Mães, feminismos e espiritismo

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Por Elizabeth Hernandes (EàE-DF)

Correndo aqui, antes que maio acabe e a gente não fale sobre as mães.
Mas por que correr?
Porque é maio, mês das noivas, das mães, das flores(?). Correr porque o capitalismo cria datas para gente comprar coisas para, em alguns casos, usar as pessoas. Então, dando continuidade à nossa navegação contra a correnteza, ao invés de consumir, vamos refletir. Sobre mães, feminismos e espiritismos, assim mesmo no plural.
Primeiro as mães, da forma como aborda Mariana Kotscho[1]:
“O feminismo materno também visa a lutar pelos direitos das mulheres que são mães: direito a um parto digno e sem risco de violência obstétrica, direito a ter condições de educar seus filhos, direito a tomar decisões sem julgamentos. Acho importante ressaltar aqui a crueldade dos julgamentos para todas as mulheres, sendo mães ou não. Porque as que decidem não ter filhos ou filhas também são julgadas, o que é um horror. Toda mulher tem o direito de decidir se quer ou não ter filhos. A maternidade não é obrigação de mulher alguma, nem garantia de mais ou menos felicidade. Entre outras coisas, entendo que é disso que trata o feminismo: igualdade, direitos, liberdade. Você já parou para pensar no poder de cada uma dessas palavras?”
Feminismo é tão abrangente e inclusivo que, quando uma feminista fala de maternidade, começa defendendo o direito à escolha de não ser mãe.
Outra boa reflexão vem de Patrícia Castro[2]:
“[…] o dia das mães não é bem uma data para vender perfume, lingerie e panela de pressão. É o dia destinado a vender uma ideia: a ideia, ou mito da Supermãe. O ideal da Supermulher (da qual a supermãe é subproduto) nos é vendido todos os dias, mas é especialmente celebrado no segundo domingo de maio.”
Existe maneira melhor de explorar uma pessoa do que decretar que ela é super, invencível, pode tudo e ainda de salto alto? Esse empoderamento capitalista, eu passo. Primeiro que sai caro, sob todos os aspectos, principalmente os intangíveis. E, também, é acessível apenas às mulheres brancas e com renda para consumir produtos (que vão do batom ao silicone) e serviços (que vão da academia à exploração de outra mulher, geralmente preta, para manter a casa impecável). Esse empoderamento aí é cilada, Bina!]
E tem a idealização religiosa, afinal, esse texto é para uma página espírita.
Toda religião que conheço é patriarcal, mas o espiritismo, bicho, quê que é aquilo? Joga uma tonelada de argumentos para deixar a mulherada quietinha no canto reservado às santas ou às pecadoras. Não interessa a categoria, o importante é que ela se mantenha no lugar que lhe foi destinado. E têm as heroínas dos livros espíritas, a responsabilização pelo destino de toda a família e o carma atribuído às que não aceitaram tudo, qualquer coisa e qualquer preço. Que cristianismo é esse que aprecia tanto o sofrimento feminino?
E chegamos à literatura de Chico Xavier, afinal não se fala de movimento espírita no Brasil sem levar em conta o fenômeno Chico (e também porque se não houver treta a gente nem se arruma para sair).
Destaco um dos muitos textos que exaltam a “figura santificada” da mulher, justamente pelo título: “Feminismo”. Consta do livro “Fotos da vida”[3], que abrange um conjunto de crônicas de conteúdo moral e nesta, em especial, narra-se uma suposta passagem em que Jesus e seus discípulos, perdidos no meio de uma viagem a Jericó, encontram um homem muito bruto, que se recusa a lhes orientar sobre o caminho. Depois de serem tratados com grosseria, encontram uma bela e jovem mulher que, mesmo carregando um cântaro sobre a cabeça, interrompe a caminhada e dá a informação com boa vontade e delicadeza.
Depois que a moça segue seu caminho (carregando o cântaro, claro):
“Simão aconchegou-se a Jesus e lhe falou com intimidade. – ‘Mestre, notou a diferença? O bruto que nos desconsiderou e essa menina generosa se parecem a um animal e a uma flor…’. Ante o Senhor, que se fizera pensativo, Pedro insistiu:
‘Senhor, qual será a recompensa que o Céu concederá a essa jovem que nos prestou um serviço tão grande?’. Jesus sorriu e falou ao apóstolo em voz alta: – ‘Sim, Pedro, essa jovem será recompensada; e o prêmio dela será casar-se com o homem brutalizado que passou por aqui, a fim de que consiga educá-lo para Deus e para a vida.’ Surpresa geral encerrou o assunto. É isso aí, meu caro. Se a mulher nos abandonar à própria sorte, negando-se a cumprir a missão que o Céu lhe atribui, com certeza, nós todos, os homens vinculados ainda à Terra, estaremos perdidos…”
O livro citado é de 1988, ou seja, é historicamente recente. De todo modo, a prática no movimento espírita, mudou alguma coisa, passados mais de trinta desta publicação? Até onde eu conheço, das casas espíritas tradicionais, é nesse lugar, mesmo, que os confrades esperam encontrar as confreiras. Que sejam doces educadoras, não apenas dos seus filhos, mas de qualquer marmanjo brutalizado ou macho desgovernado.
O problema é que as estatísticas[4] mostram que não há limite para os marmanjos brutalizados que, frequentemente, matam suas companheiras, sejam elas “belas, recatadas e do lar”, ou não. E esta prática vem-se acentuando ao longo do período, que ainda atravessamos, de pandemia pela covid-19.
Machos desgovernados abreviam o tempo de reencarnação de mulheres pelo fato de elas serem mulheres e é feminicídio que chama. Esse “Feminismo” descrito no livro “Fotos da vida” não é cristão e não é aceitável, é feminicida.
O título –“Feminismo”– dado para uma crônica em que o “prêmio” da mulher trabalhadora e gentil é casar-se com um homem violento, é um acinte à luta das mulheres. O autor afirma que a missão da mulher, atribuída pelo Céu (seja lá o que signifique esse Céu) é tolerar e educar homens brutalizados.
Esse Céu não interessa às mulheres. O papel da mulher, nessa psicografia, é um modelo no qual já não cabem as espíritas, em 2021. Também não interessa a programação do evento (em 2021!) cuja divulgação ilustra esse texto. A foto mostra cinco homens e uma mulher, para falar sobre as mães no Evangelho. É muito homem para essa mulher educar e… sozinha! Não é justo.
E, sim, as mulheres desempenham importante papel na educação e também na educação dos filhos. E vale a pena ler Chimamanda Ngozi Adichie[5], que admite as diferenças mostradas pela biologia, como o fato de que homens, de modo geral, têm mais força muscular que as mulheres. Mas nem isso é verdade universal pois uma mulher com treinamento pode superar um homem nesse quesito. Mas qual a importância disso, em 2021, fora da área do fisiculturismo e adjacências? A partir do momento em que se desenvolveu a tecnologia da alavanca, entre outras, força física não é ferramenta decisiva para a resolução das questões práticas da vida.
Adchie ressalta que “a questão de gênero é importante em todo canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e de mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. […] precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente. […] O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita”.
Mas até a Adchie, para conclamar todos a serem feministas, tem de ressaltar as necessidades masculinas? Tudo bem. Aqui dá para aceitar porque ela não está afirmando que essa é uma responsabilidade exclusiva das mães.
Um mundo feminista é um mundo onde as mulheres não são obrigadas a carregar, sozinhas, os cântaros ou a responsabilidade pela reprodução e evolução da espécie. E esse mundo será mais suave para todos, homens e mulheres, com e sem filhos.
Nesse mundo, que ainda “não é deste mundo”, as mães não deixarão de comer para alimentar seus filhos e não serão obrigadas a fazer do próprio corpo um escudo para protegê-los da violência urbana. Esse mundo não terá mães que sequer tiveram a oportunidade de se fazerem de escudo porque seus filhos negros são sempre encontrados pelas balas perdidas, seus filhos homossexuais pela violência homofóbica e suas filhas são mortas por machos desgovernados. Nesse mundo mais feminista, não haverá milhares de filhos e de mães, mortos precocemente, por um vírus contra o qual existe vacina e protocolos sanitários baseados em evidências científicas divulgadas em escala mundial.
Então, vou ser sincera: presente no dia das mães? Gosto sim, pode trazer, eu nem sou tão comunista como dizem as boas línguas!
Mas feliz dia das mães, perfeitamente feliz, será quando for para todas as mães e todos os filhos e filhas.

1-  “Feminismo materno: a luta pelos direitos das mulheres que são mães”. Coluna “Papo de Mãe”. Disponível em https://cultura.uol.com.br/noticias/colunas/papodemae/22_feminismo-materno-a-luta-pelos-direitos-das-mulheres-que-sao-maes.html

2 – Quem fala sobre as mães? Disponível em : https://www.todasfridas.com.br/2018/05/22/pra-nao-dizer-que-nao-falei-das-maes/

3 – Fotos da vida. De autoria do espírito Augusto Cézar, psicografado por Francisco Cândido Xavier. Disponível em https://silo.tips/download/fotos-da-vida-chico-xavier-augusto-cezar-4

4 –  “Mulheres enfrentam em casa a violência doméstica e a pandemia da covid-19” – Monitoramento da série “Um vírus e duas guerras”, realizado a partir de dados de feminicídios e violência doméstica coletados nas secretarias de segurança pública das 27 Unidades da Federação. Disponível em https://projetocolabora.com.br/ods5/mulheres-enfrentam-em-casa-a-violencia-domestica-e-a-pandemia-da-covid-19/

5 – Adchie, Ngozi Shimamanda. Sejamos todos feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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