea que devemos travar.

Para saber mais, recomendo:

BARRETO, Eduardo Sá. O capital na estufa: para a crítica da economia das mudanças climáticas. Rio de Janeiro: Consequência, 2019.

_______. Ecologia marxista para pessoas sem tempo. São Paulo: Usina Editorial, 2022.

BONNEUIL, Christophe e FRESSOZ, Jean-Baptiste. L’événement Anthropocène : la Terre, l’histoire et nous. Paris: Éditions du Seuil, 2016.

FRESSOZ, Jean-Baptiste. Sans transition. Une nouvelle histoire de l’énergie. Paris: Éditions du Seuil, 2024.

MARQUES, Luiz. Capitalismo e colapso ambiental. Campinas: Editora da Unicamp, 2018.

_______. O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência. São Paulo: Editora Elefante, 2023.

WALLACE-WELLS, David. A terra inabitável: uma história do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Canal no YouTube: O que você faria se soubesse o que eu sei?  sob o comando do prof. Alexandre Araújo Costa.

Sinal dos tempos

COLUNA – Nós contra o fim do mundo – Por Sinuê Neckel Miguel

Just stop your crying, it’s a sign of the times (Apenas pare de chorar, é um sinal dos tempos)

We gotta get away from here (Temos que sair daqui) We gotta get away from here (Temos que sair daqui)

Stop your crying, baby, it’ll be alright (Pare de chorar, amor, vai ficar tudo bem)

They told me that the end is near (Eles me disseram que o fim está próximo)

We gotta get away from here (Temos que sair daqui)

Harry Styles, Sign of the Times

Gostaria de começar esta coluna de um modo bastante honesto. Para isso, terei de ser mais pessoal, menos restrito à exposição de conhecimento científico e ao esforço analítico para tirarmos daí as possíveis ou necessárias conclusões. Após um certo período de “silêncio”, decidi voltar a escrever sobre o colapso socioambiental em curso, no qual a emergência climática tem um papel central. As razões são múltiplas: algum efeito terapêutico para minha própria angústia (muitos chamam isso de ansiedade climática), as minhas próprias limitações em me comunicar cara a cara com as pessoas (em geral indispostas a falar de algo tão “desagradável”), um sentimento de dever (talvez culpa?), por vezes bastante perturbador… Mas, creio que a principal das razões se localiza num fio de esperança (talvez religiosa – a fé) de que ainda podemos operar uma espécie de “milagre”: um despertar do sono coletivo para uma revolução capaz de reverter o curso do colapso. Não é fácil encontrar alguma razão para a esperança. Na verdade, cada nova informação sobre clima, solo, água ou biodiversidade me leva tristemente a um reforço do meu (adquirido) pessimismo – ou, mais propriamente, do meu desolador realismo. É desesperador. Ainda mais porque eu sempre cultivei um imenso otimismo. Minha visão de mundo, muito alicerçada no espiritismo, me dava confiança de que os grandes problemas da humanidade são superáveis. Evoluímos, aprendemos com a experiência, somos, afinal, espíritos imortais. Cedo ou tarde, o capitalismo haveria de ser superado. O amor, um dia, vencerá. O colapso em curso, no entanto, leva a dolorosas conclusões. É sobre isso que pretendo falar nos meus próximos textos. Mas, além da discussão racional sobre tais conclusões, não poderei evitar o tom de desabafo. Não poderei deixar de confidenciar meus maiores temores, minhas dúvidas e até meus devaneios. Acredito que precisamos desse lugar de apreciação em que sentimentos, como a raiva, a tristeza, o medo ou a culpa, possam ter lugar. Daí talvez possamos “libertar o futuro” da paralisia do que Mark Fisher chamou de “realismo capitalista”. Daí talvez possamos fazer com que a emergência climática deixe de ser apenas matéria espasmódica do noticiário, um domínio de especialistas, de ativistas bem formados ou de influencers digitais. A palavra precisa ser liberada. Para todos, para as pessoas comuns, que não se sentem aptas, concernidas ou que de algum modo temem encarar o monstro climático de frente. Espero contribuir com isso. Falarei de números, sim. De informação científica. De projeções, de cenários futuros possíveis e prováveis. Porém, mais do que informar, minha intenção é incomodar, provocar, comover. Porque temos urgência. Uma urgência extrema porque tudo o que está por vir é extremo. Os sinais – ou, em termos mais científicos, as evidências – já estão aí. Basta querer olhar. Um provável El Niño histórico já está em curso, num mundo muito mais aquecido que no passado (mais precisamente, em 2025 ficamos em 1,44°C acima da temperatura pré-industrial). Em 1877, o maior El Niño já registrado levou à morte cerca de 4% da população mundial. Claro, o que se explica também por razões sociais, econômicas e políticas. Nos termos de Mike Davis, as devastadoras secas (desencadeadas por esse super El Niño) que varreram, aos milhões, populações na Ásia, na África e na América do Sul, notadamente no Nordeste brasileiro, foram holocaustos coloniais da era vitoriana. Para termos algum parâmetro, importa dizer que a estimativa de aquecimento das águas do Pacífico desse El Niño de 1877 é de +2,7°C. De acordo com o Met Office, o serviço meteorológico britânico, o evento atual está no caminho de superar os 3 graus de anomalia térmica no Oceano Pacífico. Ou seja, um recorde histórico. Devemos enfrentar, portanto, secas extremas no Norte e Nordeste do Brasil, chuvas torrenciais com potencial de provocar grandes enchentes no Sul e, por toda parte, sucessivas e intensas ondas de calor. Mais grave ainda, entre 2026 e 2027 ultrapassaremos em definitivo, com toda a probabilidade, o famoso limiar de segurança de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris. Estamos no rumo da catástrofe. São abundantes as evidências de que a emergência climática não é apenas sobre o futuro, mas sobre o nosso presente. Os gigantescos incêndios que nos últimos meses estão assolando a Europa, num contexto de seca histórica e oceanos super aquecidos, forçaram o deslocamento de 370 mil pessoas só na Espanha e na França. O Danúbio e o Reno, para citar os mais ilustres rios desse continente, foram reduzidos a patamares mínimos históricos, o que forçou o desligamento ou a redução de atividade de reatores nucleares (que dependem dos rios para seu resfriamento). Infelizmente, isso é apenas um vislumbre do tipo de colapso que está em curso.  A mais recente tragédia – a avalanche no Nepal, com toda a evidência tem como um dos fatores chave a aceleração do aquecimento global. Em cerca de 30 anos o Nepal perdeu quase um terço do gelo nas montanhas. Elas derreteram 65% mais rápido na última década do que na anterior. Esse derretimento aumenta o risco de colapso abrupto de geleiras – seja no Himalaia, nos Alpes ou nos Andes. Além disso, o derretimento do permafrost, o solo congelado do hemisfério norte, também torna mais instável a estrutura dessas grandes cordilheiras. Levando em consideração apenas os riscos de inundação por rompimento de lago glacial – fenômeno envolvido na tragédia do Nepal -, pode-se dizer que cerca de 15 milhões de pessoas já estão ameaçadas. Já passou da hora de reagirmos. As palavras da jornalista Eliane Brum são certeiras: É preciso entender que vivemos o momento de maior risco da trajetória da nossa espécie nesse planeta. As pessoas estão vivendo como se o amanhã fosse garantido. O capitalismo nos reduziu a consumidores e sequestrou nosso instinto de sobrevivência. Deixemos nosso instinto de sobrevivência nos guiar. Vamos quebrar a espiral do silêncio. Como diz a canção de Harry Styles, “nós não conversamos o suficiente, nós deveríamos nos abrir, antes que tudo seja demais”.

4º Encontro Nacional Espíritas à Esquerda acontece dia 15 de agosto em Florianópolis

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Florianópolis recebe, no próximo sábado, 15 de agosto, o 4º Encontro Nacional Espíritas à Esquerda. O evento será realizado a partir das 9h, na sede do Sindiprevs-SC, localizada na Rua Dom Jaime Câmara, 259, Centro, com participação gratuita. Realizados a cada dois anos, os Encontros Nacionais constituem um importante espaço de diálogo, reflexão e articulação da esquerda espírita brasileira. As edições anteriores aconteceram em Salvador, São Paulo e Brasília. Agora, em sua quarta edição, o encontro chega a Florianópolis dando continuidade a uma trajetória de construção coletiva que busca relacionar os princípios éticos e humanistas do Espiritismo com os grandes desafios sociais e políticos do nosso tempo. O encontro parte da compreensão de que o compromisso com a transformação social, com o enfrentamento das desigualdades e com a construção de relações baseadas na solidariedade e na fraternidade também integra a responsabilidade dos espíritas diante da sociedade. Essa perspectiva encontra respaldo na compreensão de que o aperfeiçoamento espiritual não pode ser tratado apenas como uma experiência individual, mas se realiza igualmente na relação com o outro e na busca do bem comum. Além de contribuir para o debate e a organização da esquerda espírita, o encontro pretende fortalecer os laços com as diferentes correntes progressistas presentes nas religiões e tradições espirituais brasileiras. Cristãos, integrantes de religiões de matriz africana, espiritualistas e pessoas vinculadas a outros credos compartilham experiências históricas de defesa da dignidade humana, da democracia, da justiça social e da paz. A aproximação entre essas diferentes tradições parte do reconhecimento de que a prática do bem, da solidariedade e da fraternidade não pertence exclusivamente a qualquer religião ou denominação. O diálogo e o respeito à pluralidade religiosa são elementos fundamentais para a construção de uma sociedade democrática e comprometida com a dignidade de todas as pessoas.

A Construção do Reino entre nós

A programação começa às 9h, com a abertura do encontro. Às 9h15, acontece o painel “A Construção do Reino entre nós”, que reunirá diferentes experiências dos campos religioso, social e político. Participam do painel:
  • Padre Vilson Groh;
  • Afrânio Boppré, vereador em Florianópolis e candidato ao Senado;
  • Carla Ayres, vereadora em Florianópolis e candidata a deputada federal;
  • Atena Roveda, vereadora em Porto Alegre e candidata a deputada federal.
O tema do painel dialoga diretamente com a ideia de que a construção de um mundo orientado pela justiça, pela igualdade e pela fraternidade não deve ser projetada exclusivamente para uma realidade futura ou espiritual. Na perspectiva defendida pelo Espíritas à Esquerda, a transformação precisa acontecer na realidade concreta, nas relações sociais e nas instituições construídas pela humanidade. Essa compreensão também encontra fundamento em O Livro dos Espíritos. Ao tratar das desigualdades sociais, Allan Kardec pergunta, na questão 806, se elas seriam uma lei da natureza. A resposta dos Espíritos é clara ao afirmar que são obra dos seres humanos, e não de Deus. Assim, enfrentar as estruturas que produzem desigualdade, sofrimento e exclusão pode ser compreendido também como parte do compromisso ético de quem busca uma sociedade mais fraterna.

Movimento Nacional Espíritas com Lula

Às 14h, a programação terá o lançamento do Movimento Nacional Espíritas com Lula, com a participação de representações partidárias. A atividade pretende constituir um espaço nacional de articulação de espíritas comprometidos com o campo democrático e popular, ampliando o diálogo entre espiritualidade, participação política e defesa de direitos. Mais do que reunir pessoas que compartilham uma determinada compreensão política, o 4º Encontro Nacional Espíritas à Esquerda pretende contribuir para a organização coletiva e para a construção de pontes entre diferentes setores progressistas da sociedade brasileira. Em uma realidade marcada por desigualdades, intolerâncias e diferentes formas de exclusão, o encontro reafirma a necessidade de transformar princípios como amor ao próximo, fraternidade, solidariedade, justiça e igualdade em compromissos concretos com o mundo em que vivemos. 4º Encontro Nacional Espíritas à Esquerda Data: 15 de agosto Horário: a partir das 9h Local: Sindiprevs-SC — Rua Dom Jaime Câmara, 259, Centro, Florianópolis Participação gratuita O EVENTO SERÁ TRANSMITIDO AO VIVO PELO YOUTUBE DO ESPÍRITAS À ESQUERDA

Mediunidade: dom ou maldição?

Elizabeth Hernandes – EàE do DF

Primeiro, esse é um texto do Brasil. Eu imagino que o termo mediunidade não seja tão usado, no dia a dia, no resto do mundo. Mas o resto do mundo que lute porque aqui é Brasil e todos, crentes, ateus e nem tanto, vivemos entre santos, orixás, espíritos e, ultimamente, também entre cultos evangélicos onde pessoas “falam em línguas”, fazem curas e expulsam demônios.  E tudo isso pode ser manifestação de mediunidade. E também mera e simples impostura. Grosso modo, mediunidade é a capacidade de se comunicar com inteligências invisíveis e continuar convivendo (quase normalmente) na sua comunidade, sem ninguém tentar, contra você, uma intervenção psiquiátrica involuntária. Mediunidade é coisa de gente que crê, mas acho muito engraçado quando conheço pessoas que “não creem em nada” e deixam escapar que sentiram um arrepio diante de um fato inusitado que, para o médium, é só mais uma segunda-feira de manhã[1]. Já falei sobre isso antes e já saí do armário das racionalidades: sou uma médium. E não, não posso adivinhar os números da Mega Sena. E, se pudesse, não revelaria, eu mesma jogaria. E tenho uma história muito estranha e engraçada sobre isso, mas fica para outra. Foco, foco. Voltando à gente que crê, embora haja pesquisa acadêmica sobre o fenômeno, a mediunidade é, principalmente, parte da vida de pessoas que se acreditam seres espirituais vivendo uma experiência material. Essa expressão não é minha. Não sei quem é o autor ou autora, mas gosto muito. Dia desses uma pesquisadora me entrevistou (como eu já disse, espíritas são objeto de estudo acadêmico no Brasil). No decorrer da entrevista eu percebi o peso das contradições que carrego. Sou espírita, portanto, acredito em vida antes do nascimento na terra e depois da morte. Mas sou feminista e defendo que o aborto não deve ser criminalizado e que é preciso acabar com a dominação patriarcal sobre o corpo das mulheres. Livre arbítrio é um dos princípios caros ao espiritismo. Além disso, tenho formação em pesquisa, conseguida a duras penas em três excelentes universidades –Usp, Unicamp e Unb–, portanto fui treinada pelo método cartesiano. Ainda assim, falo com pessoas invisíveis ou que só conheço em sonhos. E, revisitando a Usp, lembro de uma disciplina do doutorado, com um professor genial, carismático e ateu. A certa altura do debate, falei “… pois eu acredito em Deus e em espíritos”. Meus colegas pararam de respirar diante da minha impertinência porque lá na Usp ainda existia certa hierarquia. O professor: “Sério? E você está vendo algum espírito aqui? Tem algum espírito aqui?!”. E eu: “Aqui tem vários espíritos, mas, nesse momento, eu só vejo os encarnados”. Alguns segundos de silêncio, alguns risos nervosos e o professor: “Ainda vamos falar sobre isso”. Resumo da história: contrariando todas as expectativas, eu fui aprovada com nota máxima na cartesiana disciplina e fiquei amiga do dito ateu que hoje já é espírito desencarnado. Não tenho dúvida de que, se ainda não nos encontramos, nos encontraremos porque gostávamos muito um do outro e tudo nos mundos (assim mesmo no plural), material e imaterial, é questão de sintonia. Comecei esse texto pensando em falar sobre mediunidade para pessoas que “não entendem do assunto”, mas acho que, de alguma forma, toda pessoa brasileira entende um pouco disso: de ouvir falar ou vivenciar. É simples: é apenas um sentido mais aguçado, o próprio sexto sentido, não registrado nos manuais sobre o corpo humano. E é exercida de um jeito peculiar, por cada pessoa, como a caligrafia. Já repararam que existem caligrafias parecidas, mas nenhuma é igual? A caligrafia é um modo de identificar as individualidades, como a impressão digital. Mas a mediunidade pode ter conotações religiosas, filosóficas e até comerciais. E pode causar muito sofrimento emocional e até físico. No espiritismo, por exemplo, buscamos seguir os ensinamentos de Jesus (pelo menos tem gente que jura que segue) e somos criticados por outros cristãos que dizem que a comunicação com os espíritos é vedada pela bíblia. Mas esse mesmo pessoal que segue umas coisas e outras nem tanto da bíblia acredita em aparições de santos ou em comunicações do “espírito santo” (algumas vezes em línguas intraduzíveis). Eu não quero criticar ninguém e nem defender “o meu lado”. Sou a favor do estado laico justamente porque ele defende a liberdade de crença. Durante a maior parte da minha vida, meu maior interesse foi me tornar uma pessoa cada vez mais escolarizada. Não à toa, cumpri todos os graus da formação universitária. Eu me aceitava espírita e acreditava na mediunidade… dos outros. Fazia questão de dizer que meu lugar, na doutrina espírita, era o da assistência social. Já havia gente demais para trabalhar na seara mediúnica. Um dia eu não pude mais fugir do assunto e, claro, comecei pela parte que mais gosto: o  estudo. Qual não foi minha surpresa quando entendi que não poderia ficar só na teoria e deveria partir para a prática. Não foi fácil para uma pessoa que se preparou durante anos para explicar os fenômenos da vida sob a ótica da metodologia da pesquisa. E depois de aceitar isso, percebi que nada tinha sido tão terra a terra como eu gostaria de continuar acreditando. Havia lidado com fenômenos mediúnicos a vida toda, só não os admitira. Eu gostava mais de me assumir pesquisadora certificada por títulos universitários, mas a vida me impôs a grande escolha, que todo médium tem de fazer: se admitir louco ou se admitir médium. Eu, que não era besta nem nada, prefiro não ser a louca (e nunca chame uma mulher de louca, só lembrando). Mas o que eu gosto de ressaltar é que a mediunidade não é essa coca cola toda, sabe? Não confere superpoderes, nem mais sabedoria e nem mais santidade ou maldade. Não é um privilégio e tampouco um destino inescapável. Sobre privilégio e maldição, explico: nunca se deixe levar por pessoas que dizem que sabem ou veem mais do que os outros. As pessoas que agem assim podem até ser médiuns, mas estão exercitando a faculdade de modo equivocado. Estão tentando impressionar, estão disputando poder. E a mediunidade não deve ser usada para obter poder ou influência. E, sim, tem gente que vai usar e obter. Mas vai acabar tendo de prestar contas sobre isso. E pode prejudicar muita gente. A pessoa que se deixa pressionar ou impressionar por este tipo de médium (ou farsante, em muitos casos) tem alta probabilidade de se dar mal. Ninguém precisa temer médiuns ou mediunidades. Não existe nada sobrenatural em comunicar-se com pessoas ou energias imateriais ou invisíveis. É apenas um sentido a mais, e acredite quem quiser, literalmente. Vale repetir: não é uma maldição. Embora muita gente sofra os efeitos da própria mediunidade em descontrole e apresente sintomas que, algumas vezes, são confundidos com sintomas de doença mental –ou mesmo física–, tudo se resolve quando o indivíduo se dispõe a buscar ajuda. E ninguém é obrigado a exercê-la se não quiser. As pessoas que sofrem por causa dessa faculdade podem ser ajudadas por médiuns que sabem lidar com o fenômeno (em qualquer denominação religiosa) e por profissionais de saúde mental que podem, inclusive, ser totalmente céticos. O que importa, para médiuns e profissionais de saúde, é entender do assunto com o qual estão lidando e serem éticos. O resto, literalmente, Deus proverá. [1] Para saber mais leia O livro dos médiuns – Edição antirracista disponível em https://espiritasaesquerda.com.br/lancamento-nova-edicao-antirracista-de-o-livro-dos-mediuns-esta-disponivel-gratuitamente-em-pdf/

10 anos do EàE: Livraria Gratuita e novos Clássicos para pensar o espiritismo e a transformação social

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Como parte das comemorações de seus 10 anos de trajetória, o Coletivo Espíritas à Esquerda reúne e disponibiliza suas publicações na Livraria Gratuita, ao mesmo tempo em que lança a coleção Clássicos Espíritas à Esquerda. A iniciativa marca uma década de produção crítica, reafirmando o compromisso com a democratização do conhecimento e com a construção de um pensamento espírita conectado às lutas por justiça social. A Livraria Gratuita (clique aqui) passa a concentrar todas as obras já publicadas pelo coletivo, incluindo a coleção antirracismo, organizada ao longo dos últimos anos. Com download livre em PDF, o espaço consolida um acervo acessível a todas e todos, fundamentado na ideia de que o conhecimento não deve ser mercadoria, mas partilha — um instrumento de estudo, reflexão e transformação coletiva . Celebrando essa trajetória, o coletivo também apresenta a coleção Clássicos Espíritas à Esquerda, que propõe revisitar obras fundamentais a partir de uma leitura crítica e comprometida com o presente. Entre os primeiros títulos está Socialismo e Espiritismo, de Léon Denis, obra que estabelece um diálogo potente entre espiritualidade e organização social. Denis argumenta que não há evolução humana verdadeira sem enfrentar as desigualdades materiais, defendendo que fraternidade e justiça devem se expressar concretamente na vida coletiva. Seu pensamento aproxima o espiritismo das lutas sociais, indicando que a transformação do mundo exige tanto consciência quanto ação. Ao articular memória, produção própria e releitura de clássicos, o Espíritas à Esquerda celebra seus 10 anos fortalecendo um projeto que une espiritualidade, crítica social e compromisso com a construção de um mundo mais justo.

Vista-se com propósito com a “Lojinha Online” do Espíritas à Esquerda!

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Com alegria e muita luta, o Coletivo Espíritas à Esquerda lançou, na última sexta, 16 de janeiro,  a sua lojinha online! Agora, camisetas e canecas com ideias, frases e nossa identidade visual estão disponíveis para quem quiser apoiar e caminhar junto com esse projeto coletivo. CLIQUE AQUI PARA VER A LOJA Cada estampa carrega mais do que um desenho bonito — ela expressa uma escolha de mundo: antirracismo, justiça social, ecologia, solidariedade e espiritualidade crítica, engajada com a transformação das estruturas que geram dor, exclusão e desigualdade.

Por que criamos essa lojinha?

O Coletivo Espíritas à Esquerda mantém todas as suas atividades gratuitas: estudos, grupos de leitura, podcasts, lives, publicações das edições antirracistas de Kardec, participação em eventos e redes de luta por direitos humanos. Nada disso tem custo para quem participa. Mas, como todo trabalho coletivo, isso exige recursos. A lojinha é uma forma de autossustentação, com coerência e independência. Toda a renda obtida com as vendas será usada exclusivamente para manter as atividades e iniciativas do coletivo — site, materiais, impressões, ferramentas digitais, estrutura para eventos e mais. Ao adquirir um produto, você colabora diretamente com a continuidade e o fortalecimento desse movimento que não depende de doações institucionais, patrocínios ou vínculos com grupos religiosos ou políticos.

Ajude a transformar o mundo aqui e agora

Sabemos que o Espiritismo não se limita à vida espiritual futura, mas se compromete com a transformação do mundo aqui e agora. Por isso, dizemos com convicção: “Fora da justiça socioambiental não há salvação”. Essa frase, que também estampa uma de nossas camisetas, resume o espírito do coletivo. Não buscamos uma salvação individual, mas uma emancipação coletiva, que una espiritualidade, dignidade humana, cuidado com a vida e com o planeta. E isso começa nas pequenas escolhas — inclusive nas que fazemos ao nos vestir ou presentear alguém. Vista a causa. Apoie o coletivo. Espalhe ideias. Acesse a loja e escolha os produtos que mais falam com o seu coração: https://umapenca.com/espiritasaesquerda/

Lançamento: nova edição antirracista de O Livro dos Médiuns está disponível gratuitamente em PDF

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No dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, o coletivo Espíritas à Esquerda lançou a edição antirracista de O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec. A obra é o quarto volume da Coleção Antirracista de Kardec, que já conta com edições comentadas e gratuitas de O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro dos Espíritos e O Que É o Espiritismo. A live de lançamento, transmitida pelas redes sociais do coletivo, trouxe um diálogo profundo sobre mediunidade, racismo estrutural e responsabilidade histórica. O evento foi marcado por momentos de análise crítica do livro, leitura comentada do prefácio e reflexões sobre a importância da revisão dos clássicos espíritas à luz dos direitos humanos.

 ▶️ Assista à live completa aqui:

Uma obra essencial, agora com olhar antirracista

Publicado originalmente em 1861, O Livro dos Médiuns trata das manifestações dos Espíritos, dos diferentes tipos de mediunidade, dos critérios para o discernimento das mensagens recebidas e dos cuidados éticos no exercício dessa comunicação. A nova edição antirracista traz, além do texto original traduzido por Guillon Ribeiro, intervenções explicativas que comentam um trecho listado no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público Federal da Bahia em 2007. O TAC identificou 106 trechos de 21 livros de Allan Kardec que poderiam conter conteúdos potencialmente discriminatórios ou preconceituosos. A proposta da Coleção Antirracista é tornar visíveis essas passagens, analisá-las criticamente e promover um diálogo com os leitores sobre o contexto histórico e seus reflexos ainda presentes.

Principais destaques da live

Durante a transmissão, os integrantes do EàE destacaram:
  • A importância de revisitar as obras fundamentais do espiritismo com senso crítico e compromisso com a justiça social;
  • O papel ativo de médiuns e leitores na construção de uma prática espírita mais inclusiva e coerente com os valores de igualdade e respeito;
  • A necessidade de reconhecer as limitações de linguagem e visão de mundo presentes em textos do século XIX, quando viveu Kardec, sem abandonar os princípios espirituais neles contidos;
  • A escolha simbólica do Dia da Consciência Negra para lançar uma obra que nos convida a enxergar, no exercício mediúnico, também um espaço de reparação histórica e ética. 

Acesse gratuitamente

A obra completa está disponível gratuitamente para leitura e download em PDF no site do coletivo: 📘 Baixar O Livro dos Médiuns – Edição Antirracista (PDF) Com essa publicação, o Espíritas à Esquerda reafirma seu compromisso com um Espiritismo que dialoga com os desafios do presente e atua na superação de toda forma de preconceito. A mediunidade, como toda prática espiritual, também pode ser instrumento de libertação.

Espíritas à Esquerda vira tema de monografia na UFRGS

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O coletivo Espíritas à Esquerda acaba de ganhar um espaço importante no meio acadêmico: foi tema de uma monografia de graduação apresentada no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma das mais prestigiadas do país. A pesquisa, assinada por Luana Matos dos Reis, investigou como o coletivo tem promovido uma leitura progressista do espiritismo, articulando fé, justiça social e política. Intitulada “Manifestações públicas do coletivo Espíritas à Esquerda”, a monografia foi defendida no Departamento de Antropologia e lança luz sobre o papel do EàE como um agente de ruptura dentro do movimento espírita brasileiro, historicamente marcado por tendências conservadoras e apolíticas.

Um espiritismo que sai do gabinete e entra na luta

O estudo parte de uma constatação provocadora: embora a doutrina codificada por Allan Kardec contenha fortes elementos de ética social e compromisso com o progresso da humanidade, o espiritismo brasileiro se consolidou, em grande parte, como uma prática assistencialista e distante do debate político. O coletivo Espíritas à Esquerda surge como uma exceção a essa regra – e é exatamente isso que chama a atenção da pesquisadora. Luana analisa a atuação pública do coletivo nas redes sociais, com destaque para o Instagram, onde o EàE compartilha reflexões doutrinárias à luz de pautas como o antirracismo, os direitos humanos, a equidade de gênero e o combate à desigualdade. A pesquisa também considera as edições antirracistas das obras de Allan Kardec, projeto pioneiro do coletivo, como expressões concretas de uma militância doutrinária com os pés fincados na realidade social do Brasil.

Espiritismo com consciência social

Um dos pontos mais relevantes apontados pela monografia é o fato de o EàE não abandonar a base kardecista, mas reinterpretá-la a partir de um olhar comprometido com os grupos historicamente oprimidos. Ao invés de relativizar ou contornar trechos polêmicos, o coletivo escolhe confrontar e contextualizar, com intervenções críticas que abrem espaço para a reparação histórica e o diálogo. Para Luana, o coletivo representa “uma experiência inovadora de articulação entre religião e política no campo espírita”, que desafia a hegemonia conservadora e propõe uma nova forma de viver a espiritualidade: mais ativa, mais coletiva e mais justa.

Repercussão e caminhos

A presença do Espíritas à Esquerda como objeto de pesquisa em uma universidade pública é sinal claro de que a atuação do coletivo está ultrapassando os muros virtuais e ganhando relevância social. Mais do que isso, indica que há um campo fértil para o diálogo entre espiritualidade e ciência, fé e justiça, mediunidade e movimento. Ao final do trabalho, a autora conclui que o coletivo contribui para “ampliar os debates no campo religioso”, e aponta caminhos para um espiritismo comprometido com as demandas do presente e com a construção de um futuro mais igualitário.

VEJA AQUI A MONOGRAFIA COMPLETA