Elizabeth Hernandes – EàE do DF
Primeiro, esse é um texto do Brasil. Eu imagino que o termo mediunidade não seja tão usado, no dia a dia, no resto do mundo. Mas o resto do mundo que lute porque aqui é Brasil e todos, crentes, ateus e nem tanto, vivemos entre santos, orixás, espíritos e, ultimamente, também entre cultos evangélicos onde pessoas “falam em línguas”, fazem curas e expulsam demônios. E tudo isso pode ser manifestação de mediunidade. E também mera e simples impostura. Grosso modo, mediunidade é a capacidade de se comunicar com inteligências invisíveis e continuar convivendo (quase normalmente) na sua comunidade, sem ninguém tentar, contra você, uma intervenção psiquiátrica involuntária. Mediunidade é coisa de gente que crê, mas acho muito engraçado quando conheço pessoas que “não creem em nada” e deixam escapar que sentiram um arrepio diante de um fato inusitado que, para o médium, é só mais uma segunda-feira de manhã[1]. Já falei sobre isso antes e já saí do armário das racionalidades: sou uma médium. E não, não posso adivinhar os números da Mega Sena. E, se pudesse, não revelaria, eu mesma jogaria. E tenho uma história muito estranha e engraçada sobre isso, mas fica para outra. Foco, foco. Voltando à gente que crê, embora haja pesquisa acadêmica sobre o fenômeno, a mediunidade é, principalmente, parte da vida de pessoas que se acreditam seres espirituais vivendo uma experiência material. Essa expressão não é minha. Não sei quem é o autor ou autora, mas gosto muito. Dia desses uma pesquisadora me entrevistou (como eu já disse, espíritas são objeto de estudo acadêmico no Brasil). No decorrer da entrevista eu percebi o peso das contradições que carrego. Sou espírita, portanto, acredito em vida antes do nascimento na terra e depois da morte. Mas sou feminista e defendo que o aborto não deve ser criminalizado e que é preciso acabar com a dominação patriarcal sobre o corpo das mulheres. Livre arbítrio é um dos princípios caros ao espiritismo. Além disso, tenho formação em pesquisa, conseguida a duras penas em três excelentes universidades –Usp, Unicamp e Unb–, portanto fui treinada pelo método cartesiano. Ainda assim, falo com pessoas invisíveis ou que só conheço em sonhos. E, revisitando a Usp, lembro de uma disciplina do doutorado, com um professor genial, carismático e ateu. A certa altura do debate, falei “… pois eu acredito em Deus e em espíritos”. Meus colegas pararam de respirar diante da minha impertinência porque lá na Usp ainda existia certa hierarquia. O professor: “Sério? E você está vendo algum espírito aqui? Tem algum espírito aqui?!”. E eu: “Aqui tem vários espíritos, mas, nesse momento, eu só vejo os encarnados”. Alguns segundos de silêncio, alguns risos nervosos e o professor: “Ainda vamos falar sobre isso”. Resumo da história: contrariando todas as expectativas, eu fui aprovada com nota máxima na cartesiana disciplina e fiquei amiga do dito ateu que hoje já é espírito desencarnado. Não tenho dúvida de que, se ainda não nos encontramos, nos encontraremos porque gostávamos muito um do outro e tudo nos mundos (assim mesmo no plural), material e imaterial, é questão de sintonia. Comecei esse texto pensando em falar sobre mediunidade para pessoas que “não entendem do assunto”, mas acho que, de alguma forma, toda pessoa brasileira entende um pouco disso: de ouvir falar ou vivenciar. É simples: é apenas um sentido mais aguçado, o próprio sexto sentido, não registrado nos manuais sobre o corpo humano. E é exercida de um jeito peculiar, por cada pessoa, como a caligrafia. Já repararam que existem caligrafias parecidas, mas nenhuma é igual? A caligrafia é um modo de identificar as individualidades, como a impressão digital. Mas a mediunidade pode ter conotações religiosas, filosóficas e até comerciais. E pode causar muito sofrimento emocional e até físico. No espiritismo, por exemplo, buscamos seguir os ensinamentos de Jesus (pelo menos tem gente que jura que segue) e somos criticados por outros cristãos que dizem que a comunicação com os espíritos é vedada pela bíblia. Mas esse mesmo pessoal que segue umas coisas e outras nem tanto da bíblia acredita em aparições de santos ou em comunicações do “espírito santo” (algumas vezes em línguas intraduzíveis). Eu não quero criticar ninguém e nem defender “o meu lado”. Sou a favor do estado laico justamente porque ele defende a liberdade de crença. Durante a maior parte da minha vida, meu maior interesse foi me tornar uma pessoa cada vez mais escolarizada. Não à toa, cumpri todos os graus da formação universitária. Eu me aceitava espírita e acreditava na mediunidade… dos outros. Fazia questão de dizer que meu lugar, na doutrina espírita, era o da assistência social. Já havia gente demais para trabalhar na seara mediúnica. Um dia eu não pude mais fugir do assunto e, claro, comecei pela parte que mais gosto: o estudo. Qual não foi minha surpresa quando entendi que não poderia ficar só na teoria e deveria partir para a prática. Não foi fácil para uma pessoa que se preparou durante anos para explicar os fenômenos da vida sob a ótica da metodologia da pesquisa. E depois de aceitar isso, percebi que nada tinha sido tão terra a terra como eu gostaria de continuar acreditando. Havia lidado com fenômenos mediúnicos a vida toda, só não os admitira. Eu gostava mais de me assumir pesquisadora certificada por títulos universitários, mas a vida me impôs a grande escolha, que todo médium tem de fazer: se admitir louco ou se admitir médium. Eu, que não era besta nem nada, prefiro não ser a louca (e nunca chame uma mulher de louca, só lembrando). Mas o que eu gosto de ressaltar é que a mediunidade não é essa coca cola toda, sabe? Não confere superpoderes, nem mais sabedoria e nem mais santidade ou maldade. Não é um privilégio e tampouco um destino inescapável. Sobre privilégio e maldição, explico: nunca se deixe levar por pessoas que dizem que sabem ou veem mais do que os outros. As pessoas que agem assim podem até ser médiuns, mas estão exercitando a faculdade de modo equivocado. Estão tentando impressionar, estão disputando poder. E a mediunidade não deve ser usada para obter poder ou influência. E, sim, tem gente que vai usar e obter. Mas vai acabar tendo de prestar contas sobre isso. E pode prejudicar muita gente. A pessoa que se deixa pressionar ou impressionar por este tipo de médium (ou farsante, em muitos casos) tem alta probabilidade de se dar mal. Ninguém precisa temer médiuns ou mediunidades. Não existe nada sobrenatural em comunicar-se com pessoas ou energias imateriais ou invisíveis. É apenas um sentido a mais, e acredite quem quiser, literalmente. Vale repetir: não é uma maldição. Embora muita gente sofra os efeitos da própria mediunidade em descontrole e apresente sintomas que, algumas vezes, são confundidos com sintomas de doença mental –ou mesmo física–, tudo se resolve quando o indivíduo se dispõe a buscar ajuda. E ninguém é obrigado a exercê-la se não quiser. As pessoas que sofrem por causa dessa faculdade podem ser ajudadas por médiuns que sabem lidar com o fenômeno (em qualquer denominação religiosa) e por profissionais de saúde mental que podem, inclusive, ser totalmente céticos. O que importa, para médiuns e profissionais de saúde, é entender do assunto com o qual estão lidando e serem éticos. O resto, literalmente, Deus proverá. [1] Para saber mais leia O livro dos médiuns – Edição antirracista disponível em https://espiritasaesquerda.com.br/lancamento-nova-edicao-antirracista-de-o-livro-dos-mediuns-esta-disponivel-gratuitamente-em-pdf/ARTIGOS MAIS RECENTES
A guerra como espelho da falência moral da humanidade
Gastão Cassel* – EàE SC
A existência de guerras, em qualquer tempo ou lugar, é uma prova contundente de que a evolução moral e espiritual da humanidade não é uma conquista individual, mas um trabalho coletivo que ainda engatinha. Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, explica que a guerra nasce do predomínio dos instintos mais primitivos sobre a razão esclarecida, sendo, portanto, uma manifestação da inferioridade moral de um povo ou de uma época.
A guerra expõe, de forma brutal, que os vícios da ambição, do orgulho e do egoísmo ainda comandam as estruturas sociais. Por isso, pode-se dizer, sem medo de errar, que a guerra é a expressão mais terrena que existe — um retrato do homem ainda distante da plenitude espiritual que deveria perseguir.
Ao observarmos as guerras contemporâneas — como a que devasta a Ucrânia, o conflito em pleno curso entre Israel e Irã, e, sobretudo, o genocídio perpetrado por Israel na Faixa de Gaza — percebemos que, por trás de discursos nacionalistas ou religiosos, movem-se interesses econômicos que buscam redesenhar a geopolítica do capitalismo pós-industrial. Em plena sociedade da informação, com bigtechs controlando dados, comportamentos e fluxos de capital, vemos bilionários e corporações gigantes agindo como peças-chave de projetos políticos desumanos e devastadores. Enquanto bilhões de pessoas anseiam por paz e dignidade, poucos concentram poder para decidir sobre a vida e a morte de multidões.
Essa realidade revela a falência moral de uma civilização que já domina tecnologias capazes de erradicar a fome, democratizar o conhecimento e promover a fraternidade, mas que ainda se deixa aprisionar por velhos instintos de dominação e destruição. Vemos, inclusive, um retrocesso civilizatório alarmante: especialmente nos últimos anos, assistimos a lideranças como a dos Estados Unidos sob Donald Trump tripudiarem a ONU e desmontarem práticas diplomáticas que durante décadas serviram de pilares para o equilíbrio e a paz entre as nações.
O Espiritismo nos ensina que o progresso intelectual caminha mais rápido que o progresso moral, e aí reside o grande desafio do nosso tempo: equilibrar a evolução técnica com o cultivo da ética, da solidariedade e do amor ao próximo. Nenhuma guerra nasce de corações pacificados. Nenhuma guerra resiste onde floresce a fraternidade.
Enquanto houver drones, mísseis e bombas sendo lançadas, soldados marchando e populações massacradas, precisaremos admitir que ainda estamos longe de sermos uma humanidade regenerada. A verdadeira paz não será fruto de reformas individuais isoladas, mas de ações comunitárias organizadas, políticas e solidárias que se levantem, com coragem e consciência, contra a barbárie. Este é o chamado que a hora presente nos faz: transformar o mundo que herdamos, para legar às gerações futuras uma Terra onde a fraternidade não seja um ideal distante, mas uma realidade viva.
Sobre o autor – Gastão Cassel é jornalista e publicitário, membro do Espíritas à Esquerda de Santa Catarina.
O poder, o amor e a dignidade do imaginário
Elizabeth Hernandes* – EàE-DF
Comprei o livro “O que é religião”, porque vi o nome do magnífico Rubem Alves na capa e também porque não saio de um sebo sem levar pelo menos um livrinho de bolso. Acho até que dá azar passar por prateleiras cheias de histórias e sair de mãos abanando. Digo e provo: eu poderia ter tido o azar de nunca ter lido esse texto maravilhoso. Ou de perder o gostinho de me saber fluente nesse idioma onde se pode escrever “ter tido”.
O livro faz parte da coleção “Primeiros Passos”, que foi bem popular na década de 1980 e que hoje pode ser lida gratuitamente, na internet. Eu li vários, mas este eu não conhecia. Ele é tão… tão Rubem Alves.

Assim, sem pretensão, como quem não quer nada, ele nos apresenta filósofos como Camus, Hume, Feuerbach, Freud e…, valha-me Nossa Senhora(!), Karl Marx. Nunca tive uma aula tão clara sobre mais valia e “ópio do povo”. Já adianto, para quem não leu Marx nem Rubem Alves: não se trata de condenação da religiosidade. Até porque os filósofos não julgam e nem condenam nada e nem ninguém. Quem faz isso são os juízes, nos tribunais, e o pessoal dos comentários, na internet.
Muito interessante estar lendo este livrinho bem na data em que se divulgam dados do Censo 2022 sobre a religiosidade no Brasil. O país está menos católico, menos espiritualista e cada vez mais evangélico. Continuamos sincréticos e, queira Alá, voltemos a praticar a tolerância.
Nesse livrinho já antigo, mas ainda tão atual, fiquei sabendo que Rubem Alves, além de cronista cheio de doçura, foi pastor protestante e teólogo. Mas fiquei sabendo, também, que Alves é profundo conhecedor de Marx, pois só quem conhece bem consegue traduzir de modo simples, conceitos como “alienação” ou “mais valia”. Sobre alienação, explica Alves: trata-se de um processo objetivo, externo, de uma pessoa dar a outra algo que lhe pertence. E fiquemos todos aqui a lembrar das tantas coisas nossas que alienamos aos empregadores, inclusive quando não temos emprego ou quando nos tornamos “empreendedores”.
Ele descreve como todos nós, que vivemos no sistema capitalista, alienamos nossos corpos, desejos, almas e sonhos: “(…) Seu desejo passa a ser o desejo de outro. Ele trabalha para outro. (…) O objeto a ser produzido, não é uma decisão sua. (…) O trabalho não é atividade que dá prazer, mas atividade que dá sofrimento”. E continuando nessa linha ele afirma que também os capitalistas não são livres e todo o seu comportamento é moldado pela obediência à lei do lucro. Conclui um dos trechos iluminando o óbvio, explicando porque os trabalhadores não se revoltam (o suficiente) contra as iniquidades e crueldades do capitalismo: “Porque não há alternativas. Eles só possuem os seus corpos”. E esclarece sobre a “luta de classes”, contradição máxima do capitalismo: “o capitalismo cresce graças a uma condição que torna o conflito entre trabalhadores e patrões inevitável. Marx nunca pregou luta de classes. Achava tal situação detestável”.
E chegamos no delicioso “ópio do povo”: “Compreende-se que o que as pessoas têm, normalmente, em suas cabeças não seja conhecimento, não seja ciência, mas pura ideologia, fumaças, secreções, reflexos de um mundo absurdo. E é aqui que aparece a religião, em parte para iluminar os cantos escuros do conhecimento”.
Mas antes disso ele já havia citado Durkheim: “Não existe religião alguma que não seja falsa. Todas elas respondem, de formas diferentes, a condições dadas da existência humana”. Além de citar esses filosofões difíceis de ler, o doce Alves nos diz: “Não, não estou dizendo que a religião é apenas imaginação, apenas fantasia. Ao contrário, estou sugerindo que ela tem o poder, o amor e a dignidade do imaginário”. E joga na nossa cara: “Para os medievais, não havia fantasia alguma. Seu mundo era sólido, constituído por fatos comprovados por inúmeras evidências e além de quaisquer dúvidas. (…) Como eles, somos incapazes de reconhecer o que de fantasioso existe naquilo que julgamos sólido, terra firme”.
Num dos trechos do precioso livrinho –de 127 páginas, em formato de bolso–, ele fala que tudo foi entregue aos negociantes e políticos: a terra, os mares, os rios, as fábricas, os bancos, os lucros e os corpos das pessoas. Ainda assim eles continuam tendo almas e querendo ter a certeza de que a riqueza foi merecida, por isso buscam os sinais do favor divino e fazem confissões de piedade. Não por acaso, nas notas de dólares está escrito “In God we trust”. Mas… “também os operários e camponeses possuem almas e necessitam ouvir as canções dos céus a fim de suportar as tristezas da terra. E sobreviveu o sagrado também como religião dos oprimidos”.
E no último capítulo, onde lista sugestões para quem quiser se aprofundar no assunto, o irônico cronista começa com a Bíblia (Livro do Eclesiaste, 12, 12): “Aceita, meu filho, um conselho final: o uso dos livros não tem fim e o estudo em demasia é enfadonho”.
Eu sou religiosa e acredito em reencarnação. Minha religiosidade me forneceu “evidências” de que já queimei e também mandei queimar. Mas continuo em combustão e não quero, jamais, ser salva do enfado dos livros. Vade retro, Eclesiaste!
Sobre a autora: Elizabeth Hernandes é espírita à esquerda pelo Coletivo Espíritas à Esquerda, especialista em políticas públicas pela Enap e doutora em epidemiologia pela USP.
Dr. Fritz: do canivete à ivermectina
Eduardo Ferreira* – EàE São Paulo
Sou Psicólogo e em função de um ensaio que teria de elaborar como crédito para meu Mestrado em Saúde Pública fui pesquisar in loco um médium que diz receber o Dr. Fritz. Antes, um brevíssimo histórico: Nos anos 1950, José Pedro de Freitas, morador da cidade de Congonhas do Campo (MG), apelidado de Zé Arigó, começa a praticar cirurgias com canivetes, lâminas de barbear e facas de cozinha, entre outros objetos. Segundo muitos espíritas que presenciaram suas atividades, entre eles Waldo Vieira, Arigó era o mais poderoso médium que conheceram. Ele incorporava Adolf Fritz, médico alemão que atuou na I Grande Guerra e morreu, antes de seu fim, em circunstâncias que divergem de acordo com as fontes. Em vinte anos de atividades, Arigó foi proeminente no espiritualismo brasileiro e teria atendido cerca de 4 milhões de pessoas, entre eles celebridades artísticas e políticas. Posteriormente supostos médiuns disseram também incorporar dr. Fritz. Todos reencarnacionistas de denominações pertencentes ao ultra sincrético espiritualismo brasileiro (espiritismo, teosofia, antroposofia etc.). Entre eles estão:- Edson Queiróz – médico, sua fama fez com que se candidatasse a deputado estadual. Encantado pela figura de Fernando Collor de Mello, escolheu o partido do ex-presidente corrupto para concorrer;
- Rubens Farias Jr. (dizia-se engenheiro, mas se descobriu que havia trancado matrícula no segundo ano) – processado por charlatanismo, exercício ilegal da medicina, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, homicídio doloso, lesões corporais e omissão de socorro; e
- O infame João Teixeira de Faria (garimpeiro, autodenominado de “João de Deus”) – dispensa apresentações por ser, talvez, o mais profícuo estuprador em série da história nacional.
Dr. Fritz, quem diria, acabou no Arujá
Atualmente há outros médiuns que dizem receber o dr. Fritz (com e sem sotaque alemão). Alguns deles, quando indagados afirmam tratar-se do mesmo espírito que estreou com Zé Arigó. É o caso de João Pedro Rangel, da cidade de Arujá, no cinturão verde de São Paulo, que atua no templo exotérico (não espírita stricto sensu) que leva seu nome. Apesar de não ser médico e de não conseguirmos descobrir se chegou a se graduar em algo, Rangel frequentou uma pós-graduação em medicina na Uningá do Paraná, ministrada pelo dr. Lair Ribeiro, de quem se tornou aplicado discípulo (e com quem o médium aparece em foto de rede social). Ribeiro é talvez o mais célebre teórico da conspiração e promoter de pseudociências (como PNL e ozonioterapia, entre outras bobagens) no Brasil. Talvez por suas crenças exóticas, chegou a ser várias vezes cotado para o Ministério da Saúde no governo Bolsonaro. As cirurgias efetuadas por Rangel duram um dia inteiro (quartas e domingos) e muito de curioso é possível dizer sobre elas. Esse ensaio, entretanto, foca no que ocorre antes mesmo da incorporação: a palestra, dirigida a quem vai em busca de auxílio, a maioria homens e mulheres de mais de 50 anos. Nela, o articulado médium de 27 anos faz uma explanação ao público sobre a responsabilidade que cada um tem pela manutenção do invólucro corporal que Deus nos deu. Até aí está tudo bem. O problema principia quando enumera dezenas de dicas que “eles (médicos tradicionais e a big pharma) não querem que você saiba”. Além de Lair Ribeiro, o médium cita de modo embaralhado Emmanuel, Nostradamus, Chico Xavier e Bezerra de Menezes, dentre outros. Diz coisas como “li centenas de artigos científicos, todos os dias eu leio algum, quem me conhece sabe que estou sempre lendo”, e no mesmo discurso emenda: “como o dr. Fritz sempre nos lembra…”. De modo que não sabemos ao certo o que teria vindo do além, o que é opinião pessoal do médium ou coisa da cabeça do seu mentor encarnado Lair Ribeiro. Esse é o problema recorrente nas hostes espiritualistas nesses sombrios tempos de retrocesso político e social em que vivemos: expoentes da causa espiritual, investidos de popularidade conferida pelo renome conquistado, proferem discursos reacionários, alheios a qualquer doutrina espiritual, sem distinguir o que provém de mentores espirituais e o que é produto de preconceitos e ignorância pessoais. Suas ou de suas admirações desse plano mesmo.Desinformação e contrainformação
Vejamos o que diz Rangel em suas palestras sobre coisas já desmistificadas pela ciência:- “Andar descalço de preferência na terra substitui muitos remédios e fortalece o organismo. É o mesmo princípio da manta de aterramento, que gera inúmeros benefícios contra os prejuízos gerados pelas torres de transmissão de energia, como melhora do sono, redução do estresse, melhora da circulação, redução de inflamação e alívio de dores de cabeça e dos músculos” (há quem creia nisso, mas é uma questão de fé. A premissa dessa “lógica”, uma energia protetora vinda da terra, não possui nenhuma comprovação científica. Por isso, é sabotador da saúde pública dizer que pode substituir remédios);
- “O ozônio é um dos melhores anti-infecciosos, anti-inflamatórios e analgésicos que podemos usar” (como dissemos, ele é um aluno aplicado de Lair Ribeiro. Se não o fosse saberia que uma “terapia” que se propõe a ser panaceia que cura de gripe a câncer só pode ser embuste. O ozônio também não tem comprovação científica, mas comprovadamente já causou lesões na pele, problemas respiratórios, nos olhos e reações alérgicas por seu uso indiscriminado); e
- “Não há medicamento que não possa ser substituído por itens encontrados na natureza ou por suplementos alimentares. Por que não divulgam isso? Porque não precisa de receita e nenhum laboratório farmacêutico possui a exclusividade de suas fórmulas” (na maioria das vezes inócuos, os suplementos podem também fazer muito mal. De acordo com a Anvisa, muitos deles contêm ingredientes inseguros ou substâncias que não podem ser consumidas sem acompanhamento médico. Seus efeitos colaterais: levam à toxicidade (particularmente no fígado), disfunções metabólicas, danos cardiovasculares, alterações do sistema nervoso e, em certos casos, à morte. Já, alegar que medicamento pode ser substituído por elementos naturais não procede. Há muitas críticas pertinentes às big pharmas e sua sede insaciável por lucros, porém, o fato é que a ciência farmacêutica busca na natureza agentes curativos, os refina e potencializa de uma maneira impossível de se encontrar in natura).
- “Você quer desenvolver câncer e Alzheimer? Quer filho com autismo? Se vacine. Eu não me vacinei e não desenvolvo nenhuma patologia. Basta uma alimentação saudável e produtos naturais para males específicos” (ele se refere a toda e qualquer vacina. É mentira, já inúmeras vezes desmentida por fontes fidedignas, além de um perigosíssimo contrassenso); e
- “Eu não contraí covid porque tomei ivermectina. Está provado cientificamente que covid pode ser curada com ivermectina” (além de não atuar contra nada que não sejam parasitas e vermes, o desvio de seu uso pode levar à morte ou, na melhor das hipóteses, a surtos de piolhos e sarnas, como o ocorrido recentemente em quatro municípios de Santa Catarina. A razão é simples e curiosa: o uso indiscriminado de ivermectina para outras patologias acaba por fortalecer a resistência de parasitas a esse produto).
A falácia do “respeitem minha opinião”
Apesar de ninguém de sua plateia questioná-lo, o médium antecipa sua resposta aos que dele podem discordar com uma espécie de mantra já surrado nesses tempos de despudor negacionista, uma falácia lógica em que classifica qualquer possível contestação como desrespeito ao direito à opinião: “Se não concordar comigo tudo bem, temos direito de discordar, de pensar diferente. Eu respeito quem pensa diferente e creio que devam respeitar a minha opinião também”. O médium está errado. Ninguém pode proferir opiniões que, ao mesmo tempo que não se sustentam, colocam em risco a vida. É como induzir ao suicídio. Um crime. Trata-se do mesmo uso, como recurso retórico, da falácia da liberdade de expressão que os golpistas depredadores e defecadores da Praça dos Três Poderes em janeiro de 2023 usaram: “nós temos direito de duvidar do voto eletrônico e pedir intervenção militar”. Não. É crime instigar gente armada ou desarmada contra o estado democrático de direito, assim como é criminoso falar para crédulos sugestionáveis e em idade vulnerável que a vacina faz mal, entre outras sandices. No momento em que escrevo, há vários médiuns fazendo cirurgias, usando ou não o nome de Fritz. Alguns dos quais também falam barbaridades e, se questionados, esquecerão sua intromissão indevida no terreno da ciência e se escudarão no preceito da liberdade religiosa. Os gestores públicos em saúde devem começar a se voltar para esta questão de modo mais atento, e não esperar até que um desses sujeitos se torne um estuprador, como o nefando João de Deus. O crime começa bem antes. Começa quando, por exemplo, sugere-se usar ivermectina para fins diversos daquele para o qual foi criada, e, assim, torná-la mais perniciosa à saúde que um corte com canivete enferrujado. Se fosse excluída a palestra pseudocientífica e dito expressamente (e não foi) a cada um dos atendidos que não devem abandonar o seu médico e a medicina tradicional, já seria um avanço. Afinal, a religião, exerceria a função que o psicólogo B. F. Skinner (1904-1990) chamava de reforçador social; nesse caso, na ajuda ao tratamento de saúde. Ainda assim, uma cirurgia espiritual deve ser vista com o máximo de cautela e cuidados, já que um “procedimento médico espiritual”, sem um processo comunicacional expresso e claro, pode fazer um paciente sugestionável se autoiludir diante de uma melhora fortuita em seu quadro e concluir que está curado, abandonando o tratamento convencional, que, embora possa ser mais invasivo ou doloroso, é de fato comprovadamente eficaz. Medicina é medicina, fé é fé. A complementação da primeira pela segunda só faz bem. No entanto, o estabelecimento e a manutenção dos limites entre ambos é uma conquista civilizatória. Por outro lado, a democracia não é o regime em que cada um faz ou fala o que quer. Trata-se de uma forma de governar em que deve imperar a corresponsabilidade tanto entre poderes quanto entre instituições e cidadãos. A liberdade religiosa é um feito que a humanidade custou a alcançar e luta para manter. Jamais poderia ser utilizada como esconderijo de curandeiros ou sabotadores da ciência. *Sobre o autor: Eduardo Ferreira é psicólogo, psicanalista, sociólogo, mestre em Políticas Públicas da Saúde pela FGV-SP e em Sociolinguística pela PUC-SP.Notas:
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- Todas as declarações que atribuo a Rangel são literais e ele as repete para quem quiser ouvir no mínimo duas vezes por mês. Mais que isso: ele se orgulha de “revelá-las”;
- Todos os comentários sobre os demais médiuns e sobre Lair Ribeiro são de conhecimento público e podem ser conferidos em órgãos de imprensa, na internet, na Assembleia Legislativa de Pernambuco e no Judiciário de São Paulo e Rio de Janeiro.
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