II Encontro Nacional da Esquerda Espírita foi um sucesso

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O II Encontro Nacional da Esquerda Espírita, organizado pelo Coletivo Espíritas à Esquerda aconteceu no domingo, 10 de julho, em São Paulo, na sede do Sindicato dos Bancários. O evento reuniu cerca de 100 pessoas presencialmente e mais cerca de 150 pessoas simultaneamente que assistiram à transmissão online pelo YouTube, Twitter e Facebook.

A primeira palestra esteve a cargo da professora Dora Incontri, que tem reconhecida produção teórica e várias publicações que questionam o conservadorismo dos espiritismo tradicional e propõem uma profunda reflexão sobre a obra de Kardec, sobretudo com a compreensão do período histórico em que ele produziu a sua obra. Dora defende que os equívocos e limitações sejam apontados, preservando a integridade da obra, mas apontando o que deve ser revisto.

Thiago Torres, estudante de Ciências Sociais da USP, de 22 anos, foi o segundo palestrante. Ele é conhecido como @chavososdausp e soma mais de 200 mil seguidores nas redes sociais onde discute política, filosofia e sociologia falando a partir de seu lugar de jovem da periferia paulistana. Ele próprio resumiu sua participação em seu perfil no Instagram:

Contei minha trajetória no espiritismo, apresentei algumas das minhas críticas ao movimento e falei da necessidade de resgatarmos suas raízes filosóficas, científicas e, principalmente, progressistas, em meio ao reacionarismo em que se afundou. Relembrei a famosa frase de Paulo Freire (que inclusive foi secretário da Educação de Erundina), de que nossa esperança deve vir do verbo ‘esperançar’, e não do verbo ‘esperar’. A superação desse mundo de provas e expiações, para um mundo de paz e harmonia que nós espíritas almejamos depende da nossa ação coletiva para acontecer.

Saltando de uma geração para outra, a terceira convidada a falar foi a deputada federal do PSOL de SP, Luiza Erundina, 87 anos. A ex-prefeita de São Paulo falou sobre a conjuntura política nacional e ressaltou a importância de movimentos progressistas, que pensam a sociedade a partir de perspectivas espiritualistas, ganharem força e intervirem na realidade. A deputada enfatizou a importância do engajamento da juventude, expressando admiração pela fala de Chavoso, que a antecedeu.

A doutora em Direito Juliana Magalhães foi a quarta painelista, compartilhando a elaboração crítica considerando a ideologia como resultado de práticas materiais. Refletiu sobre como as esquerdas do mundo todo restringem sua percepção a um universo juridicamente organizado, institucional e eleitoral, numa visão de que o estado “vai nos salvar”. Utilizou versos de Adoniran Barbosa para exemplificar que o direito serve sobretudo para defender a propriedade privada da burguesia: “Saudosa maloca é sobre um despejo, uma reintegração de posse”. Segundo ela o verso “os homi tão com a razão, nós arranja outro lugar”, exemplifica a submissão à ordem jurídica. E mais: “Deus dá o frio, conforme o cobertor”, materializa a submissão a uma suposta ordem divina que naturaliza a desigualdade na forma do conformismo.

Juliana destacou que “o espírita constituído pela ideologia burguesa, pela lógica do capitalismo, replica o discurso de uma ordem constituída e sacralizada, mas que é apenas a ordem capitalista injusta e desumana”.

Acometido por Covid-19, o quinto palestrante, Alysson Mascaro participou à distância do evento, mas acrescentou uma profunda reflexão sobre o papel das religiões no decorrer da história. O jurista e escritor afirmou que “estamos com 250 anos de atraso histórico para acabar com as religiões”. Destacou que as religiões não têm materialidade suficiente para sua justificativa desde o tempo do iluminismo, no século XVIII. Segundo ele, “a própria trajetória progressista no campo das religiões tem um teto muito baixo; a igreja católica que conheceu  a Teologia da Libertação teve, por condução papal, o extermínio desta experiência”.

O afeto que é gestado nas massas para que elas se aproximem da religião é uma afeto efetivamente conservador, tendente ao reacionarismo. Pessoas buscam a religião por perspectivas que confirmarão expectativas conservadoras de que há uma razão de ser no mundo, de que os sofrimentos são explicáveis por causas ocultas”, disse Mascaro.

Plenária

Após as palestras, na parte da tarde, foi realizada uma Plenária do Coletivo Espíritas à Esquerda. Foi discutida espacialmente a organização do coletivo na perspectiva de fortalecer-se como um movimento “atuante, solidário e inclusivo”, acentuando a identidade suprapartidária de esquerda, que acolhe os movimentos sociais e identitários respeitando a sua autonomia.

A plenária deliberou que o próximo período vai ser dedicado à ampliação e consolidação dos grupos regionais, com ênfase na realização de eventos presenciais na perspectiva de iniciar efetivamente a construção de Núcleos Espíritas Populares, especialmente para acolher populações marginalizadas socialmente.

VEJA A ÍNTEGRA DAS PALESTRAS

 

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