Uma fábula palestina – II

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A cura do endemoniado, pintado por Sébastien Bourdon entre 1653-1657 e exposto no Musée Fabre, Montpellier, França

“Chegaram ao outro lado do mar, ao território dos gerasenos. Quando Jesus desembarcou, veio logo ao seu encontro dos túmulos um homem possesso de espírito imundo, o qual tinha ali a sua morada, e nem mesmo com cadeias podia já alguém segurá-lo; porque tendo sido muitas vezes seguro com grilhões e cadeias, tinha quebrado as cadeias e despedaçado os grilhões, e ninguém tinha força para o subjugar; e sempre, de dia e de noite, gritava nos túmulos e nos montes, ferindo-se com pedras. Vendo de longe a Jesus, correu para ele e adorou-o, gritando em alta voz: ‘Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Por Deus te conjuro que não me atormentes’. Pois Jesus lhe dissera: ‘Espírito imundo, sai desse homem.’ Perguntou-lhe: ‘Qual é o teu nome?’ Respondeu ele: ‘Legião é o meu nome, porque somos muitos.’ E rogava a Jesus com instância que os não mandasse para fora do território. Pastava ali pelo monte uma grande manada de porcos; e os espíritos imundos suplicaram-lhe, dizendo: ‘Envia-nos para os porcos, a fim de que entremos neles.’ Ele o permitiu. Eles, saindo, entraram nos porcos; a manada, que era cerca de dois mil, precipitou-se pelo declive no mar; e ali se afogaram. Os pastores fugiram e foram dar notícia disto na cidade e nos campos; e muitos foram ver o que tinha acontecido. Chegando-se a Jesus, viram o endemoninhado que havia tido a legião, sentado, vestido e em perfeito juízo; e ficaram com medo. Os que presenciaram o fato, contaram-lhes o que havia acontecido ao endemoninhado e aos porcos. Começaram a rogar-lhe que se retirasse daqueles termos. Ao entrar ele na barca, aquele que fora endemoninhado rogou-lhe que o deixasse estar com ele. Jesus não o permitiu, mas disse-lhe: ‘Vai para tua casa, para teus parentes e conta-lhes tudo o que o Senhor te fez e como teve compaixão de ti.’ Retirando-se, começou a publicar em Decápolis tudo o que lhe havia feito Jesus; e todos ficaram maravilhados.”

Marcos, 5, 1-20.

A cura do endemoniado, pintado por Sébastien Bourdon entre 1653-1657 e exposto no Musée Fabre, Montpellier, França

Dizia-se, pelos caminhos da urbe grega, que esse homem que vivia entre mortos e era subjugado por demônios autodenominados “Legião” gritava e urrava palavras sem sentido pelos túmulos daquela necrópole decapolitana: “É só uma gripezinha!”, “Alguns vão morrer, lamento, é a vida!”, “E daí?”. Algumas vezes o tom de voz mudava e as palavras vomitadas pela boca imunda do possesso geraseno soavam, quando compreendidas, mais ou menos assim: “AI-5!”, “Intervenção militar já!”, “Art. 142 neles!”, dentre outras expressões do aquém umbralino.

Após a cura da grave obsessão do pobre endemoniado, que se livrou daquela infâmia verborrágica que o envergonhava moral e cognitivamente, os demônios aportaram na vara tupiniquim que, incauta, chafurdava na pocilga da inconsciência social e política. Dizia a patuleia de Gadara e Gérasa que o persigal, não tendo mais ouvidos para sua insensatez, jogou-se no abismo das mentiras, grunhindo seu ódio pelas redes sociais decapolitanas e culpando a luz por sua desgraça moral perante o resto do mundo civilizado.

Diz-se, à moda de Foucault, que essa fábula sem serventia, posto prestar-se tão-somente à reflexão, foi ouvida nalguma esquina das veredas empoeiradas dalguma cidade helênica ao leste do Mar da Galileia. Mas dizem, após a libertação daquela grave obsessão demoníaca, que o homem sarado daquela doença fascista assinou algum manifesto para registrar sua cura da doença que afligia, à época, cerca de 30% da plebe ignara. E que o curandeiro saiu por todos os lugares a pregar a vitória contra aquele mal e a libertar os que ainda eram passíveis de cura. E, quanto aos incuráveis, por conta da adiantada metástase moral, restariam apenas os abismos suínos e os eventos federativos.

Publicado no Facebook em 06/06/2020

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