O líder marxista que vacinou toda a população de seu país Coletivo Pensar a História

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Nos anos 80, Thomas Sankara dava uma aula ao mundo e às organizações burguesas sobre como fazer uma campanha de vacinação eficaz e coerente.

Em 4 de agosto de 1983, o revolucionário marxista Thomas Sankara assumiu a presidência de Burkina Faso (então chamada Alto Volta) e, rapidamente, implementou uma série de programas, medidas e reformas que operariam transformações sociais inéditas no continente africano. Uma das prioridades de Sankara era a reestruturação do sistema de saúde do país e a criação de programas visando erradicar as epidemias que castigavam a população burquinesa. A primeira grande ação do Conselho Nacional da Revolução, em matéria de saúde, foi uma grande campanha de imunização chamada ‘Comando de Vacinação’, conduzida pelo farmacologista Abdoul Salam Kaboré, ministro da Saúde de Burkina Faso.

O ‘Comando de Vacinação’ foi um dos programas de imunização mais bem sucedidos do continente africano e se tornou um modelo replicado pela Organização Mundial da Saúde em países subdesenvolvidos. A campanha era ousada: previa a vacinação de todas as crianças burquinesas com idades entre 0 e 14 anos contra sarampo, meningite e febre amarela. Chamada pelo governo burquinês a colaborar, a OMS chegou a duvidar da viabilidade de tal operação. Burkina Faso era um dos países mais pobres da África e sofria já há 15 anos com uma seca prolongada que aumentou ainda mais o flagelo social entre os despossuídos do país. A taxa de mortalidade infantil burquinesa –150 mortes por mil nascimentos– era uma das maiores do mundo à época e o país quase não tinha centros médicos e infraestrutura que permitissem uma operação de imunização em larga escala.

A taxa de imunização das crianças burquinesas era inferior a 5%, uma das menores do planeta. Em função disso, as epidemias castigavam o país. A taxa de letalidade da meningite chegava a 11% e o sarampo causava metade das mortes das crianças com menos de quatro anos. Malgrado o tamanho do desafio, o governo revolucionário seguiu com a ambiciosa operação. A campanha foi precedida por um abrangente estudo comportamental da população e pela criação de um comitê interministerial para implementar uma abordagem multidisciplinar e multissetorial. Também foram criados comitês de vacinação regionais e distritais, além de elaborar listas de crianças que deveriam ser imunizadas. Foram publicados guias para profissionais de saúde, professores e pais, enquanto os militares criaram uma estratégia logística para transporte dos insumos.

Os Comitês de Defesa da Revolução convocaram civis para montar a infraestrutura necessária e mobilizar a população a aderir à vacinação. A campanha foi anunciada em outdoors e cartazes espalhados por escolas, bares e prédios públicos. Foram criados materiais informativos e encenadas peças de teatro sobre a importância da imunização. As redes de televisão e estações de rádio emitiam comunicados em todas as línguas locais conclamando a população a comparecer aos centros médicos para imunizar suas crianças. Países como Cuba, China e Coreia do Norte e organizações como OMS, UNICEF e Cruz Vermelha deram apoio logístico e financeiro para a campanha.

Em 25 de novembro de 1984, quando os centros de saúde foram abertos para dar início a vacinação, já havia filas gigantescas de populares com seus filhos aguardando pacientemente. Muitas pessoas vieram dos vilarejos mais distantes e isolados –até mesmo de países vizinhos. O governo decidiu não apenas imunizar as crianças, mas também os adolescentes e jovens adultos que os acompanhavam. Quase todos os centros médicos precisaram requisitar mais vacinas, pois o comparecimento foi bem acima do esperado.

A campanha de vacinação durou três semanas e foi um sucesso, elevando a taxa média de imunização de menos de 5% para mais de 80% –um dos maiores índices de imunização já registrados no continente africano até então. O sucesso da campanha surpreendeu os órgãos sanitários internacionais, que passaram a replicar a experiência burquinesa em outros países de baixa renda. O Comando de Vacinação continuou sendo realizado anualmente nos anos seguintes, adicionando novas vacinas, como o imunizante para poliomielite, expandindo cada vez mais seu alcance. Em 1986, o país vacinou quase 100% das crianças com menos de 5 anos. A ampla imunização permitiu ao governo controlar as epidemias de sarampo, febre amarela e meningite, liberando recursos para a compra de ambulâncias e reestruturação do sistema de saúde, que fora recentemente universalizado.

Em 1987, setores reacionários das forças armadas burquinesas, em conluio com os serviços secretos dos Estados Unidos e da França, orquestraram um golpe de Estado e assassinaram Thomas Sankara, encerrando o governo revolucionário de Burkina Faso. O país, desde então, passou a registrar graves retrocessos nos esforços de imunização. Os Comandos de Vacinação foram praticamente esvaziados e menos de uma década depois, em 1998, a imunização despencou de quase 100% para 29,3%. Como consequência, o país voltou a ser assolado por epidemias que já estavam quase erradicadas ao fim dos anos oitenta.”

Publicação original:

https://opartisano.org/…/o-lider-marxista-que-vacinou…/

Publicado no Facebook em 23 de Dezembro de 2020.

Ref/Link: no corpo do texto

3 COMENTÁRIOS

  1. Olá. Ótima publicação.
    Fiquei pensando , o q os setores reacionários e os EUA ganharam com o golpe que culminou no assassinato de Thomas?
    Qual o interesse de manter o país nesse atraso?

    • Os Estados Unidos interferem direta e indiretamente em todos os governos mundo a fora, é a forma que encontram de manter seu poder imperialista. Saqueiam e usurpam as riquezas naturais dos países que em sua vasta maioria tem essa condição facilitada por seus próprios líderes políticos. Os conhecidos lesa pátria. Moro e Bolsonaro são grandes exemplos, o juiz empregado da CIA, que ajudou a eleger o presidente funcionário dos interesses norte americanos. O golpe em Dilma e na democracia, a condenação sem provas de Lula são a maior prova do poder imperialista sem limites norte-americano.

  2. Embora Thomas Sankara seja celebrado por muitos, seu governo foi, de fato, uma ditadura militar e operou com táticas de repressão que são amplamente documentadas por historiadores e organizações de direitos humanos.

    Aqui estão os aspectos mais críticos e as controvérsias de seu regime:

    1. Comitês de Defesa da Revolução (CDRs)
    Inspirado no modelo cubano, Sankara criou os CDRs. Embora tivessem funções sociais, eles atuavam como milícias armadas nos bairros. Na prática, serviam como uma rede de vigilância para identificar “contra-revolucionários”. Isso gerou um clima de medo e perseguição política, onde cidadãos comuns denunciavam uns aos outros.

    2. Tribunais Populares Revolucionários (TPRs)
    Para combater a corrupção do governo anterior, foram criados tribunais onde funcionários públicos eram julgados.

    Falta de ampla defesa: Muitos desses julgamentos não seguiam o devido processo legal.

    Humilhação pública: Os réus eram frequentemente expostos e humilhados publicamente, e as sentenças eram decididas de forma sumária por “juízes” que nem sempre tinham formação jurídica, mas sim alinhamento ideológico.

    3. Repressão a Sindicatos e Opositores
    Sankara não tolerava dissidência organizada. Quando os sindicatos de professores entraram em greve por melhores salários em 1984, ele tomou uma medida drástica:

    Demitiu cerca de 2.500 professores de uma só vez, substituindo-os por “professores revolucionários” que, em muitos casos, não tinham qualificação para ensinar.

    Líderes sindicais e opositores políticos foram presos arbitrariamente, e há relatos de tortura sob custódia estatal.

    4. Execuções Políticas
    Embora o número de mortes sob seu comando não seja comparável ao de outros ditadores africanos da mesma época (como Idi Amin ou Mobutu Sese Seko), houve execuções. Em 1984, por exemplo, sete indivíduos acusados de conspirar contra o governo foram executados após um julgamento militar rápido.

    5. Autoritarismo e Centralização
    Sankara acreditava que sabia o que era melhor para o povo, mesmo que o povo não concordasse. Ele impunha mudanças de cima para baixo de forma coercitiva. Um exemplo era a obrigação de funcionários públicos usarem o Faso Dan Fani (tecido local); quem não cumprisse as diretrizes revolucionárias era visto como inimigo do Estado e sofria sanções profissionais ou físicas.

    Conclusão
    A figura de Sankara é complexa justamente por esse contraste. Para seus defensores, os fins (soberania alimentar, saúde e educação) justificavam os meios. Para os críticos e vítimas, ele foi um líder autoritário que atropelou liberdades individuais e direitos humanos em nome de uma ideologia.

    Essa dualidade — entre o reformista austero e o militar implacável — é o que define o debate histórico sobre ele até hoje.

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