A “caridade” como refúgio para espíritas sem compaixão

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Avel Chuklanov / Unsplash
Avel Chuklanov / Unsplash

Boa parte da teoria e da prática espírita tradicional se apóia na frase de Allan Kardec que afirma que “fora da caridade não há salvação”. A frase, em geral, é interpretada fora de seu contexto de oposição à máxima católica “fora da igreja não há salvação” e dá à caridade dimensões que podem ganhar contornos, pelo menos, incongruentes com a ideia kardequiana.

Um exemplo do mau entendimento do termo caridade gritou na palestra de Carlos Baccelli, transmitida online no dia 6 de junho de 2021 pela CESDA (Casa Espírita Seara do Divino Amigo)[1], da cidade de Sacramento, MG, e cujo tema foi justamente “Fora da caridade não há salvação”. O orador afirma que a pobreza favorece “uma bênção, a oportunidade de trabalhar, a oportunidade de servir”. O contexto que ele apresenta é de um suposto grupo de espíritas brasileiros residentes no Canadá que, segundo o palestrante, não pode fazer caridade porque “o governo cuida de tudo, não há fome, não há pessoas na miséria”.

A fala mansa de Baccelli fala muito da concepção hegemônica no espiritismo tradicional no que se refere à prática de caridade. A palavra é aprisionada pela noção de assistencialismo e apoio material que pressupõe que haja sempre um necessitado e um abonado, instrumentalizada por suas posses a realizar a caridade.

Esta visão estreita e limitada condiciona a prática de caridade à existência de desigualdade, na qual inclusive a possibilidade de desenvolvimento espiritual pelo exercício da caridade é privilégio de quem tem posses materiais. Aos necessitados restaria o crescimento pelo sofrimento? O altruísmo é restrito a quem tem posses?

Os filiados a essa concepção cínica de caridade com certeza não leram, ignoraram ou não compreenderam o que o próprio Kardec diz em “O livro dos espíritos”, na questão 930: “Numa sociedade organizada segundo a lei de Cristo ninguém deve morrer de fome”.

A aceitação da desigualdade e a interpretação da miséria como “bênção” não é apenas a negação de tudo o que professa o evangelho de Jesus, mas no caso em questão uma apropriação do sofrimento alheio como trampolim para o regozijo da sua alma supostamente caridosa. Mas verdadeiros cristãos entenderiam as palavras do palestrante como tripudiantes em relação ao outro.

Esta “caridade” vertical se revela como arrogante e dissimula a falta de compaixão efetiva, de empatia real, de solidariedade e fraternidade. Antes roga pela existência do infortúnio alheio para que possa desenvolver sua meritocracia espiritual.

A questão 806 de “O livro dos espíritos” é assertiva ao dizer que a desigualdade não é natural, muito menos divina. “É lei da natureza a desigualdade das condições sociais?”, indaga Kardec aos espíritos, que lhe respondem sem possibilidade de dupla interpretação: “Não: é obra do homem e não de Deus”.

A caridade legítima é a que se nutre da compaixão, da solidariedade e da empatia. É a que se movimenta pelo desejo de ver o bem do irmão por meio da libertação efetiva das privações. Fora disso, é tudo demagogia, arrogância e exercício de suposta superioridade.

Caridosos são os que lutam contra a desigualdade, pela libertação, pela consciência do direito à igualdade. Caridosos são os que lutam por sociedades igualitárias. São os que auxiliam quem quer que seja sem juízo moral de “merecimento”. Caridoso é quem liberta da fome, da ignorância e das discriminações.

Que Deus perdoe os que veem no sofrimento alheio uma oportunidade para sua expiação pessoal.

 

Nota:

[1] https://youtu.be/GWLGRiF5Ru8

2 COMENTÁRIOS

  1. Para muitos a caridade é para acalentar o meu coração. Mas se o filhx dx empregadx precisa estudar, eu não ajudo. Este é o pensamento de muitos, ajudo a você a continuar no mesmo lugar de sempre, se vc sair deste lugar, como eu irei fazer a minha caridade??

    Devemos lutar!

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