COLUNA – Nós contra o fim do mundo – Por Sinuê Neckel Miguel
Just stop your crying, it’s a sign of the times (Apenas pare de chorar, é um sinal dos tempos)
We gotta get away from here (Temos que sair daqui)
We gotta get away from here (Temos que sair daqui)
Stop your crying, baby, it’ll be alright (Pare de chorar, amor, vai ficar tudo bem)
They told me that the end is near (Eles me disseram que o fim está próximo)
We gotta get away from here (Temos que sair daqui)
Harry Styles, Sign of the Times
Gostaria de começar esta coluna de um modo bastante honesto. Para isso, terei de ser mais pessoal, menos restrito à exposição de conhecimento científico e ao esforço analítico para tirarmos daí as possíveis ou necessárias conclusões. Após um certo período de “silêncio”, decidi voltar a escrever sobre o colapso socioambiental em curso, no qual a emergência climática tem um papel central. As razões são múltiplas: algum efeito terapêutico para minha própria angústia (muitos chamam isso de ansiedade climática), as minhas próprias limitações em me comunicar cara a cara com as pessoas (em geral indispostas a falar de algo tão “desagradável”), um sentimento de dever (talvez culpa?), por vezes bastante perturbador… Mas, creio que a principal das razões se localiza num fio de esperança (talvez religiosa – a fé) de que ainda podemos operar uma espécie de “milagre”: um despertar do sono coletivo para uma revolução capaz de reverter o curso do colapso.
Não é fácil encontrar alguma razão para a esperança. Na verdade, cada nova informação sobre clima, solo, água ou biodiversidade me leva tristemente a um reforço do meu (adquirido) pessimismo – ou, mais propriamente, do meu desolador realismo. É desesperador. Ainda mais porque eu sempre cultivei um imenso otimismo. Minha visão de mundo, muito alicerçada no espiritismo, me dava confiança de que os grandes problemas da humanidade são superáveis. Evoluímos, aprendemos com a experiência, somos, afinal, espíritos imortais. Cedo ou tarde, o capitalismo haveria de ser superado. O amor, um dia, vencerá.
O colapso em curso, no entanto, leva a dolorosas conclusões. É sobre isso que pretendo falar nos meus próximos textos.
Mas, além da discussão racional sobre tais conclusões, não poderei evitar o tom de desabafo. Não poderei deixar de confidenciar meus maiores temores, minhas dúvidas e até meus devaneios. Acredito que precisamos desse lugar de apreciação em que sentimentos, como a raiva, a tristeza, o medo ou a culpa, possam ter lugar. Daí talvez possamos “libertar o futuro” da paralisia do que Mark Fisher chamou de “realismo capitalista”. Daí talvez possamos fazer com que a emergência climática deixe de ser apenas matéria espasmódica do noticiário, um domínio de especialistas, de ativistas bem formados ou de influencers digitais. A palavra precisa ser liberada. Para todos, para as pessoas comuns, que não se sentem aptas, concernidas ou que de algum modo temem encarar o monstro climático de frente. Espero contribuir com isso.
Falarei de números, sim. De informação científica. De projeções, de cenários futuros possíveis e prováveis. Porém, mais do que informar, minha intenção é incomodar, provocar, comover. Porque temos urgência. Uma urgência extrema porque tudo o que está por vir é extremo. Os sinais – ou, em termos mais científicos, as evidências – já estão aí. Basta querer olhar.
Um provável El Niño histórico já está em curso, num mundo muito mais aquecido que no passado (mais precisamente, em 2025 ficamos em 1,44°C acima da temperatura pré-industrial). Em 1877, o maior El Niño já registrado levou à morte cerca de 4% da população mundial. Claro, o que se explica também por razões sociais, econômicas e políticas. Nos termos de Mike Davis, as devastadoras secas (desencadeadas por esse super El Niño) que varreram, aos milhões, populações na Ásia, na África e na América do Sul, notadamente no Nordeste brasileiro, foram holocaustos coloniais da era vitoriana. Para termos algum parâmetro, importa dizer que a estimativa de aquecimento das águas do Pacífico desse El Niño de 1877 é de +2,7°C. De acordo com o Met Office, o serviço meteorológico britânico, o evento atual está no caminho de superar os 3 graus de anomalia térmica no Oceano Pacífico. Ou seja, um recorde histórico. Devemos enfrentar, portanto, secas extremas no Norte e Nordeste do Brasil, chuvas torrenciais com potencial de provocar grandes enchentes no Sul e, por toda parte, sucessivas e intensas ondas de calor. Mais grave ainda, entre 2026 e 2027 ultrapassaremos em definitivo, com toda a probabilidade, o famoso limiar de segurança de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris. Estamos no rumo da catástrofe.
São abundantes as evidências de que a emergência climática não é apenas sobre o futuro, mas sobre o nosso presente. Os gigantescos incêndios que nos últimos meses estão assolando a Europa, num contexto de seca histórica e oceanos super aquecidos, forçaram o deslocamento de 370 mil pessoas só na Espanha e na França. O Danúbio e o Reno, para citar os mais ilustres rios desse continente, foram reduzidos a patamares mínimos históricos, o que forçou o desligamento ou a redução de atividade de reatores nucleares (que dependem dos rios para seu resfriamento). Infelizmente, isso é apenas um vislumbre do tipo de colapso que está em curso.
A mais recente tragédia – a avalanche no Nepal, com toda a evidência tem como um dos fatores chave a aceleração do aquecimento global. Em cerca de 30 anos o Nepal perdeu quase um terço do gelo nas montanhas. Elas derreteram 65% mais rápido na última década do que na anterior. Esse derretimento aumenta o risco de colapso abrupto de geleiras – seja no Himalaia, nos Alpes ou nos Andes. Além disso, o derretimento do permafrost, o solo congelado do hemisfério norte, também torna mais instável a estrutura dessas grandes cordilheiras. Levando em consideração apenas os riscos de inundação por rompimento de lago glacial – fenômeno envolvido na tragédia do Nepal -, pode-se dizer que cerca de 15 milhões de pessoas já estão ameaçadas.
Já passou da hora de reagirmos. As palavras da jornalista Eliane Brum são certeiras:
É preciso entender que vivemos o momento de maior risco da trajetória da nossa espécie nesse planeta. As pessoas estão vivendo como se o amanhã fosse garantido. O capitalismo nos reduziu a consumidores e sequestrou nosso instinto de sobrevivência.
Deixemos nosso instinto de sobrevivência nos guiar. Vamos quebrar a espiral do silêncio. Como diz a canção de Harry Styles, “nós não conversamos o suficiente, nós deveríamos nos abrir, antes que tudo seja demais”.

