COLUNA – Nós contra o fim do mundo – Por Sinuê Neckel Miguel
Flávio Bolsonaro, sua família e seu grupo político são uma grave ameaça à democracia, aos direitos constitucionais e às conquistas sociais das últimas décadas. O seu esteio, a sua política de massas, é o neofascismo próprio do nosso tempo. O neofascismo se alimenta da raiva, do ressentimento e da frustração que marcam um capitalismo cada vez mais brutal, individualista e indiferente a conquistas civilizatórias.
Mas a catástrofe que está por vir caso Flávio Bolsonaro chegue à presidência da República é, com toda a probabilidade, ainda mais grave do que a esperada destruição antidemocrática causada pela tormenta neofascista. A democracia e os direitos sociais, cedo ou tarde, podem ser reconquistados, por mais cruéis que sejam os impactos sofridos por todos nós. Porém, quando falamos das condições ambientais que sustentam a vida em grande escala e complexidade, a possibilidade de reversão, em caso de ultrapassagem de um ponto de não retorno, deixa de existir.
Ou seja, para entender o que está em jogo nesta eleição, é preciso compreender a extrema gravidade da emergência climática no ponto em que nos encontramos hoje.
Estamos numa trajetória em aceleração do aquecimento global que nos deixa com cada vez menos tempo para evitarmos os piores futuros possíveis. E, como se não bastassem os impactos já gravíssimos do crescente aquecimento em curso, existe um conjunto de ameaças que podem nos lançar numa via ainda mais catastrófica, com potencial de aniquilação das condições de habitabilidade do Planeta para a nossa espécie e boa parte das atuais formas de vida na Terra.
Trata-se dos chamados tipping points (pontos de virada) climáticos, limiares ou pontos críticos nos quais uma pequena perturbação adicional pode alterar qualitativamente o estado ou o desenvolvimento de um sistema relacionado ao clima.
O sexto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), afirmou que os riscos de desencadear pontos de inflexão climáticos se tornam altos em cerca de 2°C acima das temperaturas pré-industriais e muito altos em 2.5-4°C. Outras avaliações já consideram altamente provável que a ultrapassagem de 1,5°C deva impelir à ultrapassagem de diversos tipping points. De acordo com o trabalho Exceeding 1.5°C global warming could trigger multiple climate tipping points (Excedendo 1.5°C de aquecimento global pode desencadear múltiplos pontos de virada climática), de David Armstrong Mckay e colegas, publicado na revista Science, em 2022, seis elementos críticos do sistema Terra já devem provavelmente ultrapassar pontos drásticos (e, portanto, colapsar), mesmo num nível de aquecimento global abaixo de 2°C: o gelo da Groenlândia; o gelo da Antártida Ocidental; os recifes de corais tropicais; o permafrost das orestas boreais; o permafrost do Mar de Barents e a corrente marinha do Labrador.
Justamente neste ano de Super El Niño estamos ultrapassando o limiar de 1,5°C, rumando daí para os 2°C de aquecimento já em torno de 2037. Em suma, nos encontramos à beira do abismo.
Esses pontos críticos de inflexão irreversível na dinâmica do clima constituem, em seu conjunto (com efeitos cascata e de retroalimentação), o maior dos nossos temores, já que o colapso socioambiental pode fugir completamente à possibilidade de controle, mitigação e adaptação humanas. Vejamos alguns desses pontos críticos.
O derretimento do gelo ártico é um gravíssimo ponto de inflexão climático com efeito de retroalimentação (feedback positivo). A retroalimentação se explica pelo efeito albedo. A superfície branca do gelo e da neve é altamente reflexiva da radiação solar, o que evita aquecimento adicional da superfície terrestre e das águas. Na medida em que o gelo ártico é reduzido ano a ano, a amplitude do efeito albedo também diminui e, assim, o aquecimento global aumenta, acelerando ainda mais o colapso desse mesmo gelo ártico. As projeções atuais mostram que, mesmo nos melhores cenários de redução das emissões, até 2050 deveremos perder completamente a cobertura de gelo marinho no Ártico durante os verões.
Aí vem um efeito cascata ou dominó, pois a perda do gelo marinho significa elevação adicional dos oceanos e mais aquecimento das águas, diminuindo sua capacidade de absorção de carbono e calor (o que acelera o aquecimento global), causando ainda problemas de mistura do oxigênio marinho (matando diversas espécies marinhas) e de circulação de correntes marítimas que regulam a distribuição de calor e frio entre o norte e o sul do Planeta. Além disso, oceanos mais aquecidos intensificam a taxa de evaporação oceânica e com isso contribuem para a produção de chuvas torrenciais. A tragédia do Rio Grande do Sul está ligada justamente ao enorme calor dos oceanos observado em 2023 e 2024.
Ainda olhando para o norte do planeta, a principal ameaça é a “bomba de metano” representada pelo potencial de emissões do permafrost, solo permanentemente congelado que recobre 24% das terras do Hemisfério Norte. Se esse solo derreter rapidamente, o aquecimento global deverá se tornar apocalíptico, já que a quantidade de carbono orgânico nele contido é gigantesca: 1,5 trilhão de carbono, cerca de duas vezes mais de tudo o que circula na atmosfera. Mas, mesmo que a velocidade do derretimento não seja tão acelerada, seu caráter potencialmente “explosivo” ainda se verifica, posto que a capacidade de incremento do aquecimento global do metano é até cem vezes maior do que o do CO2 no curto prazo (cinco anos) e de 72 a 86 maior em médio prazo (20 anos), sendo ainda 34 vezes superior ao longo de 100 anos. Isso significa que a liberação de metano tem um potencial disruptivo enorme: ao alavancar um rápido aquecimento do Planeta, deverá forçar, num efeito dominó, a ruptura de vários pontos críticos, levando a mais aquecimento, o que induz a mais liberação de metano e assim sucessivamente, num efeito de retroalimentação.

Já ao sul do globo terrestre são as grandes florestas tropicais a nossa maior preocupação devido a sua vital importância. Hoje, a maior floresta tropical do planeta já está cerca de 17% desmatada, com outros 17% em diversos estágios de degradação. Estima-se que a uma temperatura de +2°C (a qual devemos atingir em 10 anos) ela possa colapsar já com 20% de desmatamento, o que pode se dar justamente daqui a 10 anos, caso a taxa de desmatamento seja pelo menos equivalente ao desmatamento acelerado dos anos de Jair Bolsonaro na presidência da república (uma média de 11.396 km² ao ano). Considerando ainda que com o próprio aquecimento do Planeta as florestas estão cada vez mais inflamáveis, com incêndios gigantescos de difícil controle, o risco de uma aceleração da destruição da Amazônia sob um governo bolsonarista é extremamente elevado. Isto é, a volta da família Bolsonaro ao poder aponta para uma tragédia de proporção global.

Não há nenhum exagero nessas palavras. Estima-se que as florestas capturaram cerca de 25% das emissões de gases de efeito estufa por queima de combustíveis fósseis desde 1960. A Floresta Amazônica contém aproximadamente de 150 a 200 Gt de carbono, o que equivale a cerca de 550 a 734 Gt de CO2, isto é, “de 16 a 22 anos das emissões globais desse gás associadas à geração de energia pela queima de combustíveis fósseis nos níveis de 2019” (MARQUES, 2023).
Isto significa que se o colapso da Amazônia for consumado, gigantescas quantidades de gás carbônico serão liberadas, causando um aquecimento adicional capaz de precipitar outros elementos críticos do sistema climático na intrincada rede de tipping points. De fato, estudos recentes já apontam que determinadas áreas da Floresta Amazônica já se tornaram emissoras líquidas de CO2, devido ao processo de degradação em curso.

Para o Brasil e outros países da América do Sul, além das emissões, o colapso da Amazônia implicaria uma catástrofe hídrica e, portanto, agrícola. Primeiramente, sem a floresta, a região amazônica aqueceria de 4°C a 5°C e o ar que hoje passa pela floresta chegando resfriado ao Cerrado estaria aquecido também em 4°C a 5°C, possivelmente tornando praticamente impossível a agricultura nessa região. Com o fim dos “rios voadores” (gigantescos cursos de água atmosféricos produzidos pela evapotranspiração das árvores amazônicas), sofreríamos com uma drástica redução da produção agrícola no Brasil e com uma crise energética sem precedentes, considerando os efeitos de uma situação de seca severa e prolongada sobre os reservatórios de água das usinas hidrelétricas.
A depender dos modelos de previsão e das teorias incorporadas, a redução de chuvas na Amazônia pode ser de 42% ou até mesmo 100%. Se a redução for de 42%, a floresta se converteria numa espécie de savana. Se a redução for de 100% (conforme prevê a teoria da bomba biótica) a floresta vira deserto. O pesquisador Antônio Donato Nobre evidencia que é graças aos rios voadores provenientes da Amazônia que a desertificação não se estabeleceu nas latitudes entre 20ºS e 35ºS no nosso continente (um quadrilátero delimitado por Cuiabá, ao norte; São Paulo, a leste; Buenos Aires, ao sul; e a Cordilheira dos Andes, a oeste), diferentemente do que se dá no imenso deserto da Austrália ou nos desertos do Kalahari, na África; e do Atacama, na América do Sul, onde ventos contra-alísios secos roubam a umidade.
Então, quando compreendemos o que significa a manutenção da Floresta Amazônica em pé, mas também a proteção dos demais biomas, fica evidente que impedir a vitória de Flávio Bolsonaro é uma questão de sobrevivência. Não apenas para nós, brasileiros, mas para o mundo. Bolsonaro pai fez um governo inimigo do meio ambiente (e, portanto, de todos nós que habitamos o território brasileiro): foram exonerados 21 superintendentes do IBAMA e apenas 1% das denúncias de desmatamento recebeu atendimento deste órgão, o diretor do INPE foi demitido após divulgar dados de desmatamento, 98% das multas ambientais ficaram travadas, o Fundo Amazônia foi congelado, retirando o financiamento de inúmeros projetos e o desmatamento atingiu o pico de 13 mil km² em 2021. Bolsonaro filho sequer reconhece a emergência climática em que vivemos, negando o caráter antrópico do aquecimento global, isto é, que a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento (atividades humanas) são o principal causador da intensificação do efeito estufa. Alinha-se, portanto, ao negacionismo climático de Donald Trump que promove a aceleração do colapso climático em curso.
Todavia, é trágico constatar que mesmo a percepção da emergência climática, a mais brutal ameaça à vida humana, parece estar sendo fagocitada por um metabolismo social doente. O sentimento de esgotamento, de frustrações acumuladas, a falta de sonhos coletivos (as utopias), levam as pessoas ao cinismo e à indiferença com quem está fora do seu pequeno círculo familiar e com as futuras gerações. Quando encontram algum bode expiatório em inflamados discursos neofascistas podem trocar o sonho pelo ódio, aspirando a algum tipo de purificação redentora da sociedade em decadência. Aí entra a religião, que se alimenta dos dramas do seu tempo e assim se transforma também, à sua imagem e semelhança. Capitalismo em tempos líquidos, pulsando morbidamente entre a exaustão, a depressão e o hedonismo hiperindividualista, forjam uma teologia da prosperidade que anda lado a lado com um desejo de destruição travestido de salvação. Chegamos a uma espécie de carpe diem suicida do final dos tempos.

É por isso que o fim do mundo real, isto é, de um mundo acolhedor à espécie humana, só pode ser impedido com um profundo desejo de viver, um desejo de libertação, um desejo de plenitude. Libertar o futuro, voltar a sonhar, lutar com todas as nossas forças não apenas pela sobrevivência, mas pela utopia.
Em outras palavras, derrotar o bolsonarismo (não apenas eleitoralmente, mas no âmago da sociedade) exige reconhecermos que o capitalismo suicidário arrasta a humanidade para o abismo. Lucidez é a precondição mais básica. Mas, se a revolução é o freio de emergência da humanidade, a reversão radical da rota suicida só é possível com a potência da utopia.
Para saber mais, recomendo:
BARRETO, Eduardo Sá. O capital na estufa: para a crítica da economia das mudanças climáticas. Rio de Janeiro: Consequência, 2019.
_______. Ecologia marxista para pessoas sem tempo. São Paulo: Usina Editorial, 2022.
LENTON, Thimoty et al. Climate Tipping Points: Too Risky to Bet against. Nature, 575, 592-595, 2019.
McKAY, David I. Armstrong et al. Exceeding 1.5°C global warming could trigger multiple climate tipping points. Science, 377, eabn7950, 2022.
MARQUES, Luiz. Capitalismo e colapso ambiental. Campinas: Editora da Unicamp, 2018.
_______. O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência. São Paulo: Editora Elefante, 2023.
NOBRE, Antonio Donato. O futuro climático da Amazônia. Relatório de Avaliação Científica. Articulação Regional Amazônica (ARA), 2014.
WALLACE-WELLS, David. A terra inabitável: uma história do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Canal no YouTube: O que você faria se soubesse o que eu sei? sob o comando do prof. Alexandre Araújo Costa.

