Uma revolução espírita

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O espiritismo traz consigo como ponto basilar a proposta da transformação da realidade concreta na qual mulheres e homens vivem encarnados. Não é possível, portanto, falar-se de mudança interior ou reforma íntima sem que haja a concomitante mudança da sociedade humana. A tão propagada “reforma íntima” nada mais é que discurso vazio se não acompanhada do movimento em direção a uma nova realidade, a uma nova estrutura social, a um novo “reino”, que não é desse mundo desigual, injusto, desumano e opressor.

No centro de toda a práxis de Jesus está exatamente o anúncio do novo reino, duma nova organização da sociedade na qual mulheres e homens não mais sofreriam as opressões várias a que estão submetidos e não mais estariam vivendo sob a insegurança material cotidiana de suas vidas, experimentando dificuldades extremas numa luta para apenas sobreviver.

Portanto, o espiritismo, como proposta revisitada da práxis de Jesus, deve ter como base de ação e reflexão o processo de transformação da sociedade. Toda prática e todo estudo espíritas devem-se pautar na luta por uma sociedade mais justa e fraterna, na busca da superação das estruturas sociais mantenedoras das condições opressivas que reproduzem a miséria, a fome, o desemprego, a moradia precária, as faltas de saúde e educação, e impedem mulheres e homens de viverem com dignidade e de serem sujeitos plenos de suas vidas e de suas possibilidades.

A ação social assistencialista –a sopa na rua, o farnel mensal, o pequeno hospital–, apesar de cumprir determinado papel emergencial, e apenas esse, não é uma ação que transforma a sociedade. Ao contrário, sustenta e reproduz o que há de mais cruel e indigno entre os indivíduos: a humilhação e a degradação humanas. Aliás, sobre isso, é sempre bom lembrar a questão 888 de “O livro dos espíritos”:

888. Que se deve pensar da esmola?

– ‘Condenando-se a pedir esmola, o homem se degrada física e moralmente: embrutece-se. Uma sociedade que se baseie na Lei de Deus e na justiça deve prover à vida do fraco, sem que haja para ele humilhação. Deve assegurar a existência dos que não podem trabalhar, sem lhes deixar a vida à mercê do acaso e da boa vontade de alguns.’”

Depreende-se disso que a ação assistencialista deve ser complementar a uma ação-reflexão mais profunda e mais transformadora, ou seja, sem que haja uma proposta maior de mudança objetiva da realidade, toda ação assistencialista não passa de diletantismo da classe média bem alimentada e bem formada, que mantém a condição de abandono social e econômico daqueles que se submetem a essa degradação física e moral.

Nesse ponto, vale destacar a resposta à questão 930, de “O livro dos espíritos”:

930. […]

– ‘Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém deve morrer de fome.’”

E, para que ninguém morra de fome, o simples assistencialismo não será capaz de garantir a proposta espírita que grita para todos a partir das obras kardecistas.

Essa gente que é a parte mais numerosa das sociedades periféricas do sistema econômico mundial, como o é a sociedade brasileira, não está “à margem de” ou “fora de”, como ensina Paulo Freire em seus escritos fundamentais; essa gente não está “marginalizada” por conta de sua pobreza, de sua fome, de seu analfabetismo, de seu desespero; essa gente está “no interior de”, numa estrutura social opressora que é diretamente responsável pelo estado em que essa gente se encontra.

Dessa forma, de nada adiantará, para aqueles que sonham com uma sociedade mais justa e humana, o simples atendimento às necessidades materiais mais básicas ou mesmo a inclusão de parcela dessa gente dentro da mesma estrutura que marginaliza, oprime e degrada; ou seja, numa linguagem simplória, seria como enxugar gelo.

Voltando a Paulo Freire, ele afirma que é preciso reconhecer a existência de uma realidade em relação à qual os oprimidos estão marginalizados, e “não somente no espaço físico, mas realidades históricas, sociais, culturais e econômicas; ou seja a dimensão estrutural da realidade”.

Esse ponto é importante para demarcar com exatidão aquilo que Freire considera como a estrutura social responsável pela condição marginal daqueles que vivem em situação sub-humana de completo abandono: espaço, tempo, sociedade, cultura e economia.

Como não há nenhuma possibilidade de mudança da condição opressiva da sociedade, mantidas as mesmas estruturas que a sustentam, a única forma de se viver numa sociedade pautada pela “lei do Cristo” na qual “ninguém deve morrer de fome”, como propõem os espíritos em resposta a Kardec, é, segundo Freire e em magnífica conclusão, “uma autêntica transformação da estrutura desumanizante” da sociedade. Portanto, não há outro caminho senão aquele que se propõe a transformar de forma radical a estrutura social, cultural e econômica que oprime, desumaniza e degrada a vida de mulheres e homens.

E essa deve ser a principal pauta da práxis de toda instituição espírita, e também de seus membros, na sua atuação cotidiana, porque, segundo ainda “O livro dos espíritos”, na questão 573:

573. Em que consiste a missão dos espíritos encarnados?

Em instruir os homens, em lhes auxiliar o progresso; em lhes melhorar as instituições, por meios diretos e materiais. […]’”

Como se pode apreender das obras espíritas e das reflexões de Paulo Freire, toda práxis que pretenda transformar a realidade deve ter como base fundamental de ação a educação libertadora do povo oprimido. É preciso “instruir os homens” e auxiliá-los no seu processo de autoconscientização e autolibertação por meio de práticas de educação popular, como o foram as experiências exitosas dos círculos de cultura freireanos e das comunidades eclesiais de base da igreja católica.

É preciso desconstruir a ideia de que a caridade assistencialista é o motor da evolução espiritual, essa construção meritocrática que passa pela chamada “reforma íntima”. A evolução espiritual se relaciona com desenvolvimento da consciência, com a percepção de si mesmo perante a realidade, com o desenvolvimento cognitivo e do sentido da existência, que é justamente a construção da ideia do “reino” em cada um. Pois, como ensina Paulo em famosa carta, “ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse a caridade, isso nada me adiantaria”, e a verdadeira caridade é aquela que “não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade”, e, portanto, luta pela transformação desse mundo injusto e desumano.

Espíritas, essa é a tarefa histórica a que todos foram chamados. Sem esse engajamento nas propostas dum novo reino de justiça e amor, a ação espírita é inócua e reprodutora das condições de opressão. Só o engajamento na luta pela completa transformação das estruturas sociais, que condenam milhões de vidas ao desespero, à fome, ao desemprego e à indignidade, justifica a adesão às propostas espíritas. Os espíritas devem entender que sua ação-reflexão tem que ser necessariamente transformadora porque as propostas espíritas são revolucionárias, tal qual foi revolucionário o anúncio dum reino que não é desse mundo de caos e opressão.

O Espíritas à Esquerda entende a práxis espírita dessa forma e convida a todas e todos que queiram fazer parte desse projeto revolucionário que pretende, dentro dos seus limites de tamanho e atuação, contribuir para a transformação da sociedade e, em particular, do movimento espírita. O EàE, amparado pelos ensinos de Jesus e dos espíritos que auxiliaram Kardec, inspirado pela beleza das propostas de conscientização e libertação de Paulo Freire e da Teologia da Libertação e motivado pelo chamamento à ação revolucionária e transformadora, propõe justamente uma práxis que inclui estudos de obras sobre análise da realidade e sobre educação popular e a implantação de núcleos espíritas populares para atuarem como auxiliares nesse processo de autolibertação do povo oprimido.

O espiritismo é revolucionário. Faça parte desse projeto.

3 COMENTÁRIOS

  1. Esse texto é um excelente compilado da discussão/reflexão que a coordenação do Grupo Espíritas à Esquerda/DF tem desenvolvido nas nossas reuniões quinzenais. Um convite ao estudo e uma volta às origem do Cristianismo redivivo

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