Chico-Kardec: uma farsa intencional

1794

O médium Chico Xavier merece nosso profundo respeito, como de resto todas as pessoas que dedicam sua vida ao auxílio ao próximo, como são também exemplos Dulce Maria, tornada santa pela Igreja Católica, e o médium Zélio Fernandino, fundador da umbanda. E não se pretende nesse breve texto discutir as relações e diferenças entre ação de promoção social e ação assistencialista, que muito bem caberia, mas não é o objetivo.

Feitas as ressalvas iniciais, o que se pretende unicamente é discutir um aspecto curioso da parte do movimento espírita vinculada à sacralização do médium Chico Xavier, o que acabou por dar origem a um neologismo recorrente: o chiquismo. Cabe ressaltar que em nenhuma hipótese se pretende fazer o movimento inverso: o da sacralização de Kardec, pois se entende que sua obra é passível de análise e críticas como a de qualquer outro autor e nela não há verdades incontestes, mas propostas para a transformação do mundo e do ser humano.

É preciso, portanto, para uma análise tranquila e objetiva, distinguir a extensa obra produzida pelo famoso médium mineiro de suas características humanas. Chico, à revelia de seus idólatras, era um homem com virtudes e defeitos, como o são todas as demais pessoas que viveram ou ainda vivem a experiência corporal nesse planeta. E isso tem que estar claro porque o que se pretende é apontar para um desvio de percurso perigoso do movimento espírita, que é a ideia de associar a personalidade de Chico Xavier ao fundador do espiritismo, o lionês Allan Kardec. Esse desvio imenso e arriscado quer fazer, de todas as formas, coincidir os dois espíritos como se fossem um só, ou seja, a ideia bizarra de que Chico Xavier seria a reencarnação de Allan Kardec.

O desejo de impor essa insensata narrativa é tamanho que teve médium sugerindo ser o casamento entre Denisard Hypolite[1] e Amélie Gabrielle um mero conviver de dois amigos, sugerindo uma relação assexuada do casal visando a aproximar as escolhas da vida privada de Kardec às de Chico. Para isso, a esdrúxula ilação usou de três “provas”: a) o fato de ser Amélie nove anos mais velha que Denisard; b) que ela teria por ele um amor maternal e não o amor por um homem; e c) que o casal não teve filhos.

Afora o fato de que é o próprio Allan Kardec, em sua obra “O livro dos médiuns[2], quem sugere a deturpação filosófica daqueles que endeusam médiuns e demais líderes espíritas, a razão, por si só, bastaria para perceber o desvio crasso daqueles que escolhem esse caminho que inexoravelmente leva ao abismo da irracionalidade mística, da religiosidade piegas e da idolatria improfícua.

Poder-se-ia iniciar o texto fazendo uma extensa análise das diferenças profundas entre as duas personalidades, o que marcaria de forma explícita a impossibilidade da reencarnação do homem racional e cuidadoso com as questões científicas num homem místico e com exacerbadas propensões religiosas. Mas o que se pretende é explorar algo ainda mais grave que subjaz à intencionalidade dessa esdrúxula hipótese: a tentativa vã de igualar a importância, junto ao movimento espírita, da obra mediúnica de Chico Xavier e da obra produzida pelo educador e pesquisador Denisard.

A obra mediúnica de Chico Xavier tem produções muito interessantes e outras ruins. E há outras advindas da sua mediunidade que são lamentáveis, como são exemplos a obra “Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho”, atribuída ao espírito Humberto de Campos, e a obra “Desobsessão”, atribuída ao um espírito que a assina como André Luiz.

O livro “Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho”, datado de 1938, época da ditadura Vargas, período histórico conhecido como Estado Novo, além de deturpar a história brasileira, traz a histeria anticomunista e perigosamente fascista da época em que se vivia. E a exaltação reiterada a essa péssima obra nos tempos atuais apenas ilustra seu papel de anteparo político-doutrinário, à direita espírita, a que sempre se prestou desde sua primeira edição, no final da década de 1930, como ilustra o trecho abaixo:

Nesta época de confusão e amargura, quando, com as mais justas razões, se tem, por toda parte, a triste organização do homem econômico da filosofia marxista, que vem destruir todo o patrimônio de tradições dos que lutaram e sofreram no pretérito da humanidade, as medidas de repressão e de segurança devem ser tomadas a bem das coletividades e das instituições, a fim de que uma onda inconsciente de destruição e morticínio não elimine o altar de esperanças da pátria. Que o capitalismo, visando à própria tranquilidade coletiva, seja chamado pelas administrações ao debate, a incentivar com os seus largos recursos a campanha do livro, do saneamento e do trabalho, em favor da concórdia universal.”[3]

É preciso, portanto, destacar e denunciar que a intenção não verbalizada de classificar a obra mediúnica do médium de Pedro Leopoldo como complementar à obra de Kardec e, mais, como inaceitável continuidade da elaboração doutrinária do espiritismo, não passa de ardil para justificação, como se tem visto amiúde, de mensagens políticas esdrúxulas e incompatíveis com as verdadeiras propostas espíritas legadas pelos espíritos que auxiliaram Kardec.

A insistência nesse tema por alguns médiuns, palestrantes e dirigentes é proposital. Porque se pode facilmente perceber que todos esses modernos propagadores dessa estranha hipótese apoiaram ou apoiam a degradação moral e cognitiva, conhecida como bolsonarismo, que se entranhou como uma doença no movimento espírita, tornando-o uma proposta místico-religiosa que prega o anticientificismo e apela à irracionalidade fideísta como caminho da prática espírita e como proposta de atuação política do adepto do bolsoespiritismo.

Não é pueril ou desinteressada essa associação entre os espíritos de Kardec e de Chico Xavier. À revelia dos méritos pessoais de cada um, as obras de Chico e de Kardec são díspares, opostas, e não é possível considerá-las complementares, a não ser, claro, que haja a intenção, que é o caso, de se usar a obra do médium mineiro como nova e estranha referência doutrinária do espiritismo para justificar opções políticas protofascistas.

Notas:

[1] Grafia original do nome de Kardec encontrada em sua certidão de nascimento.

[2] KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Brasília, DF: FEB, 2020. p.244.

[3] XAVIER, Francisco C. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1938. p.167-168.

8 COMENTÁRIOS

  1. Excelente reflexão. Tenho 25 anos, pelo menos 10 de espiritismo, e sempre me incomodou a OBRIGAÇÃO de ler e saber todas as obras de Chico Xavier, principalmente as atribuídas a André Luiz, as ditas obras “completamentares”. Honestamente, ler Paulo Freire, pra mim e na minha opinião, se mostrou muito mais “edificante”, como gostam de dizer.

    Sobre o artigo, eu fiquei muito interessada em ler mais sobre dois pontos pincelados no texto: a diferença entre promoção social e ação assistencialista e o que há de errado (não sei se esse seria o termo) na obra Desobsessão (nunca li).

    Novamente, parabéns pelo artigo.

  2. Concordo com quase tudo que foi escrito, principalmente o perigo do bolsoespiritismo. Contudo, em primeiro lugar, não se pode falar em “obra” de Chico Xavier, como se fala da obra de Kardec, pois Chico era um médium, quer dizer, um intermediário do que os diversos espíritos ditavam a ele. Em segundo lugar, praticamente “jogar fora” mais de 400 obras, entre as quais boa parte de cunho evangélico, por conta de trechos de duas obras, que de fato podem ser incorretas, é “jogar a criança junto com a água da banheira”. Dizer que as “obras” de Chico são complementares ou não a Kardec, entendo ser irrelevante. Negar a importância das obras consoladoras, baseadas nos ensinos de Jesus, não acho que é o melhor caminho pra reflexão.

  3. Quando entrei no Espiritismo acabei pelo viés da chamada “direita”. Li o livro Brasil Coração do Mundo, Pátria Do Evangelho e estranhei trechos como estes e outros. Inclusive trechos imprecisos sobre a História do Brasil.
    Na medida que caminhei e avancei no Movimento fui caindo na real e até que encontrei O Movimento Espíritas Progressistas e entre tantos, Os Espíritas à Esquerda, CEJUS, Coletivo Girassóis, a ABPE da Dora Incontri e outros. E realmente tenho percebido as incoerências dentro do Movimento Espírita.

  4. Queridos irmãos,

    Perdoe-me pelo que aqui irei comentar, mas política não há nada de ser relacionado à espiritismo, à Jesus, ao amor incondicional cristão que devemos nutrir pelo próximo.

    Rotular vertentes espíritas como “Esquerda espírita”, “Direita Espírita”, “Chiquismo”, “Bolsoespiritismo”, é caminhar para trás, para longe do que nos está sendo proposto desde que a doutrina nos foi trazida por Kardec, divulgada por tantos e tantos médiuns e que há 2 milênios nos foi apresentada pelo nosso grande mestre maior, do qual, dispensa apresentações.

    Partindo deste ponto, nos fica claro que todas as obras que buscam a elevação moral e espiritual do ser não estão erradas. Elas apenas se adequam da melhor forma ao momento ao qual foram concebidas pelos seus autores. Ora, a Bíblia, lida atualmente contém inúmeras inverdades, inúmeras mensagens falsamente interpretadas, seja pela falta de evolução moral, ou pela pobreza linguística ao converter o texto hebraico.
    Dizer que o Capitalismo é errado, é o mesmo que o falso Comunismo é o correto. Não há (ainda) em nosso orbe, sistema econômico perfeito, que abrace igualdade e mérito em um só sistema, pois somos falhos ao ponto de ainda entrarmos em conflitos militares, de optarmos pela ganância, soberba, pela fama, pelo orgulho. Somos ainda egoístas, e se praticamos caridade, no fundo, é para nutrir nosso próprio EGO.
    Viver na ilusão de que somos evoluídos por pensarmos diferente, por estarmos em uma seita ou seguindo uma doutrina que seja “melhor” que outra, é ainda estar patinando no barro.

    Há e haverão incoerências, pois pensamos apenas com o ego, e não com o amor.
    A única verdade da qual todos que seguem o Cristo sabem, ou deveriam saber, é que “Fora da caridade, não há salvação”.

    Deixemos o egoísmo de lado, a raiva pelo próximo, que oprime, que exige, que se coloca como melhor, por achar saber mais do que o outro. Devemos caminhar juntos, unidos por um único objetivo, que é:

    O Amor.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui