O que os espíritas sabem sobre ditadura militar e sofrimento?

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Nesse texto sensível da Ana Cláudia para o Repórter Nordeste, ela nos fala sobre a necessidade de se conhecer o tenebroso momento histórico vivido pelo país durante a ditadura militar e a incoerência dos bolsoespíritas em relação a esse período.

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O que os espíritas sabem sobre ditadura militar e sofrimento?

Ana Claudia Laurindo

Publicado originalmente em Repórter Nordeste

Já falei sobre isso e volto a falar: entre todas as experiências que tive em reuniões mediúnicas, uma das mais marcantes vem de uma sequência semanal de comunicações de espíritos vitimados pelas práticas de tortura levadas adiante pelo governo do Brasil, no período reconhecido como ditadura militar.

Eles eram trazidos para conversar comigo, pois naquela mesa o próprio dirigente recusava empatia a tais espíritos, costumando despejar seus próprios juízos de valor sobre a responsabilidade deles mesmos na sorte que os acolhera.

Mas eu os ouvi com sensibilidade, sim. Conhecia a história, acreditava nela e acima de tudo, me solidarizava com os relatos de quem conheceu na carne que um dia vestiu, a tirania máxima da força.

Muitos deles ainda não estavam em paz, apresentavam revolta e descrença, outros em estado de semi-demência se acreditavam ainda presos. A ética e a humanidade doída me impedem de relatar detalhes das torturas que lhes foram impostas, por seres que pareciam humanos, mas eram apenas soldados em uma guerra contra irmãos.

Houve tortura promovida pelo estado brasileiro, que perseguiu e matou muitas pessoas por causa de escolhas políticas de caráter societário e humanitário, sim! Sou testemunha das comunicações mediúnicas de algumas destas vítimas, sim! E como cidadã brasileira e espírita, não pude jamais coadunar com as políticas de um presidente que louva o maior torturador reconhecido pela história oficial, o coronel Brilhante Ustra.

[…]

Sigo agora, em questionamento aos nossos irmãos do meio espírita que apoiam Bolsonaro: o que vocês conhecem sobre a ditadura militar no Brasil?

Aquilo que seus pais burgueses disseram, sobre um tempo de paz?

O que vocês leram sobre o efeito letal dos atos institucionais emitidos pelo país no período dos governos militares?

Como vocês conseguem continuar apoiando a morte de maneira tão escancarada?

Já está na hora de vocês deixarem de repetir frases de efeito e mergulharem na leitura séria, para conhecerem mais sobre a verdadeira história da participação dos militares na sociedade brasileira.

Espírita que não conhece contexto histórico e político do próprio país não está cumprindo a parte do ‘instruí-vos’, e talvez esta seja a razão do não alcance do ‘amai-vos’ com abrangência humanitária e universal.”

Publicado no Facebook em 28/01/2020.

3 COMENTÁRIOS

  1. Como foi bom conhecer este site.
    Das poucas vezes que vi espíritas comentando sobre a atual situação do Brasil fiquei estarrecido com tamanha falta de conhecimento sobre nossa realidade e empatia com a dor alheia.
    Parabéns.

  2. Kardecismo virou um neocatolicismo burgues. Usa uma concepção distorcida sobre o carma para justificar os problemas de forma fácil. Em vez de questionar o sistema social, político, econômico e etc, que promove a pobreza e degradação humana, substitui por “era para ser assim”. Falam em racionalidade, lógica, numa interpretação pretensamente científica, mas caem nas lorotas mais básicas. Inclusive, na prática, vão contra os postulados do próprio Kardec, tão presos no século 19. O Kardec, mesmo com suas limitações devido ao contexto da época, estava aberto a uma evolução do modelo kardecista.

  3. Na época do regime militar, apesar de excessos cometidos, havia um clima de guerra – grupos de guerrilha urbana e rural lutavam não por democracia, mas para implantar a chamada ditadura do proletariado (como confessou o ex-guerrilheiro Fernando Gabeira em um vídeo). Esses guerrilheiros inicialmente assaltavam bancos, quartéis e promoviam atentados à bomba matando militares e civis. Além disso, também praticavam tortura e justiçamento, como espalhavam medo entre a população. É preciso acabar com essa visão romântica de que as vítimas do regime militar eram pobres inocentes que foram presos pelos agentes do regime, rezando ou trabalhando. O curioso é que quase ninguém se refere às vítimas desses guerrilheiros, como o soldado Mário Kozel Filho que teve o corpo dilacerado por uma bomba e outros tantos que foram mortos ou ficaram aleijados. O regime militar não se resumiu à repressão, também teve aspectos positivos, como o PIS, PASEP, FGTS, estradas, universidades, energia, transportes, etc. O próprio Chico Xavier alertou, em 1971, para a necessidade da tutela das Forças Armadas para que o povo brasileiro não caísse em um desfiladeiro de desordem.

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