Uma fábula palestina – II

699

“Chegaram ao outro lado do mar, ao território dos gerasenos. Quando Jesus desembarcou, veio logo ao seu encontro dos túmulos um homem possesso de espírito imundo, o qual tinha ali a sua morada, e nem mesmo com cadeias podia já alguém segurá-lo; porque tendo sido muitas vezes seguro com grilhões e cadeias, tinha quebrado as cadeias e despedaçado os grilhões, e ninguém tinha força para o subjugar; e sempre, de dia e de noite, gritava nos túmulos e nos montes, ferindo-se com pedras. Vendo de longe a Jesus, correu para ele e adorou-o, gritando em alta voz: ‘Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Por Deus te conjuro que não me atormentes’. Pois Jesus lhe dissera: ‘Espírito imundo, sai desse homem.’ Perguntou-lhe: ‘Qual é o teu nome?’ Respondeu ele: ‘Legião é o meu nome, porque somos muitos.’ E rogava a Jesus com instância que os não mandasse para fora do território. Pastava ali pelo monte uma grande manada de porcos; e os espíritos imundos suplicaram-lhe, dizendo: ‘Envia-nos para os porcos, a fim de que entremos neles.’ Ele o permitiu. Eles, saindo, entraram nos porcos; a manada, que era cerca de dois mil, precipitou-se pelo declive no mar; e ali se afogaram. Os pastores fugiram e foram dar notícia disto na cidade e nos campos; e muitos foram ver o que tinha acontecido. Chegando-se a Jesus, viram o endemoninhado que havia tido a legião, sentado, vestido e em perfeito juízo; e ficaram com medo. Os que presenciaram o fato, contaram-lhes o que havia acontecido ao endemoninhado e aos porcos. Começaram a rogar-lhe que se retirasse daqueles termos. Ao entrar ele na barca, aquele que fora endemoninhado rogou-lhe que o deixasse estar com ele. Jesus não o permitiu, mas disse-lhe: ‘Vai para tua casa, para teus parentes e conta-lhes tudo o que o Senhor te fez e como teve compaixão de ti.’ Retirando-se, começou a publicar em Decápolis tudo o que lhe havia feito Jesus; e todos ficaram maravilhados.”

Marcos, 5, 1-20.

A cura do endemoniado, pintado por Sébastien Bourdon entre 1653-1657 e exposto no Musée Fabre, Montpellier, França

Dizia-se, pelos caminhos da urbe grega, que esse homem que vivia entre mortos e era subjugado por demônios autodenominados “Legião” gritava e urrava palavras sem sentido pelos túmulos daquela necrópole decapolitana: “É só uma gripezinha!”, “Alguns vão morrer, lamento, é a vida!”, “E daí?”. Algumas vezes o tom de voz mudava e as palavras vomitadas pela boca imunda do possesso geraseno soavam, quando compreendidas, mais ou menos assim: “AI-5!”, “Intervenção militar já!”, “Art. 142 neles!”, dentre outras expressões do aquém umbralino.

Após a cura da grave obsessão do pobre endemoniado, que se livrou daquela infâmia verborrágica que o envergonhava moral e cognitivamente, os demônios aportaram na vara tupiniquim que, incauta, chafurdava na pocilga da inconsciência social e política. Dizia a patuleia de Gadara e Gérasa que o persigal, não tendo mais ouvidos para sua insensatez, jogou-se no abismo das mentiras, grunhindo seu ódio pelas redes sociais decapolitanas e culpando a luz por sua desgraça moral perante o resto do mundo civilizado.

Diz-se, à moda de Foucault, que essa fábula sem serventia, posto prestar-se tão-somente à reflexão, foi ouvida nalguma esquina das veredas empoeiradas dalguma cidade helênica ao leste do Mar da Galileia. Mas dizem, após a libertação daquela grave obsessão demoníaca, que o homem sarado daquela doença fascista assinou algum manifesto para registrar sua cura da doença que afligia, à época, cerca de 30% da plebe ignara. E que o curandeiro saiu por todos os lugares a pregar a vitória contra aquele mal e a libertar os que ainda eram passíveis de cura. E, quanto aos incuráveis, por conta da adiantada metástase moral, restariam apenas os abismos suínos e os eventos federativos.

Publicado no Facebook em 06/06/2020

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui