Mediunidade: dom ou maldição?

Reflexões sobre a mediunidade no Brasil sob a ótica de uma pesquisadora acadêmica. Dom, fardo ou apenas um sexto sentido? Descubra essa perspectiva única.

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Imagem gerada por IA.

Elizabeth Hernandes – EàE do DF

Primeiro, esse é um texto do Brasil. Eu imagino que o termo mediunidade não seja tão usado, no dia a dia, no resto do mundo. Mas o resto do mundo que lute porque aqui é Brasil e todos, crentes, ateus e nem tanto, vivemos entre santos, orixás, espíritos e, ultimamente, também entre cultos evangélicos onde pessoas “falam em línguas”, fazem curas e expulsam demônios.  E tudo isso pode ser manifestação de mediunidade. E também mera e simples impostura.

Grosso modo, mediunidade é a capacidade de se comunicar com inteligências invisíveis e continuar convivendo (quase normalmente) na sua comunidade, sem ninguém tentar, contra você, uma intervenção psiquiátrica involuntária.

Mediunidade é coisa de gente que crê, mas acho muito engraçado quando conheço pessoas que “não creem em nada” e deixam escapar que sentiram um arrepio diante de um fato inusitado que, para o médium, é só mais uma segunda-feira de manhã[1].

Já falei sobre isso antes e já saí do armário das racionalidades: sou uma médium. E não, não posso adivinhar os números da Mega Sena. E, se pudesse, não revelaria, eu mesma jogaria. E tenho uma história muito estranha e engraçada sobre isso, mas fica para outra. Foco, foco.

Voltando à gente que crê, embora haja pesquisa acadêmica sobre o fenômeno, a mediunidade é, principalmente, parte da vida de pessoas que se acreditam seres espirituais vivendo uma experiência material. Essa expressão não é minha. Não sei quem é o autor ou autora, mas gosto muito.

Dia desses uma pesquisadora me entrevistou (como eu já disse, espíritas são objeto de estudo acadêmico no Brasil). No decorrer da entrevista eu percebi o peso das contradições que carrego. Sou espírita, portanto, acredito em vida antes do nascimento na terra e depois da morte. Mas sou feminista e defendo que o aborto não deve ser criminalizado e que é preciso acabar com a dominação patriarcal sobre o corpo das mulheres. Livre arbítrio é um dos princípios caros ao espiritismo. Além disso, tenho formação em pesquisa, conseguida a duras penas em três excelentes universidades –Usp, Unicamp e Unb–, portanto fui treinada pelo método cartesiano. Ainda assim, falo com pessoas invisíveis ou que só conheço em sonhos. E, revisitando a Usp, lembro de uma disciplina do doutorado, com um professor genial, carismático e ateu. A certa altura do debate, falei “… pois eu acredito em Deus e em espíritos”. Meus colegas pararam de respirar diante da minha impertinência porque lá na Usp ainda existia certa hierarquia. O professor: “Sério? E você está vendo algum espírito aqui? Tem algum espírito aqui?!”. E eu: “Aqui tem vários espíritos, mas, nesse momento, eu só vejo os encarnados”. Alguns segundos de silêncio, alguns risos nervosos e o professor: “Ainda vamos falar sobre isso”. Resumo da história: contrariando todas as expectativas, eu fui aprovada com nota máxima na cartesiana disciplina e fiquei amiga do dito ateu que hoje já é espírito desencarnado. Não tenho dúvida de que, se ainda não nos encontramos, nos encontraremos porque gostávamos muito um do outro e tudo nos mundos (assim mesmo no plural), material e imaterial, é questão de sintonia.

Comecei esse texto pensando em falar sobre mediunidade para pessoas que “não entendem do assunto”, mas acho que, de alguma forma, toda pessoa brasileira entende um pouco disso: de ouvir falar ou vivenciar. É simples: é apenas um sentido mais aguçado, o próprio sexto sentido, não registrado nos manuais sobre o corpo humano. E é exercida de um jeito peculiar, por cada pessoa, como a caligrafia. Já repararam que existem caligrafias parecidas, mas nenhuma é igual? A caligrafia é um modo de identificar as individualidades, como a impressão digital.

Mas a mediunidade pode ter conotações religiosas, filosóficas e até comerciais. E pode causar muito sofrimento emocional e até físico.

No espiritismo, por exemplo, buscamos seguir os ensinamentos de Jesus (pelo menos tem gente que jura que segue) e somos criticados por outros cristãos que dizem que a comunicação com os espíritos é vedada pela bíblia. Mas esse mesmo pessoal que segue umas coisas e outras nem tanto da bíblia acredita em aparições de santos ou em comunicações do “espírito santo” (algumas vezes em línguas intraduzíveis). Eu não quero criticar ninguém e nem defender “o meu lado”. Sou a favor do estado laico justamente porque ele defende a liberdade de crença.

Durante a maior parte da minha vida, meu maior interesse foi me tornar uma pessoa cada vez mais escolarizada. Não à toa, cumpri todos os graus da formação universitária. Eu me aceitava espírita e acreditava na mediunidade… dos outros. Fazia questão de dizer que meu lugar, na doutrina espírita, era o da assistência social. Já havia gente demais para trabalhar na seara mediúnica.

Um dia eu não pude mais fugir do assunto e, claro, comecei pela parte que mais gosto: o  estudo. Qual não foi minha surpresa quando entendi que não poderia ficar só na teoria e deveria partir para a prática. Não foi fácil para uma pessoa que se preparou durante anos para explicar os fenômenos da vida sob a ótica da metodologia da pesquisa. E depois de aceitar isso, percebi que nada tinha sido tão terra a terra como eu gostaria de continuar acreditando. Havia lidado com fenômenos mediúnicos a vida toda, só não os admitira. Eu gostava mais de me assumir pesquisadora certificada por títulos universitários, mas a vida me impôs a grande escolha, que todo médium tem de fazer: se admitir louco ou se admitir médium. Eu, que não era besta nem nada, prefiro não ser a louca (e nunca chame uma mulher de louca, só lembrando).

Mas o que eu gosto de ressaltar é que a mediunidade não é essa coca cola toda, sabe? Não confere superpoderes, nem mais sabedoria e nem mais santidade ou maldade. Não é um privilégio e tampouco um destino inescapável.

Sobre privilégio e maldição, explico: nunca se deixe levar por pessoas que dizem que sabem ou veem mais do que os outros. As pessoas que agem assim podem até ser médiuns, mas estão exercitando a faculdade de modo equivocado. Estão tentando impressionar, estão disputando poder. E a mediunidade não deve ser usada para obter poder ou influência. E, sim, tem gente que vai usar e obter. Mas vai acabar tendo de prestar contas sobre isso. E pode prejudicar muita gente. A pessoa que se deixa pressionar ou impressionar por este tipo de médium (ou farsante, em muitos casos) tem alta probabilidade de se dar mal.

Ninguém precisa temer médiuns ou mediunidades. Não existe nada sobrenatural em comunicar-se com pessoas ou energias imateriais ou invisíveis. É apenas um sentido a mais, e acredite quem quiser, literalmente.

Vale repetir: não é uma maldição. Embora muita gente sofra os efeitos da própria mediunidade em descontrole e apresente sintomas que, algumas vezes, são confundidos com sintomas de doença mental –ou mesmo física–, tudo se resolve quando o indivíduo se dispõe a buscar ajuda. E ninguém é obrigado a exercê-la se não quiser. As pessoas que sofrem por causa dessa faculdade podem ser ajudadas por médiuns que sabem lidar com o fenômeno (em qualquer denominação religiosa) e por profissionais de saúde mental que podem, inclusive, ser totalmente céticos. O que importa, para médiuns e profissionais de saúde, é entender do assunto com o qual estão lidando e serem éticos. O resto, literalmente, Deus proverá.

[1] Para saber mais leia O livro dos médiuns – Edição antirracista disponível em https://espiritasaesquerda.com.br/lancamento-nova-edicao-antirracista-de-o-livro-dos-mediuns-esta-disponivel-gratuitamente-em-pdf/

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