O mundo vai acabar?

Entre a alienação da indústria cultural e a urgência do colapso climático, a necessidade de encarar o risco existencial e a transição revolucionária.

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COLUNA – Nós contra o fim do mundo – Por Sinuê Neckel Miguel

No carnaval de 2024, Baby Consuelo e Ivete Sangalo protagonizaram um embate sobre o apocalipse. De um lado a enunciação do fim iminente, do outro a declaração confiante de sua anulação por força da vontade. Claro, a linguagem e o contexto envolviam o desejo de domínio de uma vertente teológica neopentecostal e, no outro campo, a ânsia de uma retomada de controle da situação por meio de palavras reconfortantes aderentes ao espírito festivo carnavalesco.

A reação de boa parte da esquerda foi um misto de ridicularização ao “estravagante” e de crítica ao ímpeto invasivo e agressivo da estratégia de conquista religiosa utilizada por Baby Consuelo. Embora seja necessário marcar posição contra tal estratégia, creio que algo ainda mais importante se perdeu. Eu me refiro ao reconhecimento do espírito do nosso tempo e da base objetiva que lhe suporta, a fim de disputar sua interpretação e imprimir a reação de que precisamos com urgência máxima.

Expectativas proféticas ligadas ao “fim do mundo” abundam na história, em particular no âmbito do cristianismo, legando-nos alguma disposição a pensarmos em termos de finitude da aventura humana na Terra. A devida compreensão dessa complexa configuração religiosa dos temores atuais merecerá uma apreciação cuidadosa em texto vindouro. Importa apontar, de imediato, que a experiência religiosa contemporânea influencia e é influenciada pela cultura de massa produzida pela indústria cultural.

Embora tenhamos um considerável repertório apocalíptico no nosso imaginário hollywoodiano, temos vivido, coletivamente, em modo de negação acerca das ameaças reais ao nosso futuro. Nos acostumamos a consumir distopias em cenários pós-apocalípticos, desencadeados por toda a sorte de catástrofes globais envolvendo guerra nuclear, crise de infertilidade, vírus e pandemias altamente letais, geoengenharia, máquinas inteligentes, asteroides, escassez de recursos, colapso da agricultura e colapso climático.

Esse imaginário apocalíptico parece ambíguo. Por um lado, é capaz de nutrir em nós um sorrateiro sentimento de antecipação do futuro distópico, talvez até levando a algum desconforto com o presente. Em alguns casos, obras apocalípticas provocam sérios questionamentos éticos e grande impacto emocional – a depender, é claro, de vários fatores ligados a nós, os receptores da mensagem. É o caso de filmes de sucesso, como Não olhe para cima (2021), de Adam McKay, mas também de filmes menos conhecidos, como Pequena Grande Vida (2017), de Alexander Payne. O problema é que o caráter de entretenimento motivado pela busca de sucesso comercial parece predominar. Acabamos nos divertindo com o cinema da catástrofe, cheio de ação, heróis salvadores e destruição esteticamente atraente. O futuro apocalíptico acaba assimilado como fantasia de ficção científica, vagamente distante. Passivos diante das imagens que consumimos com excitação e aliviados com a catarse dos desfechos de salvação, vamos nos acomodando em nossa dessensibilização frente às ameaças reais que estão em curso.

Entender a nossa paralisia política e nosso bloqueio emocional é uma das pré-condições fundamentais para encontrarmos alguma saída para escaparmos do abismo para onde estamos nos dirigindo. Por isso voltaremos muitas vezes a esse tópico em textos futuros. Por ora, quero enfatizar a necessidade de nos abrirmos para um diálogo franco sobre os riscos reais que ameaçam o nosso mundo – isto é, o clima, o solo, as águas, a biodiversidade que sustentam a humanidade na escala global que atingimos. O Planeta Terra é resiliente sim. A vida já se recuperou de extinções em massa por cinco vezes. Mas, o que está em jogo são as condições estruturais para a vida humana organizada em grande escala (o que costumamos chamar de civilização) e para a riquíssima vida não humana que coabita conosco este planeta. No limite (os piores “cenários”), estamos falando do risco de chegarmos à beira de nossa própria extinção.

É, portanto, difícil encontrar adjetivos adequados para falar a respeito disso com o devido tom de gravidade. Vou tentar começando com uma longa citação do best-seller A terra inabitável: uma história do futuro, do jornalista David Wallace-Wells:

“É pior, muito pior do que você imagina. A lentidão da mudança climática é um conto de fadas, talvez tão pernicioso quanto aquele que afirma que ela não existe, e chega a nós em um pacote com vários outros, numa antologia de ilusões reconfortantes: a de que o aquecimento global é uma saga ártica, que se desenrola num lugar remoto; de que é estritamente uma questão de nível do mar e litorais, não uma crise abrangente que afeta cada canto do globo, cada ser vivo; de que se trata de uma crise do mundo “natural”, não do humano; de que as duas coisas são diferentes e vivemos hoje de algum modo alijados, acima ou no mínimo protegidos da natureza, não inescapavelmente dentro dela e literalmente sujeitados a ela; de que a riqueza pode ser um escudo contra as devastações do aquecimento. De que a queima de combustíveis fósseis é o preço do crescimento econômico contínuo; de que o crescimento e a tecnologia que ele gera nos propiciarão a engenharia necessária para escapar do desastre ambiental; de que há algum análogo dessa ameaça, em escala ou escopo, no longo arco da história humana, capaz de nos deixar confiantes de que sairemos vitoriosos dessa nossa mediação de forças com ela.

Nada disso é verdade.”

Há pelo menos cerca de três décadas existe conhecimento científico muito robusto sobre o caráter antropogênico (isto é, de causa humana) do aquecimento global e sobre sua gravidade. Conhecimento colocado ao alcance do público, dos governantes e de todos os atores econômicos que concentram poder em nosso Planeta. Mas, acordo após acordo nas esferas de negociação global, as conferências do clima, não estamos nem perto de desviarmos da rota suicida na qual estamos, como civilização e como humanidade. E não é que as emissões de gases de efeito estufa não estejam diminuindo na velocidade requerida. Elas sequer estão diminuindo. Na verdade, globalmente, seguem aumentando, ano após ano e, pasmem, em velocidade crescente. Fala-se muito em transição energética. As chamadas fontes de energia renováveis, se confiarmos em discursos institucionais e empresariais reconfortantes (tais como as palavras de Ivete), irão nos salvar. Só que não. Pelo menos não por mera adição. Nosso modo de vida capitalista é grotescamente “energívoro”. Nos atuais padrões de produção e consumo não há a menor chance de transição energética. Aliás, nunca houve transição energética na história. Sempre houve adição simbiótica. A história real é biomassa + carvão + petróleo + nuclear + hidrelétrica + eólica + solar. Em números absolutos, nenhuma fonte diminui, só aumenta. Devoramos o mundo mineral e os combustíveis fósseis numa escala colossal. As renováveis não chegarão nem perto de fazer o milagre prometido.

A única saída, portanto, é revolucionária. Na verdade, apenas o começo da possibilidade de uma saída, ainda carregada de imensos riscos, inclusive existenciais. Nos próximos textos, pretendo deixar claro o porquê de tão grave conclusão.

Para concluir, insisto: encaremos a realidade de frente. O espírito do nosso tempo é, com justa razão, o de fim do mundo. Fim do nosso mundo – das condições de habitabilidade para a nossa espécie e para quase todas as demais. Reconhecer esse risco real e crescente é apenas o primeiro passo para a luta hercúlea que devemos travar.

Para saber mais, recomendo:

BARRETO, Eduardo Sá. O capital na estufa: para a crítica da economia das mudanças climáticas. Rio de Janeiro: Consequência, 2019.

_______. Ecologia marxista para pessoas sem tempo. São Paulo: Usina Editorial, 2022.

BONNEUIL, Christophe e FRESSOZ, Jean-Baptiste. L’événement Anthropocène : la Terre, l’histoire et nous. Paris: Éditions du Seuil, 2016.

FRESSOZ, Jean-Baptiste. Sans transition. Une nouvelle histoire de l’énergie. Paris: Éditions du Seuil, 2024.

MARQUES, Luiz. Capitalismo e colapso ambiental. Campinas: Editora da Unicamp, 2018.

_______. O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência. São Paulo: Editora Elefante, 2023.

WALLACE-WELLS, David. A terra inabitável: uma história do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Canal no YouTube: O que você faria se soubesse o que eu sei?  sob o comando do prof. Alexandre Araújo Costa.

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