Por que ainda preferimos ser racistas que capitalistas

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Antônio Isupério

Arquiteto e ativista antirracista e LGBTQIA+,
é diretor de relações internacionais
do Retail Design Institute (EUA).
Membro da Coordenação do Espíritas à Esquerda

Funcionários da Ável Investimentos, ligada à XP, no terraço da empresa, em Porto Alegre; imagem repercutiu nas redes sociais pelo fato de a equipe ser branca, ter poucas mulheres e aglomerar sem o uso de máscaras – Reprodução/Twitter

Nos últimos dias pudemos aferir o quanto as redes sociais trataram de forma onipresente o caso da foto da Ável Investimentos (um escritório gaúcho de agentes autônomos ligado à XP Investimentos) após uma manhã de apresentações sobre propósito, conceito, disrupção e inovação. Mas o que a imagem claramente diz é sobre o pacto narcísico da branquitude brasileira e sua orgulhosa supremacia latina.

É importante salientar que a falsa ideia da meritocracia é o principal pilar que sustenta o racismo estrutural e normaliza esse cenário por séculos. Percebemos também que a mídia assistiu atônita a todo esse debate repercutir, o que denuncia a ausência de profissionais preparados para tratar de assuntos tão relevantes e atuais como o protagonista desse futuro: a inteligência social.

Não existe coerência em tratar de disrupção e inovação em um ambiente majoritariamente composto por homens brancos cis e, provavelmente, héteros. Grandes empresas de pesquisa de futuro, como a McKinsey em seu popular “report” de 2015 (“Why diversity matters”), descrevem com pesquisas muito precisas que uma diversidade étnica produz 35% de lucro real as empresas.

Ao tratar sobre inovação, esses valores alcançam resultados ainda mais expressivos, porque não é possível maximizar inovação em um ambiente que se propõe ser uma repetição de mesmos indivíduos e experiências, como no caso da foto. Não é um cenário somente composto por uma quantidade expressiva de homens brancos cis héteros, mas bem provável que também compartilhem da mesma cosmovisão, mesmos valores sociais, sejam todos vizinhos, torçam para o mesmo time e frequentem os mesmos lugares. Essa é a fórmula da construção de um ambiente estéril composto por “si mesmos” e que carrega um imenso vão cego da sociedade que seja quase impossível ser quebrado.

Todos parecem gêmeos, não somente pelo mesmo tom branco de pele (porque existem outros), mas também pelos cortes de cabelo e trajes. A imagem poderia ser um meme daqueles em que se copia e cola, mas não é. É o Brasil de 2021 que se ensaia pós-pandêmico.

Vamos ao porquê do título deste artigo e a incoerência que tal foto denuncia. O nosso país contém 56% de negros, segundo o IGBE. São quase 120 milhões de pessoas com um poder de consumo abundante de R$ 1,9 trilhão por ano, de acordo com dados oficiais do Instituto Locomotiva. Isso representa mais que o consumo da própria classe A. Só esse fator já seria capaz de invejar qualquer país que se entende capitalista.

Se isolarmos somente o “Brasil negro”, seríamos o 11º pais do mundo em população mundial e o 17º em consumo; ou seja, isoladamente faríamos parte do G20.

Mas é praticamente impossível achar uma boneca negra ou uma touca para cabelos afro, isso na maior potência de afroconsumo do mundo. Infelizmente, o nosso setor produtivo prefere ignorar completamente esses dados, o que nos faz concluir que nós, como nação, preferimos ser racistas até que capitalistas, como afirma a consultora de diversidade Alexandra Loras.

O Brasil não conhece seu principal cliente. E, pelo registro que temos da Ável Investimentos, ainda teremos um longo caminho.

ESTE ARTIGO FOI ORIGINALMENTE PUBLICADO NO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO.

1 COMENTÁRIO

  1. Vamos aguardar a chegada do mês de novembro, mês da Consciência Negra, e essas empresas estarão com maravilhosas e perfeitas campanhas publicitárias.
    Quero mais espaço para a diversidade, somos muitos.
    Temos talentos. Somos inteligentes. Só precisamos de oportunidades e acesso. Temos potencial.

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