Espiritismo não é neutralidade: política, consciência e responsabilidade coletiva em 2026

Por que o compromisso com o progresso social e a transformação das instituições é parte fundamental da evolução espiritual.

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Gastão Cassel – EàE Santa Catarina

Há uma frase repetida com alguma frequência nos meios espíritas: “espiritismo não tem nada a ver com política”. À primeira vista, ela pode parecer uma recomendação prudente. Afinal, partidos são transitórios, candidatos são falíveis e instituições religiosas ou filosóficas não deveriam transformar-se em comitês eleitorais.

O problema começa quando dessa prudência se extrai uma conclusão muito diferente: a de que as condições concretas em que as pessoas vivem — pobreza, desigualdade, violência, racismo, fome, destruição ambiental, acesso à saúde e à educação, direitos civis, liberdade e democracia — não pertencem ao campo das preocupações espíritas.

Essa conclusão é difícil de conciliar com Allan Kardec.

Não porque Kardec tenha formulado um programa partidário, naturalmente. O espiritismo nasceu no século XIX e não poderia fornecer respostas prontas às disputas eleitorais brasileiras do século XXI. Mas porque há, no pensamento espírita, uma concepção de ser humano, sociedade, progresso, justiça e responsabilidade que inevitavelmente produz consequências para nossa vida coletiva.

E política, em seu sentido mais fundamental, é exatamente isso: a maneira pela qual organizamos a vida coletiva.

O espírito encarna em uma sociedade

Uma das dificuldades de determinada interpretação do espiritismo brasileiro é transformar a evolução espiritual em uma experiência quase exclusivamente privada.

O indivíduo encarna, enfrenta suas provas, procura corrigir seus defeitos, pratica sua chamada “reforma íntima”, desencarna e prossegue sua caminhada. Nessa perspectiva, o mundo material torna-se quase um cenário diante do qual acontece uma história fundamentalmente individual.

Mas O livro dos espíritos oferece outra perspectiva.

Na questão 573, Kardec pergunta em que consiste a missão dos espíritos encarnados. A resposta inclui algo extraordinariamente concreto: auxiliar o progresso e “melhorar as instituições, por meios diretos e materiais”.

Melhorar instituições.

Há poucas expressões mais políticas do que essa.

Instituições não são abstrações espirituais. São escolas, leis, governos, formas de organização da economia, sistemas de proteção social, relações de trabalho, mecanismos de distribuição de poder. São construções humanas que organizam a maneira pela qual milhões de pessoas convivem.

O próprio texto acrescenta que tanto quem governa quanto quem instrui ou cultiva a terra participa desse processo. A evolução do espírito não ocorre fora da sociedade: ocorre dentro dela e, em alguma medida, transformando-a.

O espiritismo, portanto, não pode ser reduzido a um projeto de salvação individual.

O espírito não encarna sozinho.

Encarnamos em famílias, comunidades, classes sociais, culturas e nações. Dependemos de outras pessoas para sobreviver desde o primeiro instante da existência corporal. Comemos aquilo que alguém produziu, usamos estradas que outras pessoas construíram, somos cuidados por sistemas coletivos de saúde, aprendemos em instituições de ensino, trabalhamos dentro de relações econômicas e somos protegidos — ou desprotegidos — pelas leis da sociedade em que vivemos.

A existência humana é inevitavelmente coletiva.

A desigualdade não vem de Deus

Há outra passagem particularmente importante. Na questão 806 de O livro dos espíritos, Kardec pergunta:

“É Lei da Natureza a desigualdade das condições sociais?”

A resposta é inequívoca: “Não; é obra dos homens e não de Deus.”

A afirmação tem consequências enormes. Se a desigualdade social fosse determinada por Deus, combater a desigualdade significaria combater uma ordem divina. Mas Kardec afirma exatamente o contrário: as desigualdades sociais são produzidas historicamente pelos seres humanos.

Portanto, também podem e devem ser transformadas pelos seres humanos.

A continuação da questão é igualmente esclarecedora. Perguntados se algum dia essas desigualdades desapareceriam, os espíritos associam sua superação ao desaparecimento do predomínio do egoísmo e do orgulho.

É difícil imaginar uma crítica social mais clara.

O egoísmo não aparece apenas como defeito psicológico ou de caráter de um indivíduo. Ele produz consequências sociais. Pode organizar relações econômicas, justificar privilégios e naturalizar uma sociedade na qual alguns acumulam excessos enquanto outros não conseguem satisfazer necessidades elementares.

Por isso, combater o egoísmo não é somente modificar sentimentos privados.

Também significa perguntar se nossas instituições alimentam ou reduzem o egoísmo, se distribuem oportunidades ou reproduzem privilégios, se protegem os vulneráveis ou ampliam sua vulnerabilidade.

Na questão 914, ao tratar justamente do egoísmo, O livro dos espíritos chega novamente às instituições: para combatê-lo, afirma-se também a necessidade de reformar as instituições humanas que o alimentam.

Não estamos diante de uma doutrina da passividade.

Estamos diante de uma concepção de progresso que relaciona transformação moral e transformação social.

Caridade não é substituir justiça

Outra deformação frequente consiste em imaginar que os problemas sociais se resolvem exclusivamente pela caridade individual.

Distribuir alimento a quem tem fome é indispensável. Amparar quem sofre é obrigação moral. Acolher quem necessita de ajuda é uma das expressões mais belas da solidariedade.

Mas surge uma pergunta inevitável: por que alguém está com fome?

Se a cada semana distribuímos cem cestas básicas e, na semana seguinte, existem outras cem famílias necessitando delas, a caridade exige que continuemos oferecendo alimento. Mas a razão também exige que perguntemos por que uma sociedade capaz de produzir comida em abundância produz simultaneamente pessoas que não conseguem comprá-la.

Nesse momento, a caridade encontra a política.

Não para abandonar o auxílio imediato, mas para acrescentar outra dimensão: transformar as condições que produzem continuamente o sofrimento que tentamos aliviar.

O manifesto publicado pelo Espíritas à Esquerda nas eleições de 2022 recordava uma afirmação particularmente expressiva da questão 930 de O livro dos espíritos: numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deveria morrer de fome.

Não se trata apenas de dar pão. Trata-se de organizar a sociedade para que ninguém seja privado dele. Essa diferença é essencial. A solidariedade socorre. A justiça procura impedir que seja necessário socorrer sempre as mesmas vítimas das mesmas estruturas. As duas coisas são necessárias.

Somos responsáveis pelo mundo em que reencarnamos

A reencarnação acrescenta ainda uma dimensão interessante a essa questão.

Se acreditamos que nossa trajetória espiritual ocorre através de múltiplas existências, a sociedade que construímos não é apenas uma herança que deixaremos abstratamente “para nossos filhos e netos”.

É também um mundo ao qual nós mesmos, como espíritos, poderemos retornar.

Kardec percebe essa dimensão coletiva do progresso ao discutir, nas questões 789 e seguintes, o desenvolvimento das sociedades. A humanidade avança por meio das pessoas que se esclarecem e transformam progressivamente seu ambiente social. Essa concepção desfaz a oposição simplista entre evolução individual e evolução coletiva.

Uma sociedade mais justa cria melhores condições para o desenvolvimento daqueles que nela encarnam. Uma sociedade mais violenta, desigual e autoritária multiplica obstáculos, sofrimentos e conflitos.

Construir instituições melhores é, portanto, também trabalhar pelas condições em que se realizará a experiência espiritual de todos.

Inclusive, possivelmente, a nossa.

O que significa ser uma sociedade civilizada?

A palavra “civilização” merece especial atenção num momento eleitoral. Na questão 793, Kardec pergunta por quais sinais se poderia reconhecer uma civilização completa. A resposta não fala de riqueza, tecnologia, poder militar ou grandes obras. O critério fundamental é o desenvolvimento moral.

No comentário que acompanha a questão, a sociedade verdadeiramente civilizada aparece relacionada à diminuição do egoísmo, da cobiça e do orgulho, à liberdade da inteligência, à bondade e à generosidade, à redução dos preconceitos, a leis que não consagrem privilégios e que protejam igualmente as pessoas.

É uma definição exigente de civilização, mas principalmente oferece um critério bastante atual para pensar a política.

Não basta perguntar se uma candidatura promete crescimento econômico. É preciso perguntar: crescimento para quem?

Não basta perguntar se promete ordem. É preciso perguntar: uma ordem construída sobre quais direitos?

Não basta perguntar se invoca valores morais. É preciso perguntar: esses valores produzem solidariedade, respeito e proteção das pessoas ou produzem perseguição e exclusão?

Não basta perguntar se alguém fala em Deus. É necessário observar o que faz com os filhos de Deus.

O próprio Kardec é contundente em O que é o espiritismo ao distinguir a aparência religiosa da prática do bem. Uma crença, por mais correta que seu adepto a considere, perde valor moral quando serve de justificativa para atos desumanos ou contrários à caridade.

Esse princípio deveria produzir enorme cautela diante da instrumentalização eleitoral da religião.

Espiritismo e política não significam espiritismo partidário

Reconhecer a dimensão política do espiritismo não significa transformar Kardec em cabo eleitoral. Seria tão equivocado dizer que “espírita precisa pertencer a determinado partido” quanto afirmar que “espírita não deve se preocupar com política”.

O espiritismo não fornece uma legenda. Fornece princípios. E princípios sempre precisam ser confrontados com a realidade.

Entre tais princípios estão a dignidade de todas as pessoas, a solidariedade, a igualdade de direitos, a liberdade de consciência, a justiça, a proteção da vida, a superação do egoísmo, o progresso das instituições e o compromisso com aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade.

São critérios suficientemente concretos para impedir uma suposta neutralidade moral. Porque nem todas as propostas políticas são equivalentes diante deles.

Projetos que ampliam direitos e projetos que os restringem não são a mesma coisa. Políticas que reduzem desigualdades e políticas que aprofundam privilégios não são a mesma coisa.

Defender a liberdade religiosa e utilizar uma religião para impor regras ao conjunto da sociedade não são a mesma coisa. Proteger instituições democráticas e enfraquecê-las não são a mesma coisa. Combater preconceitos e mobilizá-los eleitoralmente não são a mesma coisa.

Preservar a vida e tratar determinadas vidas como descartáveis não são a mesma coisa. Reconhecer essas diferenças não é transformar o espiritismo em partido. É levar seus princípios a sério.

A ilusão da neutralidade

Existe ainda uma questão incômoda. Diante de uma injustiça concreta, a neutralidade nem sempre produz um resultado neutro.

Imagine uma situação simples: alguém mais forte agride alguém mais fraco diante de nós. Podemos decidir não participar da agressão. Mas se temos possibilidade de interrompê-la e simplesmente declaramos que “não queremos tomar partido”, nossa omissão interfere objetivamente no resultado.

A vida social apresenta situações muito mais complexas, evidentemente. Mas o princípio permanece.

Todas as decisões coletivas distribuem recursos, direitos, oportunidades e poder. Um orçamento público é uma escolha. Uma política ambiental é uma escolha. Uma legislação trabalhista é uma escolha. A existência ou não de programas contra a fome é uma escolha. Financiar escolas ou abandoná-las é uma escolha. Fortalecer ou enfraquecer políticas de saúde é uma escolha. Garantir ou retirar direitos é uma escolha.

E votar também é uma escolha. Não existe voto sem consequência social. Por isso a consciência espírita não deveria perguntar apenas: “o que é melhor para mim?”

Precisaria acrescentar: O que esta escolha produz para o outro?, especialmente para quem possui menos poder do que eu.

As eleições de 2026

Em outubro de 2026, milhões de brasileiros voltarão às urnas, novamente estarão em disputa muito mais do que nomes. Estarão em disputa concepções diferentes de sociedade, de democracia, de economia, de direitos, de meio ambiente, de cultura, de ciência e do papel do Estado.

Nenhum candidato deve ser sacralizado. Nenhum dirigente político é espírito missionário simplesmente porque seus admiradores assim desejam. Nenhuma comunicação mediúnica deveria substituir análise política. Nenhuma profecia deveria substituir informação. Nenhum médium deveria substituir a consciência do eleitor.

A fé raciocinada exige justamente o contrário: informação, investigação, comparação entre palavras e atos e disposição para submeter nossas próprias preferências à crítica.

O espírita pode — e provavelmente deve — fazer perguntas muito concretas.

Que projeto reduz a desigualdade?

Qual protege melhor a democracia e suas instituições?

Qual reconhece a igualdade fundamental entre as pessoas?

Qual assegura maior proteção aos trabalhadores e aos vulneráveis?

Qual trata a educação e a ciência como instrumentos de progresso?

Qual protege o meio ambiente e as condições de vida das próximas gerações?

Qual respeita a liberdade religiosa e o Estado laico?

Qual promove políticas capazes de diminuir a fome, a pobreza e a exclusão?

Qual transforma em políticas públicas aquilo que tantas vezes chamamos, dentro das casas espíritas, de fraternidade, solidariedade e amor ao próximo?

Essas questões não determinam mecanicamente um voto.

Mas tornam impossível dizer que todos os projetos de sociedade possuem o mesmo significado moral.

O Reino precisa começar aqui

Talvez uma das interpretações mais empobrecedoras da espiritualidade seja imaginar que o sofrimento deste mundo importa pouco porque existe outra vida depois dele.

Se existe vida depois da morte, isso deveria aumentar, e não diminuir, nossa responsabilidade pela vida antes da morte.

Estamos aqui.

É aqui que alguém sente fome.

É aqui que uma criança precisa de escola.

É aqui que uma pessoa adoecida necessita de atendimento.

É aqui que alguém sofre racismo, violência ou discriminação.

É aqui que rios são contaminados e florestas destruídas.

É aqui que trabalhadores precisam viver com dignidade.

É aqui que instituições podem proteger o fraco ou servir ao forte.

É aqui que fazemos escolhas.

E talvez esteja justamente nisso uma das dimensões mais profundas da encarnação. Não passamos pela Terra apenas para aperfeiçoar silenciosamente nossa individualidade, como estudantes preocupados exclusivamente com a própria nota.

Participamos de uma experiência coletiva. Aprendemos uns com os outros. Dependemos uns dos outros. Transformamos uns aos outros.

Kardec não nos oferece uma cédula eleitoral preenchida. Oferece algo mais trabalhoso: princípios diante dos quais precisamos assumir responsabilidade pelas nossas próprias escolhas.

Nas eleições, como na vida, o livre-arbítrio não significa que todas as escolhas sejam moralmente equivalentes. Significa justamente que somos responsáveis por elas. E talvez a pergunta fundamental para 2026 não seja simplesmente “em quem vou votar?”, mas uma pergunta anterior e mais exigente: que sociedade estou ajudando a construir com o meu voto?

Para quem compreende o espiritismo como compromisso com o progresso, a igualdade, a solidariedade e a transformação das instituições humanas, essa nunca poderá ser uma questão secundária.

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