Allan Kardec: defensor da Bíblia e das tradições sagradas do passado

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Foto: Timothy Eberly/Unsplash

COLUNA – Releituras Kardecistas – com Marcio Sales Saraiva

Pode parecer estranho para alguns, mas o fundador do espiritismo nunca fez um ataque ao conteúdo dos livros da Bíblia judaico-cristã. Há diversas passagens em que ele faz reflexões respeitosas sobre as Escrituras. Sendo assim, qual é a divergência entre o kardecismo e os que julgam seguir rigorosamente a Bíblia?

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Ao se referir ao mito ou alegoria de Adão (questão 51), confrontado com as explicações dos espíritos sobre um longo passado de presença humana na Terra, Kardec comenta na questão 59:

“A objeção que se pode fazer a essa teoria [de que o ser humano é muito anterior ao mito adâmico] é a de estar em contradição com os textos dos livros sagrados. Mas um exame sério nos leva a reconhecer que essa contradição é mais aparente que real, resultante da interpretação dada a passagens que, em geral, só possuíam sentido alegórico.”

A evolução das espécies não está em desacordo com a Bíblia, desde que possamos fazer uma hermenêutica séria das Escrituras, compreendendo seu sentido poético, alegórico e simbólico, ao invés de fazermos como os fundamentalistas que ficam presos na letra. O apóstolo Paulo já ensinava que “a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6, Bíblia NVI).

O comentário de Herculano Pires vai na mesma direção do que estamos dizendo aqui. Diz o filósofo espírita que “os textos sagrados das grandes religiões, como a Bíblia e os Vedas [hinduísmo], os sistemas de antigos filósofos, as doutrinas de velhas ordens ocultas ou esotéricas, todos encerram grandes verdades, nas suas contradições aparentes.”

Assim sendo, quando os espíritas encontram erros ou contradições na Bíblia, como a criação em seis dias, isso quer dizer que “a Bíblia é um erro? Não; mas que os homens se enganaram na sua interpretação”, dirá Kardec. Em outras palavras, o problema com a Bíblia e outros textos considerados sagrados ou revelações divinas é sua idolatria cega que não permite uma hermenêutica alegórica, poética e simbólica, capaz de retirar das aparentes palavras de contradição o mel da sabedoria eterna oculta nas entrelinhas.

Encerro este artigo com um belíssimo e profundo comentário de Allan Kardec que se encontra na questão 628 de “O livro dos espíritos”, farol da filosofia espírita e de sua concepção macroecumênica. Nos diz o grande professor:

“Não há, entretanto, para o homem de estudo, nenhum antigo sistema filosófico, nenhuma tradição, nenhuma religião a negligenciar, porque todos encerram os germens de grandes verdades, que embora pareçam contraditórias entre si, espalhadas que se acham entre acessórios sem fundamento, são hoje muito fáceis de coordenar, graças à chave que vos dá o espiritismo de uma infinidade de coisas que até aqui vos pareciam sem razão, e cuja realidade vos é agora demonstrada de maneira irrecusável. Não deixeis de tirar temas de estudo desses materiais. São eles muito ricos e podem contribuir poderosamente para a vossa instrução.”

Dito de outra maneira, Kardec nos explica o espiritismo como uma “chave de interpretação”, uma bússola hermenêutica, que poderá nos ajudar a ler e entender a filosofia grega, medieval e moderna, os diversos sistemas religiosos, as diversas concepções de mundo das mais variadas tradições culturais. Porque não sendo o espírita uma pessoa fanática ou fundamentalista, ele estará aberto para descobrir, com as chaves fornecidas pelo próprio kardecismo, as “grandes verdades” que se encontram espalhadas pelo mundo, pelas religiões e pelas filosofias.

Assim sendo, o espiritismo respeita a Bíblia —bem como todos os livros considerados sagrados, como a Torá, Alcorão etc.— e nela buscará as grandes verdades escondidas e mortas sob a letra fria das interpretações literais e empobrecedoras. Isso quer dizer que o espiritismo sempre esteve na vanguarda do respeito ao pluralismo religioso e na busca sincera de uma convergência onde o essencial prevaleça sobre o que é periférico nas grandes filosofias e religiões da humanidade.

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