Da caridade à cidadania em fluxos: posicionamentos espíritas nas Eleições 2018

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Imagem: página Espíritas à Esquerda

Leituras em tempo de quarentena.

Nesse texto, publicado em setembro de 2020 pela Revista Compolítica, o autor, João Damasio, jornalista, doutorando em Ciências da Comunicação (Unisinos) e mestre em Comunicação (UFG), analisa a posição dos espíritas nas eleições presidenciais de 2018 no Brasil.

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Da caridade à cidadania em fluxos: posicionamentos espíritas nas Eleições 2018

João Damasio da Silva Neto

Revista Compolítica

RESUMO

Este trabalho analisa a circulação dos posicionamentos espíritas nas eleições presidenciais de 2018 no Brasil como indícios de uma transformação mais ampla na relação entre religião e política na sociedade em vias de midiatização. Historicamente, os espíritas se basearam no paradoxo entre laicidade e neutralidade para eleger a caridade como exercício político. O circuito-ambiente aqui analisado aponta para aberturas desse modelo na forma de uma cidadania em fluxos. Foram analisados três âmbitos (sócio-organizacional, técnico-midiático e político-discursivo) em que os posicionamentos espíritas operam: a) tentativas de neutralização política; b) expressão de motivações sociais espíritas; c) aberturas para estratégias mediadoras; e d) aberturas para fluxos adiante e táticas coletivas progressistas, correspondendo às lógicas de midiatização.

DA CARIDADE À CIDADANIA EM FLUXOS

A relação do espiritismo com a política é tão paradoxal quanto seu tensionamento originário com a ciência. Os tensionamentos com a razão e com a política são fundantes da religião que responde –ao mesmo tempo em que intriga– aos ideais positivistas da racionalidade e da laicidade. Para propor uma fé raciocinada, o espiritismo buscou afirmar uma cientificidade que sempre precisou ser mediada. Ao fixar uma moral no livre arbítrio caritativo, a doutrina se isentou de determinados entendimentos sociais e políticos ao longo do tempo. O contrassenso espírita consiste na afirmação da racionalidade da fé no campo científico e da neutralidade social no campo político.

O caso constituído para a investigação aqui relatada objetiva compreender a circulação de posicionamentos espíritas sobre temas de política, de modo a perceber como essa questão se atualiza em uma sociedade em midiatização. Entender a inserção do espiritismo nessa temática contribui com o conjunto de pesquisas na interface entre mídia, religião e política à medida em que “o número de estudos dedicados às relações entre mídia e outras religiosidades –além de católicos e protestantes– é menor” (Martino, 2016).

Nesta pesquisa, efetuamos um mapeamento sobre posicionamentos institucionais ou coletivos de espíritas publicados durante o período de agosto a outubro de 2018, que correspondeu a um período da campanha eleitoral presidencial no Brasil. Os 18 textos que compõem nosso corpus são referidos em seção específica ao final do texto e foram coletados nos sites das principais instituições espíritas do país: a Federação Espírita Brasileira (Feb), seguindo depois por todos os sites que ela vincula na aba “Movimento Espírita”; a Confederação Espírita Pan-Americana (Cepa); e textos afins que tiveram ampla circulação em redes sociais nesse período por parte de coletivos não institucionalizados.

Miguel (2009; 2012), dentre outros, já constatou quão político é o posicionamento “neutro” dos espíritas no Brasil. O autor analisou os posicionamentos institucionais espíritas em diversos episódios e contextos históricos durante o século passado. A diferença, no presente trabalho, está no contexto social atual e na abordagem metodológica. De lá para cá, as condições da semiose têm progredido de uma “sociedade dos meios” (na qual os campos sociais são mediados pela mídia) para uma “sociedade em vias de midiatização” (na qual a cultura da mídia perpassa instituições, mídias e atores sociais) (Fausto Neto, 2008).

De modo prático e aplicado ao caso de pesquisa, isso significa que a circulação de sentidos oriunda de posicionamentos espíritas sobre política ganha dinamicidade e relevância analítica à medida em que diversas instituições, mídias e atores sociais se apropriam da cultura midiática, pelo uso da internet e de outras formas pelas quais adquirem ou respondem a competências comunicativas.

Dois questionamentos centrais se configuram no presente estudo: Como os posicionamentos espíritas sobre política circularam no período eleitoral de 2018? Até que ponto a atualização dessa circulação possibilita aberturas para uma cidadania comunicacional no contexto espírita?

Para isso, recupera-se a relação entre espiritismo e política no desenvolvimento do pensamento espírita e no movimento social a ele correspondente, da França ao Brasil, localizando a centralidade da caridade como tema catalizador das discussões políticas. Em seguida, apresenta-se a abordagem teórica da midiatização, desenvolvendo os temas da circulação e da cidadania comunicacional, úteis à análise. A reflexão metodológica busca colecionar indícios no corpus constituído a fim de perceber como se organiza seu sistema de circulação e problematizar a relação entre espiritismo e política.

[…]

Publicado no Facebook em 02 de Novembro de 2020. 

Texto completo em:

Imagem: página Espíritas à Esquerda

http://compolitica.org/…/revista/article/view/400/272

REF/Link? http://compolitica.org/revista/index.php/revista/article/view/400/272?fbclid=IwAR0Cmjsx9Gj0CzHWlA07JP75WNquMgApQe5TmmpNjmsG887sWQ3iVQnMZsI

 

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