Sobre espíritas, músicos e fascistas

601

Por Túlio Ceci Villaça

Postado originalmente nesse link.

Eu sou espírita, embora quase nunca fale disso em público porque detesto proselitismo (nada contra quem o faz com seriedade, só questão pessoal); e sou músico pouquíssimo praticante hoje — compenso escrevendo sobre música -, mas já fui muito atuante tanto como músico quanto como espírita, e muito das duas coisas juntas, como alguns aqui sabem.

Por isso, como espírita e como músico, quero dizer algo que deveria ser tão evidente quanto desnecessário dizer: quem se considera espírita ou é músico e ainda apoia em algum nível este governo nefasto, por mais que possa ser alguém bom pessoalmente e por mais que já tenha feito boa música, no fundo não entendeu absolutamente nada do que fez e faz.

Digo isto a pretexto do vídeo divulgado por membros da Fundação Caminho Verdade e Vida, de MG (eles mesmos se identificam, portanto não vejo mal em informar) e da foto do presidente da República portando um violão e simulando usá-lo como um fuzil. Tratemos de um por vez.

O vídeo divulgado tem muito pouco conteúdo, basicamente um grupo de pessoas dizendo, um por um, que são espíritas e apoiam Bolsonaro. Há poucas variações, mas significativas: um acredita que ele seja um missionário, outro lhe “apresenta” Emmanuel, estampado em sua blusa, outra lhe considera muito simpático, outros lhe “autorizam” a fazer o que considerar necessário. E assim por diante.

Imagem extraída do vídeo da Fundação Caminho Verdade e Vida

Neste vídeo está tudo de pior que o movimento espírita brasileiro tem: o messianismo, a idolatria cega, a ausência absoluta de questionamentos, a mania de enxergar diretrizes da espiritualidade no que lhe apraz e, contrariamente, obsessores no que não gosta. E mais um recorte de classe que vem de sua nascença e que é abominável: uma classe média branca subletrada mas que se acha oriunda espiritualmente da França, da civilidade, que tem pavor de ser confundida com os adeptos do “africanismo”, como chamou Deolindo Amorim às religiões afrobrasileiras de forma pusilânime. Estas ultimas coisas não estão no vídeo de forma visível, mas são elas que o moldam, inclusive na “autorização” que inclui a possibilidade de um golpe de Estado, de uso de violência, tudo terceirizado, porque os espíritas detestam violência. Mas “autorizam”.

Eu já quebrei muito pau dentro do movimento espírita contra o conservadorismo inerente à visão doutrinária corrente, quem me conhece sabe. E na verdade frequento hoje apenas esporadicamente reuniões, mesmo virtuais. Sei bem que não é assim em todo lugar. Mas só de lembrar que a visão corrente do espiritismo permite sequer aventar a possibilidade de um vídeo como este, tenho engulhos.

Quanto à foto, há pouco a dizer, porque ela fala por si. Quem faz de música sua profissão, aquilo em que acredita contribuir para fazer a sua parte no mundo (e se sustentar, na medida do impossível) e não se revolta com a imagem do violão/fuzil, esta pessoa não sabe o que está fazendo no mundo, nada menos.

Sei perfeitamente que a arte pode e deve ser usada para questionar, para chocar, e pode inclusive emular a violência, que não há limites para a expressividade se usada com um propósito investigativo responsável, um questionamento honesto, a abertura de um caminho inovador. Mas não é preciso apelar para nada disso para perceber que a performance do violão/fuzil não é nada disso, é pura e simples selvageria, incompreensão absoluta de qualquer padrão de humanidade. Obra de um debiloide, um psicopata, um canalha emérito.

Por sinal que esta performance (nem devia estar usando esta palavra, enxovalha seu significado) aconteceu — anotem — no 1° Encontro Fraternal de Líderes Evangélicos da Convenção Nacional das Assembleias de Deus do Ministério de Madureira.

Fraternal.

Percebem? O que há ali é desprezo por qualquer valor positivo e pura destruição de significado, exatamente do tipo promovido pelo nazismo, que começou ligado discretamente a fundamentalismos religiosos para mais tarde substituí-los pelo seu próprio misticismo, colocando no altar, no lugar do que estivesse lá, a violência. Culto da violência, no sentido religioso mesmo.

Em suma, já passamos há muito, se é que um dia estivemos, do ponto em que um espírita ou alguém que atua na arte compactue com o fascismo que está no poder. Sei que estou falando para convertidos em maioria absoluta, porque falo para meus amigos aqui. Mas este perfil é público, então faço um manifesto pessoal aqui, que seja para manifestar minha indignação e desopilar meu fígado, para que a violência implícita ou explícita destes vídeo e foto não fiquem dentro de mim me fazendo mal.

Só para que não fique qualquer dúvida: sou contra toda determinação de quem é e quem não é espírita ou artista. Mas se você se considera um ou outro e apoia este governo, não importa a roupa branca, a intenção benéfica, a técnica perfeita, a composição cuidadosa; você não sabe o que é, no sentido mais profundo da palavra, e o fascismo vai ressoar por baixo de tudo o que você disser e fizer, seja na doutrina ou na arte. Note quem quiser.

3 COMENTÁRIOS

  1. Belíssimo texto. Estamos em um período de tantas trevas que as pessoas perderam a noção do que é ser cristão. Mas esses que se dizem Espíritas não me enganam. Não posso aceitar nem entender Verdadeiros Espíritas seguindo e apoiando esse desgoverno da morte, da violência e da intolerância. Podem enganar a muitos mas a mim não.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui