Carta de apoio ao padre Kelder, à paróquia Santa Tereza de Calcutá e às comunidades do território do bem

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Caro Padre Kelder Brandão,

Abençoados são vocês, cujo compromisso com Deus atrai perseguição. A perseguição os fará avançar cada vez mais no Reino de Deus.”

E isso não é tudo. Considerem-se abençoados sempre que forem agredidos, expulsos ou caluniados para me desacreditar. Isso significa que a verdade está perto de vocês o suficiente para os consolar – consolo que os outros não têm. Alegrem-se quando isso acontecer. Comemorem, porque, ainda que eles não gostem disso, eu gosto! E os céus aplaudem, pois sabem que vocês estão em boa companhia. Meus profetas e minhas testemunhas sempre enfrentaram essa mesma dificuldade”.

Mateus 5, 10-11

Nós, do Espíritas à Esquerda, através dessa carta, manifestamos apoio a você, caro irmão, e a toda a paróquia e repudiamos a tentativa descabida de intimidação por parte da Polícia Militar.

É inadmissível que o Estado use as forças policiais para tentar silenciar, de forma tão truculenta, a voz que se levanta para defender o povo mais sofrido e com menos acesso às políticas públicas.

Jesus alertou-nos a olhar pelos pobres, excluídos e marginalizados. Assim, todos que seguem Jesus devem guiar-se por seus ensinamentos, mesmo sabendo que tal atitude carrega o risco da incompreensão, da desconfiança e da perseguição.

É revoltante constatar a dura e escandalosa opressão de quem acolhe os que mais sofrem e fica ao lado dos mais pobres.

Essa carta de repúdio e apoio é também um pedido aos poderes constituídos para que tomem as medidas cabíveis a fim de resguardar e proteger o padre Kelder e sua paróquia, além de punir exemplarmente os autores desse ato injusto e desproporcional.

O Brasil é um dos países mais violentos para quem defende os direitos humanos. É chegada a hora de o amor vencer!

Por isso, nós, do coletivo Espíritas à Esquerda, juntamo-nos em prece e voz, com a coragem e a fé que nos move em direção ao outro, a essa vigília de esperança para que fatos assim não aconteçam mais.

Somos todos padre Kelder!

Vitória, 29 de julho de 2023.

A cultura do estupro e a minissaia cármica

Elizabeth Hernandes (EàE-DF)

Infelizmente, no Brasil, todo dia há “inspiração e intuição” para se falar de crimes sexuais contra mulheres, desde 1500. Além de pentacampeão em mundiais de futebol masculino, o País é, no mínimo, hexacampeão na modalidade “casos de jogadores condenados por estupro”. De acordo com notícias amplamente divulgadas na imprensa, os atletas Robinho, Daniel Alves, Cuca, Eduardo Hamester, Fernando Castoldi e Henrique Etges carregam a desonrosa taça.

Tendo em vista essa amostra, composta por atletas que cometeram a “bobagem” de estuprar mulheres em países que não têm esse hábito incorporado à cultura local, é inevitável questionar quantos mais haverá, sem condenação, principalmente se o ato tiver sido cometido em plagas verde-amarelas. Cabe lembrar, neste momento, de um caso rumoroso contra um outro jogador rico e famoso, que não foi condenado. Mas a mulher que o acusou, esta sim, foi condenada em todas as instâncias da internet.

Outra peculiaridade brasileira é o espiritismo exercido como religião. A doutrina sistematizada na França por Allan Kardec, aqui adotou dogmas e tabus próprios de prática religiosa instituída e, para falar sobre a cultura do estupro no contexto do espiritismo, é necessário refletir sobre a definição do que seja a tal abjeta cultura e também sobre o significado dos termos “dogma” e “tabu”.

Em artigo acadêmico publicado na Revista Direito GV, edição dez/20171, os autores listam algumas características associadas à expressão “cultura do estupro”, desenvolvida, em 1970, por pesquisadoras estadunidenses, para designar o tratamento social e jurídico que culpabilizava as mulheres pela violência sofrida. Também estão associados à expressão a prática de guerra que estimula a violação para “elevar o moral da tropa” e o ensino, às mulheres, de comportamentos que, supostamente, as ajudarão a proteger-se, como vestir-se de modo discreto ou evitar andarem sozinhas, assumindo que o comportamento feminino tenha alguma relação com a conduta sexual masculina.

O termo “dogma”, etimologicamente vem do grego e designa “aquilo que se pensa que é verdade”, mas, no contexto religioso, é dado como “verdade”, portanto, algo incontestável. Já o “tabu”, de origem polinésia, significa a proibição de determinado ato, com base na crença de que este invadiria o que está no campo do sagrado, implicando em perigo ou maldição para os indivíduos comuns2.

E aqui chegamos no movimento espírita hegemônico no Brasil, que estabelece dogmas e tabus relacionados ao corpo das mulheres e às violências lhes impostas, adotando a prática do silenciamento, quando o assunto é estupro.

O artigo “Cuca, a cultura do estupro e os movimentos espíritas”, de autoria de Gabriel Lopes Garcia3, defende a necessidade de discutir a questão no meio espírita brasileiro, que também reflete a cultura e os aspectos sociais do país. O autor ressalta que “é preciso superar os tabus e discutir francamente estas questões nas instituições espíritas, de modo a enfrentar o problema, (re)educando as pessoas, prevenindo crimes e orientando as vítimas na busca de justiça e proteção.” Destaca o que chama de “versão espírita da cultura do estupro”, por meio da idealização da mulher, a quem se atribui “características de elevação espiritual” como “feminilidade, docilidade e capacidade de suportar heroicamente as agressões masculinas, pois a renúncia é sua virtude mais valorizada”.

Garcia destaca um aspecto torpe desta cultura, criado na mitologia espírita: a relativização do crime por meio da difusão da ideia –jamais comprovada e jamais escrita em nenhuma obra fundadora do espiritismo– da existência de “uma suposta afinidade fluídica entre a vítima e o estuprador”. De acordo com essa falácia, o criminoso não escolheria a vítima ao acaso e sim teria com esta “uma suposta ligação espiritual, de passada reencarnação”. Trata-se de uma forma sofisticada de culpar a vítima e fazer uma inversão perversa da lei moral de causa e efeito, ou seja, os divulgadores de tais ideias criaram um tipo de “minissaia cármica” para justificar o silenciamento de uma forma hedionda de violência contra as mulheres.

Um dos aspectos feministas da doutrina espírita é encontrado nas perguntas 200 e 201 de O livro dos espíritos, que abordam o princípio de que os espíritos não têm sexo, podendo reencarnar, na Terra, como homens ou mulheres e que tal ocorre com vistas ao aprendizado e ao progresso.

Passa da hora de romper o silenciamento das mulheres nas casas espíritas, onde, por dever de fraternidade, se deve abordar a erradicação da cultura do estupro, para progredirmos de forma mais rápida na construção de uma sociedade fraterna e moralmente elevada.

Vale comemorar o fato de um estuprador não ter permanecido mais que seis dias no comando de um grande time de futebol, num país onde esta modalidade esportiva é componente perene da cultura. Mas é preciso lembrar que a vítima desse estuprador está há 36 anos convivendo com as marcas dessa violência. E esse aspecto do “lembrar” não está associado a um sentimento de vingança e sim ao conceito de valores culturais, tal como citado no artigo de Campos et al (2017), já mencionado, segundo o qual “Valores culturais são dinâmicos, uns de longa duração, outros de curta duração e as relações dos sujeitos com o vasto repertório simbólico dependem de suas posições nas relações de poder”.

Para erradicar a cultura do estupro se faz necessário interferir nas relações de poder entre homens e mulheres aqui na terra mesmo, onde cada um de nós reencarnará numa condição masculina ou feminina. É aqui, na convivência coletiva, que temos de nos construir e nos reconstruir como espíritos imortais.

A doutrina espírita, que se baseia em conceitos de progresso e de amor, não pode mais imputar o uso de uma espécie de “minissaia cármica” às mulheres, para justificar a violência sexual.

1 Campos CH, Machado LZ, Nunes, JK, Silva, AR. “Cultura do Estupro ou cultura antiestupro”. Revista Direito GV, v. 13, n.3, set-dez 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rdgv/a/FCxmMqMmws3rnnLTJFP9xzR/?lang=pt

2 Ver Wikipedia mesmo.

Edições antirracitas das obras de Kardec – o que pensar?

Por Dora Incontri

Nesta semana, dia 18 de abril, foi publicada a segunda obra de Kardec, O Livro dos Espíritos numa edição antirracista, depois de no ano passado, ter sido lançado O Evangelho segundo o espiritismo, com esse mesmo subtítulo. Apresso-me a escrever esse artigo, para me contrapor às críticas raivosas (e até caluniosas) que estão sendo feitas a estas publicações, mesmo por espíritas que se afirmam progressistas.

Como todos sabem, sou da linhagem kardecista-herculanista e, portanto, jamais apoiaria qualquer coisa que viesse a ferir os princípios fundamentais do espiritismo – entretanto, são trechos mesmos das obras de Kardec que ferem esses princípios. E, como ele mesmo recomendou, é preciso usar o bisturi da crítica para limpar o espiritismo de ideias que pertenciam ao contexto histórico, europeu (leia-se eurocentrista), colonialista e racista que fazia parte da estrutura da sociedade em que ele viveu, atuou e foi influenciado por essas correntes.

Qualquer leitor contemporâneo, minimamente progressista e conectado com os problemas de racismo estrutural que observamos na sociedade brasileira e mundial, sente sucessivos incômodos na leitura das chamadas obras básicas de Kardec. O tempo inteiro há uma hierarquização de “raças”–termo que caiu em desuso, porque hoje consideramos que só existe uma raça, a humana. “Raças selvagens, primitivas”, entre elas estão negros, nativos de outras regiões do planeta, ou seja, aqueles que não pertencem ao “topo da civilização”, branca, europeia. Assim pensavam todos os europeus do século XIX. Assim pensava Kardec, assim pensavam os médiuns que com ele trabalhavam, assim pensavam muitos espíritos, que embora com algum conhecimento espiritual, ainda estavam impregnados dos preconceitos terrenos (coisa que também o próprio Kardec recomenda analisar).

Como a nossa história está manchada pela escravização e genocídio dos povos de origem africana e dos povos originários das Américas, e como o extermínio e a discriminação ainda estão dolorosamente vivos em nosso país do século XXI, essas teses de hierarquia racial, que eram consideradas científicas no século XIX, nos constrangem tremendamente e, claro, desrespeitam e ferem os negros, indígenas e todas as pessoas sensíveis a essa temática.

Em 2008, o Ministério Público da Bahia já chamou atenção para trechos das obras de Kardec que sugeriam discriminação e racismo e 9 editoras espíritas, entre elas a FEB, assinaram um compromisso de publicarem notas de contextualização dessas passagens. Alguém já viu essas notas? Mesmo existindo, estão escondidas, envergonhadas. Aliás, ninguém lê nota de rodapé.

Mas o tema exige debate, reparação histórica, atenção de todos e todas, para que o racismo não continue se perpetuando na sociedade brasileira, incluindo-se os centros espíritas, majoritariamente dirigidos por uma elite branca (e recentemente em grande parte de extrema-direita, com quase nenhuma sensibilidade social).

Então, sim, é preciso que se faça uma edição estampada na capa, como antirracista, é preciso que os comentários às passagens problemáticas saiam de um lugar imperceptível para um foco mais nítido. As duas edições feitas pelo Coletivo Espíritas à Esquerda têm exatamente essa intenção, e fazem isso sem nenhuma adulteração do texto original.

Cito o impecável prefácio, que está na presente publicação do Livro dos Espíritos:

 “…o objetivo primacial do projeto da Coleção Antirracista de Kardec é a reparação do sofrimento que negras e negros vivem diariamente nas instituições espíritas, quando, em seus grupos de estudos, palestras e eventos, deparam-se com as passagens racistas da literatura espírita que os diminui, humilha e violenta. E, como consequência dessa forma historicamente racista de entender as diferenças étnicas e culturais, negras e negros costumam, na maioria das instituições espíritas, participar apenas como subalternos, coadjuvantes, apoio às atividades operacionais e principalmente como beneficiários de obras assistencialistas, sendo raro vê-los ocupando cargos de direção nessas instituições. E esse projeto, portanto, é também, além de uma proposta de reparação, uma forma de estimular e instrumentalizar todas as pessoas para o debate antirracista dentro do movimento espírita, considerando as consequências do racismo institucional nele presentes.”

E mais adiante, sem jogar o bebê junto com a água suja, o prefácio ainda afirma que os erros históricos que devemos corrigir e criticar não invalidam o espiritismo como um todo, mesmo porque o que deve prevalecer é a proposição ética da fraternidade humana.

“Se já se admite no movimento espírita os erros de cosmologia e biologia de suas obras, conforme prescrição do próprio Kardec sobre a evolução do conhecimento espírita, é nossa obrigação reconhecer os fragmentos racistas em seus textos. Tais erros históricos não desmerecem toda a doutrina espírita, pois os princípios do espiritismo expostos em seus textos, quando bem compreendidos e praticados, destruirão “os estúpidos preconceitos de cor” (o que está entre aspas é citação de Kardec).”

Diante disso, não consigo entender por que a oposição agressiva de alguns espíritas, comparando indevidamente essa edição antirracista à adulteração feita no Evangelho segundo o Espiritismo por alguns membros da Federação Espírita do Estado de São Paulo, na década de 70, do século passado, e que foi, com toda justiça, combatida por Herculano Pires. Aquela era de fato uma mudança nos textos de Kardec – aliás, por sugestão de Chico Xavier, que foi chamado por Herculano a vir a público pedir desculpas e se desdizer. E era uma mudança absolutamente tosca. Por exemplo, ao invés de se usar a expressão “espíritos maus”, mudava-se para “espíritos menos bons”. Não se tratava de um debate social e político urgente como o racismo. (Toda essa história está no livro Na Hora do Testemunho, de Herculano Pires.)

O mais grave de todo esse episódio atual é que a gritaria em torno da edição antirracista foi tão grande, que muita gente veio me dizer que as obras de Kardec estão sendo modificadas. Ficou essa mentira no ar. Por isso também resolvi escrever esse texto.

E parabenizo o Coletivo Espíritas à Esquerda, com quem a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita tem feito várias parcerias, pela coragem, pelo bom senso e por atender uma das muitas urgências que temos, para uma releitura crítica e serena das obras de Kardec.

ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO SITE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PEDAGOGIA ESPÍRITA.

Por que a coleção antirracista das obras de Allan Kardec?

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Em novembro de 2020 a coordenação do coletivo Espíritas à Esquerda (EàE) acompanhou estarrecida a repercussão do caso de racismo dentro de um supermercado em Porto Alegre, no qual o desfecho foi a morte de um homem negro. Como Kardec afirma em “O livro dos médiuns” que (…) os jornais formigam de fatos, de narrativas, de acontecimentos, de rasgos de virtudes ou de vícios, que levantam graves problemas morais, cuja solução só o Espiritismo pode apresentar (…)”1, a coordenação do EàE iniciou as discussões sobre o problema do racismo e como a doutrina espírita pode nos instrumentalizar na luta antirracista. Porém, nos deparamos com o primeiro desafio: “conteúdo de determinados trechos das obras literárias de ALLAN KARDEC, vistos como supostamente discriminatórios e preconceituosos em relação a pessoas negras e de outras etnias”, os quais foram listados pelo Ministério Público Federal da Bahia (MPF-BA) em 2007. Por isso, entendemos que o primeiro passo da luta antirracista deveria ser estudar e debater esses textos dentro do próprio movimento espírita. Foi assim que surgiu o Evangelho segundo o espiritismo – edição antirracista lançado pelo EàE no dia 20 de novembro de 2022, dia da Consciência Negra.  Antonio Isuperio, ativista do movimento negro e membro do EàE à época, foi o grande incentivador para o estudo e o debate do racismo científico reproduzido por Allan Kardec nos textos da doutrina espírita apontados pelo TAC do MPF-BA.  A coordenação do EàE continuou com o estudo daqueles trechos e se prepara para o lançamento da segunda obra da Coleção Antirracista: O livro dos espíritos – edição antirracista, em 18 de abril de 2023, dia escolhido pela sua relevância para o movimento espírita, pois é a data celebrada como a fundação do espiritismo, quando Allan Kardec lançou a primeira edição de O livro dos espíritos, em 1857, com apenas 501 questões, que posterirmente ele revisou e ampliou para as atuais 1019 questões.  A Coleção Antirracista seguirá adiante, limitando-se, nessa primeira fase, aos 106 trechos que foram apontados pelo Termo de Ajuste de Conduta – TAC, mesmo que haja outros textos identificados como problemáticos. O objetivo das propostas de redações antirracistas permanece o mesmo: propor o diálogo com o movimento espírita sobre o racismo  científico do séc. XIX e o racismo estrutural e estruturante da sociedade que mata e deixa morrer milhares de pessoas negras no Brasil e no mundo. Porém, até agora, passados quase cinco meses, poucas pessoas e grupos espíritas responderam ao nosso convite ao diálogo de propostas para um espiritismo laico e livre pensador. Continuamos com esperança de chegarmos logo à fase de aceitação do necessário debate sobre o racismo e, mais importante do que isso, o combate ao racismo e demais propostas para a luta antirracista dentro do movimento espírita. “É necessário que o escândalo venha2 como disse Jesus e anotou Kardec comentando que “quando estiverem cansados de sofrer devido ao mal, procurarão remédio no bem”.   1-  KARDEC, Allan. O livro dos médiuns, ou, guia dos médiuns e dos evocadores: Espiritismo experimental. Segunda parte – Cap. XXIX – Assuntos de estudo. p. 368.   2- KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. VIII – Bem-aventurados os que têm puro o coração. pág. 129.

Clarice genial, imperdível, lírica e machista

Por Elizabeth Hernandes

“Mas que isso não nos pareça humilhante, como se exigissem que em primeiro lugar tivéssemos interesses mais universais.” (Clarice Lispector in “Amor Imorredouro” na coletânea “Todas as Crônicas”, editora Rocco.

No lançamento do livro da minha amiga Ana Beatriz Cabral, que ocorreu na livraria de propriedade de outras amigas, encontrei a coletânea “Clarice Lispector – Todas as Crônicas”, prefaciada por outra mulher que admiro, Marina Colasanti. E é claro que me esqueci que preciso economizar e não devo gastar num livro de capa dura e que tenho vários outros na fila do “ler ainda nesta encarnação”. Esqueci de tudo, como qualquer adicto o faz, diante do prazer irresistível. Tenho a sorte de ter mais vícios bons do que maus (pelo menos é o que acredito) e, em sendo assim, é óbvio que eu não vou entrar numa livraria de rua, com a curadoria zelosa de Camile e Ariana e sair apenas com o livro da Ana Beatriz. Este Clarice faz parte daquelas coisas e experiências que me deixam pensando que, se não as possuir, nunca mais serei feliz. Durmam com esta, minimalistas! E como tenho sido feliz com esta Clarice, que me perdoe a Ana Beatriz, motivo da ida à livraria, e que também escreve primorosamente. Mas é a Clarice, né Bia? E eu que não sou Clarice nem Ana, me divirto escrevendo sobre quem escreve pois cada um faz o que gosta com aquilo que pode. Este livro de Clarice tá pra mim como a piada preconceituosa sobre o nordestino e a farinha de mandioca. Aliás, quem não reverenciar a mandioca, bom sujeito não é. Comigo seria mais ou menos assim. “Beth, tu gosta de sexo?” “Ôxe, demais!” “E de crônicas?” “Ai, Jesus…” “ E de Clarice?” “Não para, não para!”. “E de crônicas escritas por Clarice?”. Sem resposta, só um suspiro e um gemido baixo. Adoro crônicas, de escritores geniais e reconhecidos e também de escritores geniais e não reconhecidos. E quando encontro reconhecidos como Machado ou Clarice, labutando nesse falso gênero ligeiro que, na verdade, demanda lenta construção e perene talento, me deleito. Nessa degustação do texto, a primeira coisa que faço é buscar apreender o espírito do tempo, dado que a crônica é um tipo de reportagem poética. E assim me transporto para o mundo de uma mulher intelectual, de classe média, na década de 1960, Ou para o de um escritor negro do século XIX, que as pessoas ( e talvez também o próprio) preferiam fingir que era branco. E depois me divirto (e mais ainda me entristeço), vendo a atualidade de textos escritos há meio século ou século e meio. E me admiro da coragem de quem se revela tanto porque, crônica, meu amigo, é como disse a própria Lispector: “E sinto-me um pouco como se estivesse vendendo minha alma. Falei nisso com um amigo que me respondeu: mas escrever é um pouco vender a alma. É verdade. Mesmo quando não é por dinheiro, a gente se expõe muito.” Esse ”Todas as Crônicas” é daqueles livros onde a gente quer sublinhar quase todos os parágrafos ou copiar e postar nas redes sociais. Quando se escrevem romances e contos, ainda há a desculpa de serem, oficialmente, classificados como ficção. Crônica, não. Até quando é inventada, exagerada, distorcida, é rigorosamente o retrato de um dia, uma cena, um acontecimento, na vida do escritor. Eu, mesma, se cronista for, vos falo desde um domingo, aquele dia em que mulheres que têm boletos a vencer na segunda, encontram um espaço para escrever. E falo dos outros por estar num daqueles dias em que prefiro não contar nada de mim nem pra mim mesma mas, se comecei a escrever, vou acabar contando. E assim, ao invés de ver minha tarde de domingo, vejo as tardes da branca Clarice expondo seus privilégios de classe e deixando claro que nem gosta muito do “politicamente correto” de sua época: “E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à humanidade.” Clarice, amada, se você soubesse que hoje, nossos vizinhos aqui da Rua dos Remediados, onde eu e você moramos, referem-se a essas trabalhadoras como “secretárias do lar”… Como você não está aqui, mana, deixa que eu bato neles. E bato mesmo, viu? Clarice expõe lindamente o seu machismo quando fala de Leopoldo Nachbin, seu amigo de infância: “Leopoldo – além de meu pai – foi o meu primeiro protetor masculino, e tão bem o fez que me deixou para o resto da vida aceitando e querendo a proteção masculina (…)” E tem mais, uma parte que combina muito com esse meu domingo de hoje. Clarice expõe, crua e liricamente, as dores da mulher CIS heterossexual: “O homem. Como o homem é simpático. Ainda bem. O homem é nossa fonte de inspiração? É. O homem é nosso rival estimulante? É. O homem é nosso igual ao mesmo tempo inteiramente diferente? É. O homem é bonito? É. O homem é engraçado? É. O homem é um menino? É. O homem também é um pai? É. Nós brigamos com o homem? Brigamos. Nós não podemos passar sem o homem com quem brigamos? Não. Nós somos interessantes porque o homem gosta de mulher interessante? Somos. O homem é a pessoa com quem temos o diálogo mais importante? É. O homem é um chato? Também. Nós gostamos de ser chateadas pelo homem? Gostamos.” Clarice, sua machista, eu te amo e nunca vou te deixar. As mulheres são as que ficam.

A espiritualidade ancestral é a história de nossas lutas

Gastão Cassel – EàE/SC

São frequentes os relatos de sessões mediúnicas, seja no kardecismo, na umbanda, no candomblé ou outras denominações, que têm presença importante de antigos escravizados (geralmente chamados de pretos velhos) e indígenas de diversos povos. E faz todo sentido que assim seja, pois cronologicamente foram os que nos antecederam, são o passado recente da história de nossas cidades, estados e país. Por incrível que pareça, tais espíritos muitas vezes são recebidos com preconceitos e estigmatizados como primitivos, culturalmente inferiores e até “selvagens”. O preconceito é decorrente da visão colonialista e elitista que pressupõem como “elevada” a cultura proveniente da Europa. Se nos despirmos do olhar colonialista, veremos que todos esses povos originários tinham rituais e práticas espirituais elevadas, relações estreitas com suas divindades e conjuntos de experiências culturais e éticas impressionantes. Mas o olhar colonial prefere ver a diferença como estranheza e primitivismo. Espaços como o Museu de Arte Pré-Colombiana, em Santiago, no Chile, são fartos em demonstrar que os povos nativos do continente tinham enorme produção cultural e práticas místicas e religiosas profundas e complexas, bem como sociedades com níveis de organização elevados. Povos que construíram, por exemplo, Machu Picchu, não podem ser considerados primitivos, a não ser pelo preconceito que vê virtude nos invasores que devastaram gentes e culturas em toda a América. Muitos desses povos desencarnados hoje dão sustentação espiritual a casas espíritas, são suportes indispensáveis à egrégora que conduz o trabalho de amparo à saúde. São espíritos comprometidos com o próximo, com o auxílio e a compaixão. São os povos originários que já foram maioria nessas terras e que trazem do plano espiritual muitos ensinamentos que revelam o quão evoluídos eram espiritualmente, não obstante seu sofrimento aqui na Terra, promovido pelos colonizadores que empunhavam armas e cruzes. Da mesma forma os escravizados representaram um enorme percentual da população que nos antecedeu. Essa população negra trouxe legados espirituais importantíssimos das culturas africanas, inclusive muçulmanas. Jamais renunciaram a suas práticas espirituais e culturais, mesmo que forçados a um sincretismo que, como disse a canção, é “tanto resistência como rendição”. O relacionamento com estes povos desencarnados exige de nós a compreensão da experiência terrena que tais povos tiveram. Na maior parte dos casos são histórias trágicas e violentas. A crueldade física e cultural a que foram submetidos os povos de origem africana escravizados no Brasil não pode ser relevada. Tão pouco os incontáveis massacres e dizimações de nações indígenas em toda a extensão do continente americano podem ser esquecidos. Os espíritos que hoje nos amparam viveram a crueldade na carne, e o mínimo que podemos e devemos fazer para respeitá-los e honrá-los é reconhecer a sua trajetória de dor e opressão. É verdade que espíritos não têm cor ou etnia, mas são constituídos e informados pelas suas experiências terrenas, pelo que aqui viveram, de forma que a lástima aqui sofrida os constitui de forma absoluta. Os chamados Pretos Velhos carregam ancestralidades africanas e práticas religiosas que precisavam ser escondidas no fundo das senzalas, ou manifestar-se abertamente nos quilombos libertários. Os indígenas foram – e ainda são – impiedosamente perseguidos e exterminados, algumas culturas completamente dizimadas. Tudo em nome da imposição de religiões e culturas tidas como “superiores” que se apresentavam em nome de Deus. Mais sagrado do que qualquer divindade é o direito que todas as pessoas têm de cultuar a sua. As práticas místicas dos povos originários são plenamente legítimas como todas as outras crenças não cristãs, como o budismo, o judaísmo, o islamismo, hinduísmo e tantas outras. O relacionamento com esta espiritualidade ancestral precisa partir do respeito aos que viveram aqui na Terra e agradecimento aos ensinamentos que podem nos oferecer em todas as dimensões. A celebração dessa espiritualidade ancestral precisa começar pelo reconhecimento de sua manifestação por meio dos povos originários remanescentes, pelo respeito à sua cultura, incluindo religiosidade e territórios. A espiritualidade indígena, além de resgatar traços históricos e culturais de sua sociedade, também nos remete à sua prática ritual que, através da rememoração dos mitos, fortalece a espiritualidade ancestral. Além do que, sua natureza telúrica aponta para um relacionamento profundo com a natureza e a preservação do Planeta. A prática do bem não é monopólio de nenhuma denominação religiosa, de nenhuma etnia, de nenhuma cultura, de nenhuma “civilização”. A prática da fraternidade, da solidariedade, da amorosidade, da compaixão são e devem ser universais. “Amai-vos uns aos outros” não faz nenhuma distinção. Há inúmeras palavras que significam Deus, com as mais diversas feições. “Sons diferentes para sonhos iguais”, disse um poeta. Homenagear a espiritualidade ancestral é defender aqui no presente os direitos dos povos originários que continuam sob ameaças colonizadoras incrementadas por interesses econômicos. É combater a herança maldita da escravidão, que se tornou o racismo estrutural de nossos dias. Os escravizados da América, os originários Yanomamis, Charruas, Quechuas, Incas, Mapuches, Guaranys, Teguelches, Tamoios, Tupis, Xoclengs e todos os povos originários da América estão em nós, entre nós e conosco. Saibamos honrá-los, respeitá-los e preservá-los.

Núcleos Espíritas Populares – Uma proposta de renovação

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Em 2023, o EàE deve colocar como uma de suas prioridades de ação-reflexão a implantação de Núcleos Espíritas Populares (NEPs), que é uma proposta de renovação e transformação radicais para atuação do movimento espírita.

Como base introdutória para uma reflexão conjunta dos espíritas progressistas, o EàE participou do V Encontro Nacional da CEPABrasil, ocorrido em Santos, SP, entre os dias 4 e 6 de novembro de 2022, com o texto “Núcleos Espíritas Populares: uma proposta de renovação”, no qual esboça algumas premissas e propõe alguns caminhos para essa transformação do movimento espírita.

Esse texto completo foi apresentado virtualmente e está disponível no canal do YouTube do EàE, no seguinte endereço:

 

O texto completo para leitura pode ser baixado no seguinte endereço:

 BAIXE AQUI

Segue abaixo o resumo do texto:

Esse discurso pretende apresentar uma proposta de renovação do movimento espírita e, mesmo que diminuta, da sociedade em que ele se insere. E esse propósito é buscado por meio do uso da beleza teatral do texto de Eurípedes, servindo ao mesmo tempo como forma, desenhando um cenário de fundo para a discussão, e como conteúdo reflexivo, pois a tragédia bacante conduz o seu leitor a uma paráfrase possível da realidade espírita por meio do drama vivido por suas personagens. Se Eurípedes, em sua maturidade encanecida e ao escrever sua última e impactante obra, foi capaz de refletir sobre os deuses gregos e questionar a religião, a condição social das mulheres e o poder do estado sobre a vida privada, é também possível que o movimento espírita brasileiro, após seus mais de cento e cinquenta anos, seja capaz de refletir sobre seu caminho, seus méritos, seus desvios e atalhos e propor saídas para os problemas que tem enfrentado na realidade em que atualmente se encontra. Com esse propósito e esse pano de fundo, parte-se das reflexões e práticas históricas de Paulo Freire e das Comunidades Eclesiais de Base para propor uma nova forma de atuação do movimento espírita, voltada para um trabalho popular de conscientização e de promoção da transformação social. Esse novo caminho é nomeado nesse discurso de Núcleo Espírita Popular (NEP). Não sendo mais possível pensar num movimento espírita que, por meio da atividade alienante e da caridade esmoler, contribui para manter os graves problemas sociais, contrariando tudo o que está proposto nos ensinos de Jesus e dos espíritos que auxiliaram Kardec, faz-se necessário ultrapassar esse estágio de fideísmo inócuo, focado exclusivamente na escatologia idealista e na soteriologia subjetiva, para avançar sobre a ideia central do Reino apresentada por Jesus quando se propôs a trazer para mulheres e homens a possibilidade da construção duma nova sociedade justa e fraterna, uma sociedade que não é desse mundo de opressão e indignidade. Para isso, faz-se também necessário pensar não apenas no objetivo principal, que é a continuidade da luta pela construção do Reino, mas refletir e propor caminhos objetivos para esse movimento ao mesmo tempo profundo e arriscado, haja vista a enorme resistência que será contraposta, como penteus contemporâneos, por todos os que se conservam em seus privilégios sociais, mormente dentro do próprio movimento espírita. Entretanto, essa é a tragédia a que está destinado o espiritismo, como um mensageiro de Dioniso, resgatar a originalidade revolucionária daquilo que foi trazido pelo homem nazareno, atuando como um educador das propostas dessa nova sociedade, conscientizando mulheres e homens do povo de seu papel histórico, social e político.

Ao público espírita: contra o terrorismo, a violência e o vandalismo

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O EàE, veementemente, vem-se manifestar ao público espírita contra os atos criminosos ocorridos em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023, perpetrados por seguidores e apoiadores do ex-presidente da República. Os criminosos, vândalos e terroristas atuam para tentar reverter o resultado eleitoral legítimo, que escolheu Luiz Inácio Lula da Silva como novo presidente da República. Manifestações de pessoas e grupos são garantidas pela Constituição da República, mas não há absolutamente nada que possa justificar atos de vandalismo e depredação de patrimônio público e de violência contra servidores, trabalhadores da imprensa e o povo em geral. É importante denunciar, como o EàE tem feito de forma contínua nas suas redes sociais, a trágica participação de lideranças autodenominadas espíritas nesses eventos, seja na forma presencial ou virtual, divulgando, apoiando e financiando esse tipo de ação criminosa. Isso não é mais uma questão meramente ideológica ou de preferência político-eleitoral, isso é uma associação indevida das propostas espíritas de amor e fraternidade ao crime e ao terrorismo. E esses dirigentes, médiuns, oradores, artistas e escritores espíritas devem ser repudiados e denunciados por todos aqueles que se sentem tocados pela beleza e profundidade da mensagem espírita. O movimento espírita não pode mais dar espaço em suas instituições e eventos presenciais ou virtuais a essa gente que manchou o espiritismo de forma tão grotesca. E o EàE continuará a denunciá-la, incluindo aqueles que dão espaço a essa estranha gente espírita que escolheu o caminho do crime, da violência e do ódio.

Breve balanço de 2022

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Foi um ano difícil para todos. Isso é inegável. O país chega ao final desse ano com quase 700 mil mortos pelo vírus da pandemia e pelo verme genocida que se despede do poder. Muita dor, sofrimento, desespero e morte no caminho. Um caminho que já seria difícil sem o inominável no poder e que se tornou, por conta de sua imoralidade e inépcia, insuportável. Ou seja, um caminho que já seria difícil de qualquer maneira, por conta da pandemia, ficou insuportável por causa do miliciano.

Mas a parte do país que ainda consegue se indignar e lutar conseguiu, pela força da democracia, enxotar esse traste humano e tirar a quadrilha miliciana do poder.

Manifesto

E os espíritas progressistas tiveram importante papel nesse percurso, pois estiveram engajados continuamente na campanha eleitoral mais importante da história recente do Brasil, uma eleição que não foi apenas um embate de ideias e propostas, mas foi um embate entre amor e ódio, fraternidade e perversidade, cultura e ignorância, diversidade e discriminação, liberdade e autoritarismo, em suma, entre a civilização e a barbárie. E uma das formas de atuação foi o “Manifesto dos espíritas contra a reeleição do atual presidente”, proposto conjuntamente pelo EàE, ABPE e Ágora, que teve imensa adesão dos espíritas e grande repercussão na imprensa progressista. Além disso, a esquerda espírita esteve presente nas ruas durante todo o ano em manifestações e eventos de campanha contra a necropolítica do governo que se encerra. Os registros dessa intensa participação estão nas redes sociais do EàE.

Lives e aulões

E o EàE contribuiu nesse ano de 2022 com diversas edições de seus programas ao vivo nas redes sociais, trazendo personalidades e temas para o debate político, social e espírita. Esteve também presente com textos e reflexões sobre essas questões, buscando levá-las ao movimento espírita para que a realidade seja o principal tema de suas instituições, pois o EàE entende que não é possível pensar o espírito imortal sem a necessária reflexão sobre sua condição material de vida na Terra.

Encontro Nacional

Nesse ano, o EàE conseguiu realizar, após a grave crise da pandemia de covid-19, o II Encontro Nacional da Esquerda Espírita. O encontro ocorreu na cidade de São Paulo, no dia 10 de julho, na sede do Sindicato dos Bancários de SP. No evento, que também foi transmitido ao vivo pelas redes sociais, estiveram presentes como palestrantes a Dora Incontri, o Thiago Torres, conhecido como Chavoso da USP, a deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP), e os professores Juliana Magalhães e Alysson Mascaro. Durante o encontro da esquerda espírita, ouvimos e debatemos sobre política, sociedade, espiritualidade e eleições.

Clube do Livro

Em 2022, o EàE, em parceria com a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (ABPE) e a Editora Comenius, lançou o Clube do Livro Espiritismo e Sociedade, com livros de autores espíritas progressistas que estavam ausentes das prateleiras das livrarias espíritas. Lançamos uma nova tradução de “Socialismos e espiritismo”, de Léon Denis; lançamos pioneiramente, após longos quase 70 anos, a obra “Os espiritualistas perante a paz e o marxismo”, de Eusínio Gaston Lavigne, cuja publicação de suas obras espíritas é exclusiva do EàE; publicamos também uma nova tradução de “Conceito espírita do socialismo”, de Cosme Mariño; e uma nova edição de “Dialética e metapsíquica”, de Humberto Mariotti. Ainda há novos livros espíritas progressistas a serem publicados dentro dessa coleção pioneira.

ESE antirracista

evangelho antirracistaEm novembro, no Dia da Consciência Negra, o EàE lançou o primeiro livro de seu projeto antirracista: “O evangelho segundo o espiritismo – Edição antirracista”. Uma obra, gratuita, que veio romper o longo silêncio do movimento espírita sobre as questões étnicas e sobre o racismo presente nas obras kardecistas. Foi um projeto corajoso e abraçado por todos dentro do EàE, sendo conduzido com o cuidado necessário que a questão exige. Houve choro e ranger de dentes, mas houve também, em sua maioria, manifestações de apoio e de felicitações ao trabalho de enfrentamento do racismo feito pelo EàE dentro do movimento espírita.

Estudos

Além de tudo isso, o EàE deu prosseguimento a seus grupos de estudos de espiritismo progressista e aprofundou suas reflexões sobre os Núcleos Espíritas Populares, uma proposta de transformação radical de atuação do movimento espírita.

O ano de 2023, que já surge cheio de esperança e alegria, será mais um ano de muito trabalho para o EàE. Há muitas novidades vindo por aí que vão, certamente, chacoalhar ainda mais o movimento espírita. Porque o EàE existe para isso.

Venha fazer parte desse movimento que agrega os espíritas progressistas e ajudar nas reflexões, nos projetos e na execução de suas propostas.

É preciso enfrentar a teocracia

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Achou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas, e também os cambistas sentados; e tendo feito um chicote de cordas, expulsou a todos do templo, as ovelhas bem como os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de negócio.” Relato sobre Jesus em João, 2, 14-16. Esse é um dos raros fatos sobre a vida de Jesus relatado em todos os 4 evangelhos neotestamentários, portanto, um dos mais críveis e passíveis de reflexão profunda. Esse trecho serve para se pensar sobre o que o bolsonarismo tem feito com a fé das pessoas, transformando-a em objeto de negócios privados, de ódio contra as diferenças e de manipulação política com projetos totalitários. Têm-se visto em vídeos pelas redes sociais, cultos religiosos serem invadidos por fanáticos dessa seita para impedir que líderes façam preleções sobre a fé de seu público. Com gritos e discursos raivosos, essa estranha gente se acha no direito de impor sua visão totalitária e fundamentalista a casas e líderes da fé. Interrompem cultos, impedem seu prosseguimento e agridem pessoas que, para elas, não atendem a seus requisitos de propagação do ódio e da mentira. Não se pode ceder a esses fanáticos iracundos. Eles devem ser enfrentados na forma adequada, pois o que fazem é crime previsto no Código Penal brasileiro (Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940) que, em seu art. 208, prevê: “Art. 208. Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa. Parágrafo único. Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.” Portanto, é preciso denunciar às autoridades competentes o que esses criminosos fazem nas casas religiosas, pois só assim eles serão detidos em sua fúria dogmática, antidemocrática e criminosa. Não tomar as devidas providências legais e administrativas é ceder ao lento processo de instalação da teocracia fundamentalista bolsonarenta, que, pouco a pouco, diante dos medos e recuos da maioria, impõe sua forma autoritária de pensar, de agir e de crer. No livro intitulado “The handmaid’s tale”, lançado em 1985, cujo título em português é “O conto de aia”, que se tornou famoso após ser transformado em série televisiva em 2017, a escritora canadense Margaret Atwood mostra, num futuro distópico, um governo totalitário –a República de Gilead–, que é uma teocracia fundamentalista cristã, militarizada, hierarquizada e dividida em castas, nas quais as mulheres são brutalmente subjugadas e, por lei, não têm permissão para trabalhar, possuir propriedades, controlar dinheiro ou até mesmo ler. Numa das cenas iniciais dessa trágica história, a personagem principal, a aia Offred, lembra de momentos anteriores à mudança de regime, quando via, com suas amigas, as violências ocorrerem na frente de todos, as pessoas sendo impedidas em seus direitos e as manifestações sendo coibidas por fanáticos cheios de ódio, e tudo isso sem que houvesse reação da sociedade civilizada, e, numa fala profética, diz: “como vimos isso acontecer na nossa frente e nada fizemos?”. É por isso, sob o risco de se ser cúmplice, que não se pode calar diante da barbárie fundamentalista cristã que, antes comedida, coloca-se, sem constrangimentos, como a ponta que rompe as barreiras civilizatórias e impõe o ódio e a perseguição como normas sociais toleradas. Não, não se pode calar diante dessa tragédia social. E esses bárbaros contemporâneos, essa horda de ódio e horror, só serão detidos em seu insano projeto autoritário se a sociedade não se calar e reagir. Há instrumentos legais e institucionais para contê-los em sua ira nada santa, e é preciso usá-los. Usá-los sem parcimônia, denunciando ao Ministério Público, fazendo ocorrências policiais e promovendo ações judiciais que coloquem freios nessa barbárie bolsonarenta. Mas é preciso também que progressistas se organizem em manifestações, grupos, associações, partidos etc. para mostrar que a liberdade e a laicidade são valores inegociáveis. Esse é o chicote social que derrubará esses projetos teocráticos e expulsará essa estranha gente do convívio social, tal qual Jesus o fez com os que deturpavam e usavam a fé para conquistar poder e riquezas.