
“Nunca senti uma dor tão grande”, conta professora sobre exclusão de centro espírita após transição de gênero

“A espiritualidade não pode ser dissociada da luta por justiça social”, diz representante do MDHC no III ENEE

Espiritualidade e Ação Social
Fábio Mariano iniciou sua apresentação ressaltando que a espiritualidade não pode ser dissociada da luta por justiça social. Segundo ele, “os ensinamentos de Allan Kardec nos convocam a atuar em prol dos mais vulneráveis, a combater as injustiças e a promover a igualdade”. Mariano enfatizou que a verdadeira prática espírita deve ir além da caridade individual, engajando-se em ações coletivas que promovam mudanças estruturais na sociedade.O Papel dos Espíritas na Luta por Direitos Humanos
Mariano argumentou que os espíritas têm um papel fundamental na defesa dos direitos humanos e na promoção de políticas públicas inclusivas. “Nossa espiritualidade deve nos mover a agir, a lutar pelos direitos dos mais oprimidos e a construir uma sociedade mais justa”, afirmou. Ele destacou a importância de os espíritas se envolverem em movimentos sociais, sindicatos e outras formas de organização que lutem pela justiça social.Educação e Conscientização Política
Um ponto central da palestra foi a defesa da educação e da conscientização política como ferramentas essenciais para a transformação social. Fábio Mariano citou Paulo Freire, enfatizando que “a educação popular é um caminho para a emancipação, permitindo que as pessoas compreendam suas capacidades e direitos”. Ele incentivou os espíritas a promoverem espaços de discussão e aprendizagem que despertem a consciência crítica e política nas comunidades.Políticas Públicas e Inclusão
Representando o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, Fábio Mariano destacou as iniciativas do governo em promover políticas públicas que defendam os direitos das minorias e promovam a inclusão. “É nosso dever, enquanto espíritas e cidadãos, apoiar e colaborar com essas políticas, atuando de forma incisiva na defesa dos direitos humanos”, afirmou Mariano. Ele mencionou que a atuação conjunta entre sociedade civil e governo é crucial para alcançar mudanças significativas e duradouras. A palestra de Fábio Mariano da Silva no III Encontro Nacional da Esquerda Espírita foi um chamado à ação para que os espíritas progressistas se engajem mais profundamente nas questões sociais e políticas. Mariano concluiu sua apresentação reforçando que a prática espírita deve ser um reflexo dos princípios de igualdade e fraternidade, atuando ativamente na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. “A transformação social começa com cada um de nós, unidos em prol de um mundo melhor”, finalizou.Asssita a íntegra da palestra de Fábio Mariano da Silva:
Educação popular é instrumento para a emancipação social e política, diz Elias Moraes no III ENEE
Educação Popular como Ferramenta de Transformação

Conscientização Política e Participação Ativa
Moraes argumentou que os espíritas devem se engajar ativamente em movimentos sociais e políticos para combater as desigualdades. Ele enfatizou que a simples caridade não é suficiente e que é necessário um esforço coletivo para promover mudanças estruturais. A participação em conselhos comunitários, sindicatos e outras formas de organização social é vista como crucial para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.Espiritismo Progressista e Justiça Social
A palestra também focou na necessidade de um espiritismo progressista, alinhado com os princípios de igualdade e fraternidade. Moraes defendeu que os espíritas devem se posicionar contra todas as formas de discriminação e opressão, incluindo racismo e sexismo. Ele mencionou as iniciativas do Coletivo Espíritas à Esquerda, como as edições antirracistas das obras de Allan Kardec, que promovem debates críticos e progressivos sobre essas questões.Superação das Injustiças Sociais
Moraes enfatizou que a luta contra as injustiças sociais requer um esforço contínuo e coletivo. Ele argumentou que para alcançar uma sociedade mais justa, é necessário buscar uma transformação estrutural, além das reformas pontuais. Esse processo envolve a atuação direta em políticas públicas e a conscientização das pessoas sobre seus direitos e deveres como cidadãos. Elias Moraes concluiu sua palestra incentivando os espíritas a assumirem um papel mais ativo na política e na sociedade. Ele reforçou que a prática espírita deve ir além da caridade individual e incluir a luta por justiça social e pelos direitos humanos. Moraes destacou a importância da educação popular e da participação ativa como ferramentas essenciais para a transformação social, alinhadas com os princípios do espiritismo.Assista a íntegra da palestra de Elias Moraes:
Keka Bagno destaca importância da ação política dos espíritas no III ENEE
Espiritismo e Ação Social
Keka Bagno iniciou sua apresentação discutindo como o espiritismo, enquanto doutrina de amor e caridade, deve engajar-se ativamente nas questões sociais e políticas. Ela enfatizou que os ensinamentos de Jesus, conforme interpretados pelo espiritismo, são fundamentalmente alinhados com a luta pela justiça social e pelos direitos humanos. Para Bagno, a prática espírita deve ir além das ações individuais de caridade, buscando mudanças estruturais que beneficiem toda a sociedade.
Participação Política e Educação Popular
Bagno destacou a necessidade de os espíritas se envolverem diretamente em espaços de decisão política, como movimentos sociais, sindicatos e conselhos comunitários. Ela argumentou que a participação ativa é crucial para promover políticas públicas que combatam a desigualdade e promovam a justiça social. A vereadora também ressaltou a importância da educação popular, inspirada nas ideias de Paulo Freire, como um meio de empoderar as comunidades e fomentar a conscientização política.Feminismo e Direitos Humanos
Durante a palestra, Keka Bagno abordou temas como o feminismo e a descriminalização do aborto, afirmando que esses assuntos estão alinhados com os princípios espíritas de respeito e valorização da vida. Ela enfatizou que a luta pelos direitos das mulheres e por uma sociedade mais igualitária é uma extensão natural da prática espírita. Bagno argumentou que os espíritas devem ser defensores ativos dos direitos humanos, utilizando sua influência para promover mudanças positivas na sociedade. Keka Bagno concluiu sua palestra incentivando os espíritas a assumirem um papel mais ativo na política e na sociedade. Ela reforçou que a verdadeira prática espírita envolve não apenas a caridade, mas também a luta contínua por justiça social e pelos direitos humanos. Bagno destacou a importância de uma atuação coletiva e organizada para alcançar um mundo mais justo e fraterno.Veja a íntegra da palestra de Keka Bagno:
Espíritas, o que nos cabe?
No dia 13 de julho de 2024 aconteceu em Brasília o III Encontro Nacional da Esquerda Espírita, promovido pelo coletivo Espíritas à Esquerda. Na abertura o membro da coordenação nacional da organização, Sergio Mauricio Pinto, leu o manifesto que discorre sobre o tema do evento: O Reino: um outro mundo é possível – O que cabe aos espíritas?

Veja abaixo a íntegra do texto referência do Encontro.
Espíritas, o que nos cabe?
Nesse sábado, dia 13 de julho, aqui na sede do Sindicato dos Bancários do DF, em Brasília, os espíritas progressistas à esquerda estão mais uma vez reunidos para refletir e dialogar sobre o que cabe aos espíritas na tarefa inadiável de construir uma sociedade mais justa, fraterna e com dignidade e abundância para todas e todos, uma nova sociedade que foi nomeada por Jesus como “O Reino”, uma sociedade que não é desse mundo de opressão, miséria e injustiças. Nesse encontro, que é o III Encontro Nacional da Esquerda Espírita, o Coletivo Nacional Espíritas à Esquerda apresenta a tese de que para a construção dessa nova sociedade, que é necessariamente uma construção coletiva e não de mera transformação individual, é fundamental o investimento público em educação com base na formulação freireana de conscientização social e política, formando jovens e adultos para a intensa participação política em suas comunidades locais e nas instâncias formais, como representações em conselhos, sindicatos, movimentos sociais, partidos políticos e parlamentos de todas as esferas de poder. Não será possível superar os graves problemas dessa sociedade tão injusta e opressora apenas por meio de ações e reformas pontuais sempre sujeitas a serem desfeitas na primeira oportunidade em que os donos do poder formal encontram quando se sentem minimamente ameaçados em seus ganhos e privilégios, principalmente com aliados tão poderosos como o grande capital nacional e internacional e a imprensa hegemônica sempre disposta a implodir as poucas e voláteis conquistas sociais de trabalhadoras e trabalhadores. E, afinal, qual seria o papel dos espíritas nesse projeto de transformação social? Aos espíritas, propõe-se, caberia a formulação de projetos de educação popular na sua base estimada de mais de 15 milhões de frequentadores de instituições espíritas pelo país, apesar de os dados do Censo de 2010 apontarem cerca de 4 milhões de adeptos formais. E esses projetos deveriam principalmente focar na formação social e política do sujeito espírita, com o uso do extenso manancial de discussões políticas e sociais disponível nos textos neotestamentários, nas obras kardecistas e noutras de autores espíritas progressistas diversos com importantes reflexões sociais e filosóficas a partir da visão espírita da realidade. As instituições espíritas se tornariam, assim, um farol iluminando os caminhos para a consecução do projeto do “Reino” anunciado por Jesus e ecoado pelos espíritos que auxiliaram Kardec; esse mundo de paz, justiça e fraternidade seria o objetivo primacial de casas e grupos espíritas e suas ações deveriam focar-se nesse projeto que é, ao mesmo tempo, de fé na superação das mazelas humanas, libertador das opressões diversas a que os indivíduos estão submetidos e de esperança profunda no futuro da experiência humana nesse mundo. E nada seria mais espírita do que essa experiência mística e concreta, porque utópica e motivadora de ação coletiva, para a realização do anúncio do “Reino” entre nós. O espiritismo seria, então, uma das ferramentas possíveis para a formação de militantes da fraternidade, aqueles sujeitos que entenderiam seu importante papel na árdua tarefa de transformar esse mundo. Assim, mais do que discutir veleidades transcendentes e dissociadas da concretude da vida humana, alienando a consciência do sujeito imortal por meio de tolas expectativas e projetos individualistas no além-túmulo, o espírita desse novo paradigma transformador do mundo e da humanidade estaria pronto para entender vivamente sua realidade espiritual concreta, suas experiências coletivas e a firme compreensão de que sua transformação pessoal não se dará senão pela ação na transformação da realidade social, numa relação dialética imbricada entre espírito imortal e mundo real. E isso só se dará por meio da ação educativa conscientizadora promovida em toda a sociedade e, em particular, no seio do movimento espírita. É esse o espiritismo que sonham os progressistas à esquerda, um espiritismo que cumpra sua função inexorável de conscientizar e politizar seus adeptos e seguidores, sob o risco de ele sucumbir sob os ardis daqueles indiferentes ou interessados que sustentam e promovem opressão, desigualdades e desamor. Prontos para mudar esse mundo e auxiliar na construção do “Reino”? Há muito o que fazer. À luta, espíritas!VEJA A LEITURA DO TEXTO DE REFERÊNCIA:
Coletivo lança “O que é espiritismo – edição antirracista” no 3º Encontro Nacional da Esquerda Espírita


Prefácio do Livro
O prefácio de “O que é Espiritismo – Edição Antirracista” reforça a necessidade de abordar criticamente os textos de Kardec, destacando a importância de atualizar a compreensão espírita à luz dos avanços das ciências e da filosofia dos séculos XX e XXI. Ele argumenta que as contribuições de Kardec devem ser vistas como parte de um conhecimento progressivo, aberto a novas descobertas e críticas, e não como dogmas inquestionáveis. Os comentários antirracistas apresentados no livro estão inseridos em quadros destacados, logo após os trechos originais indicados pelo TAC. Isso permite que os leitores reflitam sobre as questões propostas e promovam diálogos antirracistas em seus grupos e casas espíritas. O objetivo é avançar o pensamento espírita em relação ao racismo e à luta antirracista, em consonância com a proposta progressiva do espiritismo de Allan Kardec. A iniciativa do Coletivo Espíritas à Esquerda é um passo importante na promoção de um espiritismo mais inclusivo e justo. Ao lançar a edição antirracista de “O que é Espiritismo” durante o III ENEE, o coletivo reafirma seu compromisso com a reparação histórica e a construção de um movimento espírita mais consciente e engajado na luta contra o racismo.As tragédias não vêm de Deus
Gastão Cassel – EàE SC
Momentos de aflição como o que vivemos por conta das enchentes do Rio Grande do Sul povoam a imaginação dos espíritas com explicações fenomênicas. Tenta-se explicar “espiritualmente” os acontecimentos, buscando um sentido ou uma interpretação para o que acontece. Em geral, aponta-se o dedo para cima e denomina-se “flagelo de Deus” o que ocorre aqui na Terra. Não são raros os discursos fantasiosos, especialmente em desencarnes coletivos, que atribuem a dor ou a morte a uma espécie de punição ou ajuste de contas por atos de vidas anteriores. De passagem, lembro do absurdo propagado quando do incêndio da Boate Kiss, também no estado do sul: houve quem dissesse que os jovens vitimados teriam sido soldados nazistas no passado. Haja imaginação e falta de compaixão! Há dois problemas nas visões fenomênicas: primeiro, a atribuição a Deus de um caráter justiceiro e vingativo; segundo, a abstração das consequências das ações humanas sobre o planeta. Afirmar que tragédias e sofrimentos são expressões da vontade de Deus é incompatível com a concepção de sua bondade. A verdadeira natureza benevolente de Deus não se alinha com o desejo de causar dor ou aflição a seus filhos. Ao contrário, Ele é frequentemente visto como o consolador nos momentos de tragédia, oferecendo conforto e esperança aos que sofrem. Atribuir eventos trágicos à vontade de Deus é uma interpretação simplista que não considera a complexidade da existência humana e o livre-arbítrio que Ele concedeu a todos os humanos. Muitas vezes, as tragédias, especialmente aquelas de natureza ambiental, são o resultado direto da ação imprudente do homem. A exploração irresponsável dos recursos naturais, a poluição desenfreada e as mudanças climáticas causadas pela emissão excessiva de gases de efeito estufa são apenas alguns exemplos de como as atividades humanas podem desencadear catástrofes devastadoras. Essas ações muitas vezes refletem uma desconexão com a natureza e uma falta de consideração pelas futuras gerações. Portanto, ao invés de atribuir tais eventos à vontade de Deus, é crucial reconhecer o papel significativo que as escolhas humanas desempenham na criação ou prevenção de tragédias. É um chamado à responsabilidade coletiva e à adoção de práticas sustentáveis para preservar nosso planeta e proteger nossas comunidades da destruição desnecessária. Se buscarmos escritos de Kardec encontraremos em “O livro dos espíritos”, questão 740, que “Os flagelos são provas que dão ao homem ocasião de exercitar a sua inteligência, de demonstrar sua paciência e resignação ante a vontade de Deus e que lhe oferecem ensejo de manifestar seus sentimentos de abnegação, de desinteresse e de amor ao próximo, se o não domina o egoísmo.” Prestemos atenção que o fundador do espiritismo não fala que as tragédias em si são algum tipo de reação, somente que elas surgem como oportunidade e desafio, jamais como castigo ou coisa do gênero. A emergência climática é um fato presente que desafia a humanidade a alterar o rumo da sua relação com o planeta. Há milhares de estudos e dados científicos que demonstram a deterioração da Terra, com milhares de espécies animais e vegetais próximas da extinção, e a própria atmosfera em colapso pela emissão incessante de gases nocivos a ela. O desequilíbrio ambiental chega a nós como notícia de inúmeras tragédias: enchentes, estiagens, ondas de calor ou de frio, incêndios florestais, tempestades etc. É muito comum que se atribua à vontade de Deus este sofrimento. Mas quem recorre à divindade para justificar os fenômenos destruidores fecha os olhos para o que os humanos têm feito com o meio ambiente, num modo de relacionamento com a natureza de mão única, em que só se tira dela, sem nenhum respeito à sua integridade. Ainda em “O livro dos espíritos”, Allan Kardec traz uma resposta dos espíritos quando ele questiona se a Terra produz bastante para fornecer aos homens o necessário: “A Terra produziria sempre o necessário, se com o necessário soubesse o homem contentar-se. Se o que ela produz não lhe basta a todas as necessidades, é que ele a emprega no supérfluo o que poderia ser empregado no necessário”. É evidente, se considerarmos Kardec, que as sociedades humanas extraem da natureza muito mais do que precisam. Esta mistura de ganância, concentração de bens e rendas e injustiça social nos legou este mundo de desconforto e sofrimento que, do ponto de vista ambiental e social vive a plena insustentabilidade. Por isso, os momentos de comoção como as enchentes do Rio Grande do Sul devem ser vistos objetivamente como tragédias anunciadas e que os desafios de caridade, perseverança, resiliência e superação –sejam de atingidos ou de voluntários e doadores– sejam sempre revestidos pela reflexão e o sentimento coletivo de que precisamos rever nossa relação com a natureza. – Texto publicado originalmente no Informativo Nosso Lar de Junho de 2024.Um sonoro NÃO dos espíritas progressistas ao PL 1904/2024
Só os homens fazem guerra
Gastão Cassel, EaE Santa Catarina
No momento em que se lê esse pequeno texto há, pelo menos, oito grandes conflitos armados no mundo. Guerras! Veem-se diariamente nos noticiários horripilantes imagens dos combates Rússia-Ucrânia e Israel-Gaza, mas há sangue escorrendo também na Somália, Sudão, Mianmar, Nigéria, Síria e Iêmen. Não importa se são conflitos entre nações ou lutas internas pelo poder, ou ainda massacres desproporcionais que podem ser chamados genocídios, são todos lamentáveis, desumanos e destruidores. Quando Allan Kardec perguntou aos espíritos “Que é que impele o homem à guerra?” (questão 742 de “O livro dos espíritos”) teve como resposta:“Predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem –o do mais forte. Por isso é que, para tais povos, o de guerra é um estado normal. À medida que o homem progride, menos frequente se torna a guerra, porque ele lhe evita as causas, fazendo-a com humanidade, quando a sente necessária.”[1]
A resposta dos espíritos não satisfaz. É baseada num conceito presente no século XIX, quando Kardec estruturou o espiritismo. Naquela época o conceito de “evolução” estava em voga. E a resposta considera que há povos em estado de barbárie e outros mais evoluídos. E podemos deduzir que a vocação bélica seria característica apenas dos menos evoluídos. A história recente, no entanto, mostra que não tem sido assim. Justamente as nações “mais desenvolvidas”, produtoras de tecnologia e conhecimento são as que estiveram à frente dos mais sanguinários conflitos. Há ainda uma contradição mais dura na obra citada. Quando apresenta a Lei da Destruição, pressupõe-se que as guerras podem produzir o advento da liberdade e do progresso.-
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- Que objetivou a Providência, tornando necessária a guerra?
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“A liberdade e o progresso.”
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- a) – Desde que a guerra deve ter por efeito produzir o advento da liberdade, como pode frequentemente ter por objetivo e resultado a escravização?
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“Escravização temporária, para esmagar os povos, a fim de fazê-los progredir mais depressa.”[2]
Talvez os espíritos não tenham conseguido ver o quanto os humanos podem ser ardilosos e cruéis e que absolutamente as guerras na Terra não tratam, e nunca trataram, de ser sobre liberdade e escravidão ou atraso e progresso. Sempre foi poder! Sempre foi a disputa por territórios, riquezas e valores. As guerras sempre foram espelho das desigualdades criadas pelo homem sobre o planeta. Os conflitos são engrenagens da máquina capitalista de criar desigualdades. Nunca são os povos que deflagram as guerras, mas as elites, os poderosos das sociedades, os governantes, jamais as populações e o povo trabalhador. Como disse o pensador francês Jean-Paul Sartre “quando os ricos fazem guerra são os pobres que morrem”.[3] Também não é aceitável atribuir as guerras a iniciativas individuais de governantes dominados por pensamentos perversos, visto que mesmos estes têm lastros políticos e sociais que sustentam suas fúrias e agressões em escala de massa. Em outras palavras não se pode acreditar que apenas a mente de Hitler engendrou os horrores da II Grande Guerra, uma vez que ele contou com colaboradores, aliados internacionais e desenvolvedores intelectuais de seus conceitos. Não era um conflito do mal contra o bem, mas prioritariamente enfrentamento entre interesses políticos e comerciais. As guerras, sejam em que contextos aconteçam, expõem o que há de pior na humanidade. A própria negação da humanidade como atitude. Seja num campo de batalha ou na frieza de um escritório de onde se aciona um drone que vai matar a milhares de quilômetros, o que se vê é a negação da natureza humana que deveria ser fraterna e solidária. Há que se considerar que boa parte das guerras são desenhadas em nome de Deus. Há na história muitos conflitos entre religiões, desde as Cruzadas do século VI até hoje. Muita gente matou e mata em nome de Deus. Mas definitivamente as guerras não têm nada de Deus. Nada de bom elas podem construir, já que a destruição é o seu fundamento. Da morte não pode florescer progresso e evolução. As guerras são coisas dos homens e só um entendimento de que a paz, a prosperidade, a colaboração, a solidariedade e a igualdade são as bases do Reino de Deus a ser construído aqui na Terra pode apontar para o progresso. No mundo de hoje, repleto de polarizações e desigualdades, podem-se encontrar justificativas para as guerras e até “torcer” por um dos lados. Mas independente das razões objetivas de cada lado, antes de ser a favor ou contra um dos lados, há que ser contra a guerra como método e atitude. Mas há que se destacar que falamos aqui apenas dos conflitos formalmente considerados como guerras. Há também as guerras não declaradas por inúmeras motivações, mas que geralmente têm na sua raiz as desigualdades espalhadas pelo capitalismo e os abismos sociais e culturais que elas fomentam. Em 1937 o pintor Pablo Picasso expôs pela primeira vez a obra Guernica, que retratava o horror vivido pela cidade que deu nome à obra após ser bombardeada durante a Guerra Civil Espanhola. Ao visitar a exposição, um oficial da SS alemã, responsável pelo bombardeio, teria perguntado a Picasso: “Você fez isso?”, ao que o gênio da pintura respondeu: “Não, você!”. Deus não tem nada a ver com as guerras dos homens.[1] KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 87ª edição. Rio de Janeiro. Federação Espírita Brasileira, 2006. p 395.
[2] IDEM
[3] A frase é frequentemente atribuída a Jean-Paul Sartre, mas não parece ser uma citação direta de uma de suas obras conhecidas. A ideia, no entanto, reflete o pensamento existencialista de Sartre sobre a responsabilidade individual e as consequências sociais das ações.
