Carta a Kardec nos seus 217 anos

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Por Dora Incontri
 

Querido mestre!

217 anos de teu nascimento e o quanto a face do mundo se transformou! Nesse lapso tempo, o planeta teve mais mudanças do que os últimos 2 mil anos. No rio da história, que se mostrou tão violento e turvo, lançaste algumas ideias transformadoras. Elas quase se perderam diante de tantas turbulências por que passamos. Abriste a porta da mediunidade de forma racional e investigativa, ética e desmistificadora. Entregaste-nos algumas chaves importantes para lidar com o mundo espiritual e sonhaste com uma filosofia moral que pudesse ajudar a transformar a terra.

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Allan Kardec – Foto Divulgação/Instituto IDEAK
Propunhas métodos científicos, dentro das possibilidades restritas do teu momento histórico e criaste novos caminhos de espiritualidade, sem hierarquia, sem sacerdócio, sem dogmas, sem instituição – uma espiritualidade livre, crítica, sem amarras e que se ancorasse em pesquisa e racionalidade.
Fizeste um esforço hercúleo, um trabalho exaustivo, em poucos anos, gastando tua saúde, enfrentando aluviões de críticas e traições, sempre em meio a extrema dificuldade financeira.
E eras “apenas” um professor, de classe média, bem média, sempre às voltas com finanças precárias, sempre idealista pela educação do povo. Discípulo honrado do grande mestre Pestalozzi.
Hasteaste bem alta a ideia da reencarnação, para que ela nos restituísse a gestão de nós mesmos, num processo de autoeducação, pelo qual somos os responsáveis na passagem dos séculos, nas múltiplas vidas.
Tudo em tuas obras nos oferece equilíbrio, liberdade, caminhos novos, frescura de espírito…
Mas é claro que eras um ser humano, tiveste teus limites, pertencias a uma época. Qualquer homem ou mulher, em qualquer século da história, tem suas raízes em seu tempo e não pode ser julgado pelo futuro, sob a perspectiva dos avanços que o tempo traz. Deve antes ser reconhecido pelo que lhe foi dado vislumbrar desse futuro, e em que se adiantou em seu tempo.
Dói-me, mestre, que muitos te abandonam hoje, depois de terem se saciado de tuas sábias orientações, envergonhados de se proclamarem teus discípulos. Para muitos, não passas de tacanho e limitado professor primário que teve pretensões positivistas em relação a uma pseudociência ou um autoproclamado missionário com ilusões de reforma do cristianismo.
E ainda por acréscimo, justamente o país que mais te conhece, que mais te aclimatou – o Brasil – é também o que mais te desfigura e te trai.
Quero aqui apenas te agradecer e proclamar, como tenho sempre feito, a minha lealdade ao teu projeto, que aliás foi inspirado pelo próprio Cristo. Para isso, não é preciso que eu abandone meu espírito crítico, minha capacidade de análise histórica – coisas aliás que desenvolvi justamente em contato com a leitura de tuas obras. Tu mesmo nos ofereces os instrumentos e nos pedes para fazermos uma leitura aberta e não dogmática de teus escritos.
Sei que continuas inspirando aqueles que sinceramente se identificam com teus ideais superiores e se comprometem a continuar tua semeadura! Sei que me inspiras também e sinto-me conectada ao teu coração amoroso, desconhecido pelos que te supõem erroneamente dono de uma austeridade fria. Distribuíste esse teu coração para centenas de alunos, milhares de leitores, inúmeros espíritos e hoje o vemos impresso nessas cartas tuas que estão vindo vagarosamente a público!
Obrigada pelo teu nascimento, mestre! Obrigada pela tua vida e tua missão bem cumprida! E inspira-nos ainda com teu bom senso, com tua profunda espiritualidade e com tua retidão!
 

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