Gastão Cassel – EàE Santa Catarina
Há uma ideia um tanto confortável de que o fascismo chega fazendo barulho. Botas marchando, tanques nas ruas, bandeiras, prisões, discursos histéricos e alguma música marcial ao fundo. Seria ótimo se fosse sempre assim. Ficaria fácil reconhecer o perigo.
Mas o filme O Aniversário, de Jan Komasa, escolhe um caminho bem mais incômodo. O autoritarismo chega educado, bem vestido, articulado, trazendo um presente e acompanhado do filho da família. Entra pela porta da frente. Depois senta à mesa.
E talvez esteja aí a grande sacada do filme.
Para falar de um tema gigantesco: a erosão da democracia e a ascensão de um movimento autoritário, Komasa praticamente não sai de uma casa. Não precisa mostrar multidões, palácios governamentais, parlamentos cercados ou tropas ocupando avenidas. Grande parte da transformação política de um país nos é apresentada na sala de jantar, na cozinha e no quintal de uma família.
Parece pouco espaço para assunto tão grande. É justamente o contrário.
A casa dos Taylor é o país. E a mesa de jantar é o campo de batalha.
Tudo começa na comemoração dos 25 anos de casamento de Ellen e Paul Taylor, vividos por Diane Lane e Kyle Chandler. Família rica, bem-sucedida, progressista, aparentemente sólida. Os filhos chegam para a festa e o filho Josh aparece acompanhado da nova namorada, Liz, interpretada por Phoebe Dynevor.
Ellen imediatamente a reconhece. Liz foi sua aluna na universidade e as duas tiveram um conflito no passado em torno de um trabalho acadêmico no qual a jovem defendia ideias de concentração política e partido único.
O que parecia uma história velha entre professora e aluna logo revela outra coisa. Liz transformou aquelas ideias num livro e se tornou uma das figuras de um movimento político crescente chamado A Mudança.
O nome, claro, é perfeito.
Movimentos autoritários raramente se apresentam dizendo: “Olá, viemos acabar com suas liberdades”. Eles anunciam renovação. Ordem. Unidade. Segurança. Reconstrução. Mudança.
Sempre mudança.
O assustador em O Aniversário é justamente acompanhar como aquilo que inicialmente parece absurdo vai adquirindo respeitabilidade. Primeiro é uma ideia excêntrica. Depois vira livro. Depois discurso político. Depois movimento social. Depois comportamento aceitável. Finalmente, passa a definir o que pode ou não ser dito.
Não acontece de uma vez.
Acontece aos poucos.
É assim também que a casa dos Taylor vai mudando. O roteiro avança no tempo acompanhando novos aniversários de casamento. A cada reencontro, alguma coisa foi perdida. Relações se alteraram. Pessoas mudaram de posição. Os silêncios ficaram maiores. Certos assuntos já não podem ser tratados da mesma maneira.
A política deixou de estar “lá fora”.
Está sentada à mesa.
O autoritarismo de roupa limpa
Outro mérito enorme do filme é evitar a caricatura.
Liz não parece uma vilã saída de um filme sobre nazistas. Não grita o tempo inteiro, não usa uniforme, não bate continência. É jovem, inteligente, elegante e sabe falar.
Este talvez seja um dos aspectos mais importantes do filme para pensar a extrema direita contemporânea: o autoritarismo não precisa mais se apresentar com a estética do autoritarismo do século passado. Aliás, vem embalada no rótulo de uma grande empresa de tecnologia.
Pode usar roupas bonitas, dominar as redes sociais, frequentar universidades, escrever livros e falar em renovação. Pode sorrir!
O discurso vai chegando embalado em palavras aparentemente razoáveis. União nacional. Eficiência. Segurança. Superação das divisões. Defesa da maioria.
Até que alguém percebe que, no pacote, estavam também a intolerância ao dissenso, a perseguição aos adversários e a ideia de que algumas pessoas têm menos direito de existir politicamente do que outras.
Komasa deliberadamente evita associar A Mudança a um partido real. Mas o repertório é reconhecível: partido único, conformidade nacional, obediência política, eliminação progressiva da divergência. A linguagem pode ser nova, mas o mecanismo é bastante antigo.
E o mais interessante é que o filme não está particularmente preocupado em explicar a ideologia de A Mudança em detalhes.
Quer mostrar como ela funciona sobre as pessoas.
“Não vamos estragar o jantar falando de política”
Nesse ponto Paul, personagem de Kyle Chandler, o pai da família, talvez seja um dos mais interessantes.
Ele não é um militante autoritário. Muito pelo contrário. O pai quer apenas que todo mundo se dê bem. Quer evitar brigas. Preservar a família. Manter a festa funcionando. Quando as coisas ficam tensas, prefere contemporizar. Há sempre um vinho para servir, uma conversa para mudar de assunto, uma possibilidade de dizer que talvez alguém esteja exagerando.
É aquela velha esperança de que, se todo mundo moderar um pouco o tom, o problema desaparecerá. Não desaparece.
O filme transforma a conciliação de Paul numa pergunta bastante desconfortável: até que ponto a tentativa permanente de não criar conflito ajuda justamente quem está disposto a destruir as regras que permitiam a convivência?
É a versão política do clássico “não vamos falar disso para não estragar o jantar”.
Só que o jantar já está estragado. O problema é que ninguém quer olhar para a situação azeda.
O filme sugere, assim, algo fundamental: a normalização do autoritarismo não depende apenas dos fanáticos que o defendem. Depende também de uma quantidade razoável de pessoas que preferem acreditar que não é tão grave assim.
Gente educada, sensata, equilibrada. Gente que pede calma.
Contradições e complexidades
Seria simples demais fazer de Ellen, a mãe, apenas a heroína lúcida enfrentando uma fascista. O filme é melhor do que isso.
Ellen percebe rapidamente o perigo de Liz, mas também carrega arrogância, rigidez e a segurança típica de quem passou boa parte da vida acreditando que determinados absurdos intelectuais jamais ultrapassariam os muros da universidade. Sua perplexidade é ver que ultrapassaram.
Há nesse confronto uma crítica importante ao liberalismo confortável e a determinados setores da academia que acreditam que ideias autoritárias podem ser derrotadas simplesmente demonstrando que são intelectualmente ruins.
Às vezes podem. Às vezes não. Porque política não é apenas argumento. É também pertencimento, ressentimento, identidade, medo, frustração e desejo de reconhecimento.
Liz, a vilã disfarçada, encontrou nisso tudo um território fértil. Nada disso a absolve de suas escolhas. Ressentimento não transforma autoritarismo em resposta legítima. Mas ajuda a compreender de onde movimentos dessa natureza retiram parte de sua energia.
Pessoas frustradas dificilmente se apaixonam por uma tabela de dados. Elas se apaixonam por narrativas. Principalmente por aquelas que explicam por que estão frustradas e ainda oferecem alguém para culpar.
Uma família inteira cabe dentro de um país
É por isso que confinar quase todo o filme à casa é uma escolha tão brilhante. O autoritarismo apresentado por O Aniversário não destrói primeiro as instituições. Destrói relações. Filhos se afastam dos pais. Irmãos passam a desconfiar uns dos outros. Afetos começam a depender de alinhamentos políticos. Pequenas concessões produzem concessões maiores.
O país vai se modificando enquanto a família se modifica. Uma coisa espelha a outra. Não precisamos acompanhar o que acontece no parlamento porque vemos o que acontece entre irmãos. Não precisamos assistir às reuniões do governo porque percebemos o medo surgindo nas conversas domésticas. Não precisamos ver a multidão marchando porque seus efeitos já chegaram as fachadas e quintais com suas bandeiras
Essa opção transforma um suspense político numa espécie de filme de terror doméstico. Porque todos conhecemos aquela sala. Talvez não aquela exatamente, mas alguma muito parecida. A mesa onde alguém disse uma barbaridade e outra pessoa preferiu mudar de assunto. A conversa em que uma frase intolerante foi tratada como simples “opinião” ou “liberdade de expressão”. O almoço no qual alguém resolveu não responder para evitar confusão.
Nada disso significa que toda divergência política represente autoritarismo. Democracia existe justamente porque as pessoas podem discordar profundamente. A questão colocada pelo filme é outra.
O que acontece quando alguém usa as liberdades da democracia para construir um sistema no qual essas mesmas liberdades deixarão de existir? É aí que a confortável neutralidade começa a ficar menos confortável.
O horror está justamente na normalidade
O Aniversário não é um filme perfeito. Há simplificações importantes e talvez falte explicar melhor por que A Mudança consegue conquistar tanta gente tão rapidamente. As estruturas econômicas (no caso uma mega corporação) e sociais que sustentariam tamanho processo político aparecem pouco.
Mas talvez isso também seja consequência da escolha radical feita pelo roteiro. Estamos presos dentro daquela casa. Sabemos do mundo praticamente aquilo que a família sabe. E assim percebemos uma sociedade autoritária não pelos grandes acontecimentos históricos, mas pela alteração progressiva da vida cotidiana: Um livro desaparece da estante. Uma pessoa mede melhor as palavras. Outra prefere não responder. Uma relação profissional termina. Uma amizade se torna perigosa. Até que aquilo que seria impensável alguns anos antes passa a ser rotina. É essa normalidade que assusta.
Porque O Aniversário não fala de um monstro que aparece de repente. Fala de uma sociedade que vai se acostumando com o monstro. Aos poucos. Entre um aniversário e outro. Entre uma concessão e outra. Entre um silêncio e outro.
Talvez por isso o filme funcione tão bem como advertência sobre a fragilidade democrática neste começo de século. Não porque pretenda explicar completamente o fascismo ou qualquer outro autoritarismo. Mas porque mostra o seu processo de capilarização.
O grande embate político não acontece apenas nas eleições, nos parlamentos ou nas ruas. Também acontece nos afetos, nas conversas, na linguagem, nas relações de trabalho e dentro das famílias. A política entra em casa porque a sociedade já estava dentro dela.
No fim, talvez essa seja a imagem mais perturbadora deixada por O Aniversário: o fascismo nem sempre precisa arrombar a porta. Às vezes alguém abre, puxa uma cadeira, serve uma taça de vinho. E pede que, por favor, ninguém fale de política durante o jantar.
O Aniversário (Anniversary, 2025)
Direção: Jan Komasa
Roteiro: Lori Rosene-Gambino e Jan Komasa
Com Diane Lane, Kyle Chandler, Phoebe Dynevor e Dylan O’Brien
Duração: 1h51
Disponível no Prime Video.


Excelente artigo!
Nos faz refletir, olhar com mais zelo ao nosso redor e prestar mais atenção naquilo que parece normal.