Suspensão temporária

267

Coluna Feminismos com Elizabeth Hernandes (EàE-DF)

No dois de outubro de 2021 foi dia de sair às ruas –outra vez– para defender o de sempre. Democracia, oxigênio, floresta, povos originários; terra, comida e teto; saúde, educação, arte, cultura (não necessariamente em ordem ou hierarquia). O direito de permanecermos vivas e lindas, vivos e lindos, vives e lindes, qualquer que seja nossa cor de pele, nosso jeito de bem querer corpos ou venerar almas. Foi dia de dizer que essas coisas não são precificáveis, não estão à venda e nem serão trocadas por quinquilharias. Não se respira ouro, não se come dólar e ninguém transa com o Mercado. Peraí. Acho que tem gente que transa com o Mercado, sim, mas esses ficam lá na Faria Lima, em horário comercial e ontem era sábado. Fomos dizer àquela gente que gosta de produzir lixo que, nós, preferimos viver.

Espíritas à Esquerda presente nas manifestações em Brasília.

Nunca foi fácil e, agora, menos ainda.

Estamos no meio de uma pandemia causada por um vírus que se espalha de modo sub-reptício. Uma praga tão relacionada à essência do conservadorismo que, para nos defendermos, temos que tomar atitudes e cuidados semelhantes aos da época da teoria dos miasmas. E, além de abrir janelas e arejar a casa (de quem tem uma), a gente precisa se movimentar e interagir o mínimo possível, fazer o essencial e se aquietar, porque a peste tá solta. Mas têm dias que o único jeito de a enfrentar é indo à rua. Viver é mesmo essa rebeldia todo dia.

Daí saímos nós, os divergentes, jurando que vamos nos cuidar mutuamente, afinal, temos experiência e gosto pelo ato. Mas é tanta coisa nova, tanto protocolo sanitário que… às vezes a gente esquece e… se descuida.

Aqui, na parte do descuido, talvez alguém vá lembrar que a esquerda não se cuida e só se une na cadeia.

Reconheço um pouco de verdade no chavão. Somos assim como irmãos em uma família meio “disfuncional”. Alguém aí me informe onde residem as “funcionais”, por favor? Se tudo funcionasse perfeitamente, por que teríamos de nos agrupar em pequenos bandos? Então tá. Somos irmãos que se estapeiam mesmo, porém, só quem pode bater no meu irmão, sou eu, tá certo? Tá, não. O ideal é ninguém bater em ninguém. A gente chega lá. Um dia.

Eu estava na Esplanada dos Ministérios com o meu novo e chiquérrimo cartaz do Espíritas à Esquerda, “Fora da justiça social não há salvação”, patrocinado por mim mesma, feito em gráfica e tudo. Tudo dentro do normal: cumprimentos com distanciamento, beijinhos mascarados jogados de longe, fotos com gente conhecida e com gente se conhecendo, discursos, aplausos, vaias, risadas, crianças e cachorros. Havia treze partidos de esquerda (não resisti ao número!) e diversos movimentos e coletivos. Todos tentavam manter o tal do distanciamento obrigatório, afinal, esperar é resistir e vice-versa. A gente não vai facilitar para um vírus que acha que aqui é o século XIX! Não mesmo!

De repente me apareceu uma mana cujo sorriso não podia ser ignorado porque estava nos olhos e no corpo todo, gritando: “Meu Deus, eu não acredito! Tem espírita aqui! Eu tô tão feliz! Tira uma foto comigo!”

Fizemos a foto e ela partiu para o abraço, literalmente. E de repente se deu conta dos protocolos e cuidados, soltou rápido, ficou sem graça: “Desculpa! Fiquei tão alegre que esqueci que não pode abraçar” E sumiu na multidão, constrangida e feliz. E eu fiquei ali, contaminada. De amor.

Meu cérebro afirma, com base em literatura científica, que todas as vezes que saímos à rua aumentamos sim, a “odds ratio” para o desfecho covid, comparando com o grupo que ficou em casa. (Aqui é só pra falar difícil e impressionar os epidemiologistas.) É assim: qualquer interação, seja ir à padaria ou protestar pelo preço do pão, pode ser medida em termos de risco de adoecer. Mesmo com as vacinas e com a obediência aos protocolos sanitários prescritos com base em evidências.

Mas o meu coração me assegura, com base em evidências sentimentais que, em certos momentos, durante alguns segundos, a pandemia é suspensa. Durante alguns segundos ninguém se contamina. Esse momento de ser abraçada por uma desconhecida foi um deles. Como estaríamos aqui se não houvesse uma trégua de vez em quando?

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui