Espiritismo e a práxis política

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Novo texto exclusivo de Elton Rodrigues para sua coluna na página “Espíritas à esquerda”.

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As oportunidades que Deus nos traz

Elton Rodrigues

Camaradas, é com grande satisfação que comemoramos o terceiro decênio da Grande Agitação Normativa dos Direitos Humanos-Indiscriminados.

Ah, camaradas, lembro-me como se fosse hoje!

Os fanáticos religiosos, os fascistas, os liberais inescrupulosos e parte dos que deveriam lutar pelo povo –vejam só!– concluíram que o melhor era a permanência de Bolsonaro no poder, pessoa que representava a encarnação do que havia de pior no espírito do povo brasileiro.

A gota d’água foi um pronunciamento em rede nacional, em que Bolsonaro aconselhava a população a ignorar os cientistas, dizendo que o coronavírus –vírus que gerou uma pandemia mundial– não era nada demais, e que as escolas deveriam voltar a funcionar normalmente.

Jovens começaram a ficar doentes, assim como seus familiares e os profissionais da educação. O sistema de saúde da época, o público e o privado –isso ainda existia– não conseguiu comportar tamanha demanda.

Jovens começaram a morrer. Pais enlouquecidos tentavam enterrar seus amores, mas sem sucesso. Mais loucura em suas vidas. Não mais se preocupavam com a saúde. Empresas de cigarro e bebida alcoólica nunca lucraram tanto. Mais mortes.

Os defensores de Bolsonaro afirmavam que tudo era culpa da China. Os liberais justificavam as mortes dizendo que o Brasil estava próximo a ser o maior produtor de cigarros e bebidas e que muitos empregos estavam sendo ofertados. Mais mortes.

A esquerda liberal buscava maneiras de entregar flores ao presidente, além de uma carta com reflexões religiosas, pedindo moderação em suas atitudes. Enquanto os trabalhadores saudáveis eram forçados a girar a roda do deus Mercado, essa ‘esquerda’ pedia calma, pois um dia o tempo de sofrimento iria passar, naturalmente. Mais mortes.

Os mais jovens lutavam para esclarecer a população que só com uma mobilização completa dos subalternos, dos marginalizados e dos sofridos a situação iria mudar. Houve resistência por parte de alguns pensadores. Talvez a mobilização poderia transformar-se em uma guerra civil e, por isso, pediram calma, tempo para pensar. Mais mortes.

Os jovens ignoraram os filósofos e sociólogos de sofá, velhacos cristalizados em um Brasil colonizado e agitaram as primeiras manifestações.

Pessoas de todas as idades, de todas as classes, de todas as formações se juntaram e foram às ruas. A repressão por parte dos soldados de cristo e da milícia bolsonárica brasileira foi grande, mas a força do povo foi maior.

Pais, mães, professores, médicos se transformaram em generais, em estrategistas, em seguranças dos idosos, das crianças.

O povo brasileiro nunca esteve tão unido. Todos estavam lutando, por fim, por aquele Brasil feliz, acolhedor, tão divulgado à época, mas que só existia nos panfletos turísticos.

O povo venceu.

Governos comunitários foram implantados. Centros médicos, espaços coletivos para alimentação e higienização criados. Psicólogos fortaleceram as mentes fragilizadas por aquele período difícil.

Todos estavam cansados, mas felizes.

Com o tempo, todo o sistema de saúde, de educação e de alimentação eram públicos.

Em dez anos já não havia fome, pessoas morando nas ruas, idosos e crianças sem amparo.

Todos os saudáveis trabalhavam e ganhavam a partir de suas necessidades.

Em vinte anos as prisões estavam com 80% de suas vagas inocupadas, quando comparadas com os dados de 2020.

O meio ambiente estava amparado por cientistas incansáveis e por uma população consciente de que não havia separação entre homem e Natureza.

Ah, camaradas, e hoje, trinta anos depois da Grande Agitação, o que vemos?

A utopia dos revolucionários de todas as épocas concretizada.

Nós que já ultrapassamos –há muito tempo– a juventude, entregamos a responsabilidade para essa primeira geração formada com a nova estrutura governamental.

Vocês receberam formação cultural e política. A educação de vocês é emancipadora, crítica e, para isso, não precisaram trabalhar, não sentiram fome, não ficaram sem amparo médico. Suas famílias, nas diversas configurações possíveis, são estruturadas. Vocês sabem, meus queridos jovens, que antigamente a educação era o caminho sugerido para termos um país melhor, mas poucos falavam da necessidade de todo um aparato, de toda uma sustentação para que a educação fosse realmente eficiente. Contamos com vocês!

Permaneçam fortes e unidos para que os parasitas e vermes do passado não tenham, nunca mais, abrigo nas mentes e nos corações do povo.”

***

Acordei, com esperança e lágrimas nos olhos, e pensei:

O que falta para aproveitarmos as oportunidades que Deus nos traz? O que falta para termos uma grande agitação?

Publicado no Facebook em 30/3/2020.

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