Um famoso ator global, muito ligado ao movimento espírita conservador e reacionário, manifestou, mais uma vez, suas dificuldades morais e cognitivas em episódio recente e já bem conhecido da campanha do dia dos pais duma grande empresa de cosméticos.
A celebridade bolsoespírita –que agora se diz arrependida e contrária ao miliciano genocida que ajudou a eleger– disse: “é o dia dos pais, não o dia das trans”[1]. E não se limitou a isso. Quis também dar um ar intelectualizado às suas toscas e insensatas colocações, tentando teorizar sobre a “Escola de Frankfurt”[2]:
“Como todo comunista eles não tinham pressa: a ideia era criar uma série de movimentos ou ativismos, que ‘comessem’ as democracias por dentro, com a gradual erosão de seus valores.
Uma dessas propostas era a pasteurização das identidades de gênero, a destruição da família tradicional, pedra angular do Manifesto Comunista, a estigmatização da religião, resultando daí, por corolário, a destruição do sistema capitalista.
Os vários ativismos, a transsexualização como dado ‘moderno’ de comportamento sexual, a criação das ‘novas famílias’ em substituição da família ‘careta’; a divisão da sociedade em oposições radicais e antagônicas, e, lastbutnotlast, a diminuição da população através da assexualização da juventude.”
Thammy Miranda e seu filho Bento Ferreira de Miranda, fruto do casamento com Andressa Ferreira
Sim, essas tolices infundadas –porque mostram completo desconhecimento da “Escola de Frankfurt”– e preconceituosas –porque se alinham ao que de pior existe na sociedade humana, como os asquerosos pastores televisivos– expõem de forma cabal a afronta a todas as propostas de amor, respeito e acolhimento das obras kardecistas e dos ensinos de Jesus contidos nos textos evangélicos.
Não se pretende aqui, a partir desse fato singular que foi a citada campanha do dia dos pais, ovacionar ou apoiar tal ou qual empresa, pois se sabe bem que todas elas usam esse tipo de posicionamento exclusivamente para conquistar mais mercado e ampliar seu lucro a partir da exploração dos trabalhadores, todos os trabalhadores: sejam heterossexuais, LGBTs, homens, mulheres, negros, brancos, índios etc. No sistema capitalista, nenhum detentor dos meios de produção age para beneficiar a sociedade e todas as suas medidas e campanhas visam a ampliar o estoque do capital em cima dos ombros suados e cansados dos trabalhadores, até que se esgotem e sejam substituídos.
O destaque dado aqui, portanto, é o do alinhamento do bolsoespiritismo ao que há de mais reacionário, conservador e hipócrita na sociedade brasileira, mostrando que, talvez, o movimento espírita ainda não tenha chegado ao fundo do poço moral, apesar dos contundentes esforços dos seus muitos representantes, como médiuns, dirigentes e palestrantes, além, claro, de celebridades globais.
Todas as famílias, sejam de qual tipo for, devem ser respeitadas e acolhidas. Ser pai ou mãe significa algo muito além do que a mera contingência da presença de determinado sexo biológico no corpo, pois hoje se tem conhecimento da complexidade que envolve as questões de gênero, que não se resumem à fisiologia e se estendem por diversos outros campos do conhecimento humano.
O movimento espírita precisa urgentemente promover esse tipo de debate dentro de suas instituições. É preciso quebrar essa postura retrógrada que ainda insiste em sujar as propostas espíritas com esse bolorento discurso de ódio conservador.
Publicado no Facebook em 02 de agosto de 2019.Ref.:
[1] https://www.tvprime.com.br/…/ator-carlos-vereza-solta-o…
[2] https://www.facebook.com/carlos.vereza.33/posts/1028179914264482
As esquerdas e seus fundamentalismos passionais são, por vezes, cansativos e deprimentes.
A página “Espíritas à esquerda” já foi acusada de ser “cirista” ou de ser “esquerda cirandeira” quando fez críticas ao PT e ao Lula. Já foi acusada de ser “lulopetista” quando fez críticas a Ciro Gomes e ao seu PDT. Já foi acusada de ser “reacionária” quando fez críticas ao movimento identitário descolado da luta de classes. E agora, surpreendentemente –ou não!–, é acusada de ser “fascista” e “lulopetista” (de novo?) porque pede às esquerdas atenção às posições políticas de… Felipe Neto, aquele que disse estar entre Ciro e Amoêdo.
Ciro Gomes e a ex Presidenta Dilma Rousseff
Seria apenas engraçado se não fosse trágico, porque revela um fundamentalismo passional incompatível com as posições racionais que se esperam de quem se diz de esquerda.
Enfim, é vida que segue. E, à revelia das crises e dos melindres de quem quer que seja –lulopetistas, psolistas, ciristas e até mesmo “filipistas”–, a página continuará a se posicionar sempre criticamente em relação a fatos, personalidades, partidos e acontecimentos que tenham impactos políticos.
Não há aqui nenhum –absolutamente nenhum!– compromisso com partidos ou figurões das esquerdas. O compromisso da página é com a ideia de transformação da sociedade desigual em que se vive no Brasil, portanto, discute-se, critica-se e posiciona-se com a total liberdade que se espera num espaço autenticamente de esquerda.
Publicado no Facebook em 01 de agosto de 2019.
Onde houver alguma demanda, aí estará o deus-mercado, com sua mão bem visível, a suprir tais necessidades. E da oportunidade de mercado retirará todo o lucro possível, explorando os recursos humanos e naturais que atendam ao seu único objetivo.
Charge de Ribs.
Não é diferente com o mercado de drogas. Como há demanda, e muita, certamente o dono do negócio, aquele que detém os meios de produção necessários à sua viabilidade econômica, não é o favelado, não é o jovem negro da comunidade, pois esse é apenas mais um explorado ao limite da liberdade ou da morte para azeitar a engrenagem de tão rico e lucrativo mercado.
É assim que funciona o capitalismo. E enquanto a polícia ataca e mata o “pequeno-burguês” do mercado das drogas, o pequeno traficante das quebradas, o lucro, os grandes investimentos, o mercado, enfim, está nas mãos dos grandes produtores e comerciantes, que se vestem bem, têm carros e propriedades caros e usam de meios inusitados para fazer prosperar seu mercado ilegal, inclusive aviões presidenciais, desde que seus ocupantes sejam, por exemplo, milicianos bem conhecidos.
Enquanto a riqueza de tão lucrativo mercado enche as burras dos engravatados, os demais sofrem a repressão inclemente do aparelho estatal apropriado, garantindo assim que os lucros continuem nas mãos dos mesmos engravatados de sempre. Ou seja, a polícia é parte da engrenagem desse narcomercado.
E o que se vê nesse (des)governo, a partir da denúncia vergonhosa do uso do avião presidencial para o tráfico internacional de drogas, é a confirmação daquilo que dele já se esperava, afinal, uma equipe montada a partir de amigos e comparsas ligados às milícias fluminenses não se poderia mesmo ter outro resultado. Mas também evidencia ao povo brasileiro que o crime organizado se instalou definitivamente na cúpula do governo federal.
Nosso país está-se esfarelando em pó…
Publicado no Facebook 26 de junho de 2019.
O presente momento nos conclama a afiar os olhares, porque é hora de colocar em prática as teorias assimiladas no Evangelho, e ter olhos de ver.
A esperança do Brasil. Foto de Ricardo Stuckert.
O globo oscila entre erros e acertos, deixando legados de ensinamentos a partir dos resultados palpáveis das escolhas humanas, entre o bem e o mal existem inúmeras variáveis; chamemos consequências, descobertas, aprendizados, e percebamos a evolução buscando a humanidade nestes ciclos históricos, ou seja, a divindade está aqui, mas nem sempre temos visto dessa forma.
Vendo este Brasil que se desnuda primário, recuperemos a trajetória interrompida para valorizarmos ainda mais os acertos, em benefício irrestrito à vida.
Não é possível falar em caminhada evolutiva no mundo material sem levar em conta os aspectos políticos dessa movimentação sociológica, antropológica, econômica, científica, espiritual.
De território colonizado a país civilizado, sofre o Brasil grandes assédios morais oriundos das marcas de predação profundamente retalhadas na representação psicossocial de sua construção formal. Mas a vontade do seu povo é elemento decisivo no avanço ou no retrocesso das mentalidades.
Quando Luís Inácio da Silva vestiu a pobreza de esperança, houve rugir de dentes nas profundezas dos oligopólios e as potestades se aproximaram para interferir, usando para isso forças armazenadas nas estruturas. Um único homem não poderia governar um país e modificá-lo na raiz secular, mas teve determinação suficiente para possibilitar a um povo, ascensão intelectual, que por mínima que possa ter sido, moveu placas internas nas bases do inconsciente coletivo.
Houve um tempo, e eu vivi para escrever sobre ele como testemunha, no qual o povo brasileiro não resumia sua vida e sua energia apenas à manutenção das necessidades primárias.
Este passo é demasiado significativo no resumo cultural e vibracional de um povo. Esta brecha de iluminação político-cultural permitiu que olhássemos com atenção especial para as mazelas históricas, e cuidássemos não apenas de aplacar as feridas abertas, mas evitar abrir feridas novas.
Os direitos humanos se tornaram respeitados. Chegando, inclusive, muito perto de possuir peso legítimo nos processos sociais complexos, merecendo investimentos públicos e incentivos. Neste desenrolar, minorias cresceram a representatividade e as energias contrárias a este perfil evolutivo articularam o retorno ao cenário condutor, utilizando os instrumentos que há cinco séculos aprenderam a manejar, coagindo e usurpando.
Eis que a base esteve mal alimentada, e o maná do conhecimento não saciou a contento as fomes ontológicas. As referências mais fortes ainda são as mais violentas. Os condutores do atraso sabem reabrir feridas identitárias e plantar medo, porque dominam as técnicas do obscurantismo, fanatismo e servilismo.
Queda política. Voltamos a acender o fogo a lenha e lamentar. Mas já não somos o mesmo povo de antes. Aquelas placas remexidas não voltarão ao lugar superado e a sede de futuro impulsionará uma movimentação mais firme, e o que não é possível prever com segurança ainda é a capacidade de retrocesso dos que estão no poder formal, pois são afeitos ao uso de recursos sanguinários e talvez, por isso, seja tempo de olharmos com mais intensidade para os caminhos passados, identificando os acertos entre os muitos erros.
A esperança ainda mora no Brasil.
Coluna Sociologia espírita por Ana Claudia Laurindo
Leia a coluna anterior clicando aqui.Publicado no Facebook em 23 de junho de 2019.
Sim, “religião também é política”. E deixamos aqui essa reflexão feita por Sheila Walker e Chucho Garcia em entrevista ao jornal quando do “1º Encontro de Povos de Terreiros Ègbé – eu e o outro”, realizado nos dias 15 e 16 de junho, em Belo Horizonte, MG.
Reflexão feita por Sheila Walker e Chucho Garcia no “1º Encontro de Povos de Terreiros Ègbé – eu e o outro”
E fica a dica para os muitos que vêm à nossa página dizer que religião e política não se misturam ou, particularizando, que não deveríamos misturar o espiritismo à política.
Para nós, da página, e que isso fique BEM claro, não há como dissociar o espiritismo da realidade social em que vivemos, portanto, espiritismo É política na sua essência, espiritismo e política são indissociáveis. E mais, aqueles que pretendem pregar um suposto espiritismo apolítico fazem justamente a política sem consciência, sem buscar a reflexão sobre a realidade, portanto é a pior política possível para as pessoas trabalhadoras que sofrem a realidade da exploração cotidiana de seu suor e de sua alma.
Somos seres integrais e não há como pensar um espiritismo inócuo, apolítico e insosso. Espiritismo é para seres humanos, para trabalhadores, mulheres, pobres, homens, negros, LGBTs, índios, sem-teto, sem-terra, enfim, para os que vivem no mundo real, sofrem e precisam de consciência, organização e consolo.
Para nós, não há como ser diferente disso.
Texto do Portal Geledés.Publicado no Facebook em 30 de junho de 2019.
40 anos da morte de J. Herculano Pires. Para Herculano Pires, “o espírita tem, como cidadão, o direito e o dever de intervir na vida civil do seu país, de participar dos pleitos eleitorais, tanto votando como sendo votado.” E “criaríamos uma ilusão antiespírita se acreditássemos na possibilidade dessa abstenção política alvitrada por alguns confrades em diversas ocasiões.”
José Herculano Pires, “Apóstolo Do Espiritismo”
Ele lembra a imagem do rev. Stanley Jones, em Cristo e o Comunismo, de que o marxismo é o chicote do templo para expulsar os vendilhões. Mas que pode a humanidade torná-lo dispensável, bem como a qualquer corrente esquerdista revolucionária, se optar pelo caminho da espiritualidade, ou seja, se se afastar do “individualismo capitalista, que a tudo corrompe e desvirtua”.
Propõe Herculano o que chamou “movimento do Reino”. Uma resposta à situação incômoda vivida, segundo ele, pelo verdadeiro espírita em face das influências perigosas exercidas pela política e pelos partidos sobre espíritas e suas associações; uma solução intermediária entre dois extremos: transformar o movimento espírita em partido político, ou fundar um movimento político que arregimenta espíritas enquanto está à margem do espiritismo.
Este movimento do Reino, sem ser necessariamente integrado apenas por espíritas, mas por indivíduos com filiação política ou não, se constituiria por todos que aceitassem seus “objetivos sociais”, sua “reivindicação social e moral, com vistas ao estabelecimento de uma ordem mundial baseada na justiça, no equilíbrio, na fraternidade e no entendimento.”
Segundo Herculano, “teria de ser um movimento socializante, contrário ao individualismo capitalista”, e que “poderia começar pelo estabelecimento de um sistema cooperativista de natureza cristã, cujas unidades seriam as pedras fundamentais da nova ordem econômica.”
Se, por um lado, tornar o espiritismo uma derivação política de si mesmo embaraçaria ou prejudicaria de vez a execução de sua tarefa divina de trabalhar o coração dos homens, por outro, a dispersão dos espíritas pelos vários partidos políticos equivale, para Herculano, a uma demonstração de incoerência, de uma falta de objetivo político e social na própria doutrina espírita, que o têm.
Portanto, Herculano Pires propõe um caminho que, se bem refratário às manipulações demagógico-partidaristas de direita e de esquerda, faz questão de se afirmar socializante e contra o individualismo capitalista, que a tudo corrompe e desvirtua; caminho que, visando atingir uma nova ordem econômica mundial mediante um sistema cooperativista (e cristão), decerto já não aceita a denominação de capitalismo.
Utopia? Bem… Isso caberia numa longa conversa, que eu adoraria ter com Herculano, regada a café.
(Cf. PIRES, Herculano J. O Sentido da Vida. In: Sociologia espírita, pp. 73/81. São Paulo: Paidéia, 2005.)
Por Sergio Aleixo em 09 de março de 2019.
“Mas é infâmia demais… Da etérea plaga Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!”
Quando vi Caetano num vídeo feito no México, pálido e trêmulo, pedindo para que se tomassem providências para proteger os Wajãpis no Amapá, que estavam sendo atacados… vi que não podia falar de amenidades, hoje, nessa coluna. Aliás, não temos podido mais falar de amenidades, e eu não tenho me eximido de tocar nas feridas abertas. Qualquer pessoa que tenha a oportunidade e a força de escrever, de falar, de gritar, seja na rua, no Face, no Twiter, num blog ou meramente para os amigos, não pode se calar, não pode se isentar diante das calamidades a que estamos assistindo todos os dias.
Sentimos facadas no peitos todos os dias
As facadas que mataram o cacique dos Wajãpis são as mesmas que cortam a floresta. São parentes dos tiros que mataram Marielle, que teria feito 40 anos na semana passada. As facadas estão nas palavras do presidente (sic) que ameaçam um jornalista que está fazendo seu trabalho e mostrando ao mundo a sujeira do judiciário. As facadas não são as que ele supostamente levou, as que o livraram dos debates, as que não o fizeram sangrar e dadas por alguém que já está solto.
As facadas são as que sentimos todos os dias no peito, quando lemos sobre o desmonte do país, quando vemos que há um mês estão presos em São Paulo, por prisão política, Preta Ferreira e companheiros, por lutarem por um teto pelos sem teto…, quando lembramos de Lula preso no frio de Curitiba, quando está público e notório que sua condenação foi fruto de um ato inquisitorial.
[…]
Facadas são as que se afundam em nosso coração, ao vermos a ciência, as universidades, as artes, todo nosso patrimônio cultural, tão duramente construído, estar na mira de terraplanistas, que votam na ONU junto com as ditaduras mais retrógradas do planeta.
Estamos assistindo a um projeto de terra arrasada e a impotência dos que têm lucidez para enxergar isso está levando muito gente à desesperança, ao desespero, à depressão. Sou diariamente procurada por gente, que conheço ou não, para o desabafo do total desencantamento.
Pois aqui evoco Kardec, uma das minhas inspirações. No Livro dos Espíritos, há uma pergunta e uma resposta que se adequam muito bem ao momento presente:
– Por que no mundo, os maus exercem maior influência do que os bons?
– Pela fraqueza dos bons. Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos; quando quiserem, terão a preponderância.
Onde estão os brasileiros solidários, os humanistas, os que acreditam que é preciso respeitar a vida, praticar a justiça imparcial e diminuir a miséria, a violência e, acima de tudo, preservar o Brasil como nação soberana e unida? Estão intimidados, paralisados, atônitos? Por que não se faz uma grande frente democrática nacional, unindo políticos suprapartidariamente, artistas, intelectuais, juristas, movimentos sociais, religiosos progressistas e também militares que ainda tenham um pouco de amor à pátria, e se organiza uma resistência contra a barbárie? As diferenças agora não importam. O passado de dissenções agora não importa. É preciso uma ação emergencial, para nos deter à beira do abismo.
Mas para todos nós no dia a dia da desesperança, o que nos cabe fazer? A resistência diária é nos solidarizarmos mutuamente, trabalhar nas bases para socorrer, consolar, ajudar. Não desistirmos da música, da poesia, da arte, da prece, do amor e da companhia das pessoas que nos fazem bem. Porque precisamos reunir forças, permanecermos saudáveis psiquicamente, até que a tempestade passe e enxerguemos a luz no final de não sei quantos anos.”
Por Dora Incontri para o Jornal GGN em 29 de julho de 2019.O Jornal De Todos os Brasis – O Jornalista Luís Nassif lidera equipe Do Jornal GGN. Publicado no Facebook em 31 de julho de 2019.
Tomou posse o primeiro governo eleito de extrema-direita do Brasil. Com ele, não há negociação alguma possível. E nem ele procura alguma forma de negociação com aqueles que não comungam seus credos, que não louvam seus torturadores e que não acham que “é duro ser patrão no Brasil”. Não há razão alguma para se enganar e acreditar em certa normalidade: a lógica que irá imperar daqui para frente é a da guerra. Pois isto não é um governo, isto é um ataque.
Já o discurso do sr. Jair Messias foi claro. Questões econômicas e sociais estiveram em segundo plano enquanto as duas palavras mais citadas eram “deus” e “ideologia”. Deus estava lá, ao que parece, para nos livrar da “crise moral” em que a república brasileira se encontra. Isto, diga-se de passagem, há de se conceder ao sr. Jair Messias: vivemos mesmo uma crise moral profunda. Ela está instalada no cerne do governo brasileiro. Pois como justificar um governo cujo ministro da justiça ganhou seu cargo como prêmio por ter colocado o candidato mais popular a presidente nas grades e pavimentado a estrada para a vitória de seu atual chefe? Como descrever um governo que já nasce com ministros indiciados e um réu confesso que se escarnece da população brasileira ao afirmar “já ter se acertado com Deus” a respeito de seus malfeitos? Como descrever um presidente cujo motorista foi pego em operações financeiras absolutamente suspeitas e se negado duas vezes a comparecer à justiça sem sequer ser objeto de condução coercitiva?
Mas o destaque evidente é a mais nova luta do estado brasileiro contra a “ideologia”. Enquanto uma de suas primeiras medidas governamentais foi diminuir o valor previsto do aumento do salário mínimo, mostrando assim seu desprezo pela sorte das classes economicamente mais vulneráveis, o sr. Jair Messias convocava seus acólitos à grande cruzada nacional para lutar contra o socialismo, retirar das escolas o lixo marxista e impedir que a bandeira brasileira seja pintada de vermelho.
Alguns podem achar tudo isto parte de um delírio que normalmente acomete leitores de Olavo de Carvalho. Mas gostaria de dizer que, de certa forma, o atual ocupante da presidência tem razão. Sua sobrevivência depende da luta contínua contra a única alternativa que nunca foi tentada neste país, que nunca se acomodou nem às regressões autoritárias que nos assolam, nem aos arranjos populistas que marcaram nossa história. Pois ninguém aqui tentou expropriar meios de produção para entregá-los à autogestão dos próprios trabalhadores, ninguém procurou desconstituir o Estado para passar suas atribuições a conselhos populares, aprofundando a democracia direta, e nem levou ao extremo necessário a luta pelo igualitarismo econômico e social que permite à todos os sujeitos exercerem sua liberdade sem serem servos da miséria e da espoliação econômica.
Ou seja, a verdadeira latência da sociedade brasileira que poderia emergir em situações de crise como esta é um socialismo real e sem medo de dizer seu nome. A sociedade brasileira tem o direito de conhecê-lo, de pensar a seu respeito, de tentar aquilo que ela nunca viu sequer a sombra. Ela tem direito de inventá-lo a partir da crítica e da autocrítica do passado. Mas contra isto é necessário calar todos os que não se contentam com a vida tal como ela nos é imposta por essa associação macabra de militares, pastores, latifundiários, financistas, banqueiros, iluminados por deus, escroques que tomaram de assalto o governo e que sempre estiveram dando as cartas, de forma direta ou indireta.
Assim, quando Jair Messias fala que irá lutar contra o lixo marxista nas escolas, nas artes, nas universidades, entendam que esta luta será a mais importante de seu governo, a única condição de sua sobrevivência. Pois ele sabe de onde pode vir seu fim depois de ficar evidente o tipo de catástrofe econômica e social para a qual ele está nos levando.
Por Vladimir Safatle para a Folha de São Paulo em 5 de janeiro de 2019.
Publicado no Facebook em 05 de janeiro de 2019.
Juliana Paula Magalhães
A página “Espíritas à esquerda” anuncia uma nova coluna periódica de opinião sobre filosofia e espiritismo: agora também teremos entre nós, de forma regular, os textos maravilhosos da nossa querida Juliana Paula Magalhães. Juliana é paulistana, doutoranda e mestra em filosofia e teoria geral do direito pela Faculdade de Direito da USP e bacharela em direito pela mesma instituição. É também autora da obra “Marxismo, humanismo e direito: Althusser e Garaudy”, publicada pela Editora Ideias & Letras.
Sua coluna de opinião na nossa página se chamará “Espiritismo, filosofia e sociedade”. Bem vinda, Juliana!
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Kardec: ciência, mediunidade e transformação social
O recém-lançado filme “Kardec: a história por trás do nome” é uma brilhante obra cinematográfica, bastante fiel aos fundamentos do legado do mestre lionês. Um importante interregno da vida do professor Rivail –que passou a adotar o pseudônimo Allan Kardec ao ter conhecimento de uma encarnação anterior como sacerdote druida– é retratado, demonstrando a verve de educador e de intelectual combativo do fundador do espiritismo.
Interessante notar que a estreia ocorreu em momento extremamente oportuno da história nacional e mundial. Em um período no qual conservadorismo e reacionarismo campeiam, o filme apresenta com primor o espírito iluminista e científico de Kardec. Coincidentemente, 16 de maio de 2019 foi o dia seguinte às históricas manifestações pela educação em nosso país e o filme inicia justamente apresentando o professor Rivail indignado com os rumos que a educação estava tomando na França, sob o governo de Napoleão III.
O espiritismo, diferentemente do que muitos pensam, não se trata de um movimento iniciado por um caráter religioso, mas sim eminentemente científico. O cético Rivail ficou bastante intrigado com os fenômenos das “mesas girantes”, na época bastante comuns nos salões franceses. De início, ele acreditou tratar-se de pura prestidigitação, no entanto, ao investigar com cuidado, percebeu que as mesas, na realidade, eram comandadas por inteligências desencarnadas, mediante o concurso de médiuns. Daí surgiu todo o edifício teórico do espiritismo.
O rigor científico de Kardec em suas pesquisas era notável e não deixava espaço para embustes e fanatismos. O culto aos médiuns e as tolas crendices –tão comuns, infelizmente, no movimento espírita brasileiro– não pertenciam ao horizonte do mestre lionês. A comunicação de espíritos por meio de apenas um médium não era suficiente para embasar os avanços teóricos da codificação espírita. Kardec recorria a diversos médiuns, das mais diferentes idades e formações e em localidades distintas, indagando as mesmas questões e obtendo as mesmas respostas e esse era um critério importante, ao lado do cuidado metodológico, para que os textos fossem publicados.
Em uma época anterior às descobertas de Freud, Kardec pode, em certa medida, ser considerado uma espécie de precursor da psicanálise, por se dedicar ao estudo de manifestações obtidas de maneira inconsciente. Enquanto a psicanálise limita sua abordagem ao horizonte materialista, a perspectiva espírita avança no estudo das manifestações de inteligências desencarnadas, sem desconsiderar os aspectos psíquicos dos médiuns. Por outro lado, na época, Kardec ainda não dispunha do ferramental teórico da psicanálise, o que, em alguma medida, impossibilitou que ainda maiores avanços fossem obtidos. A partir daí já podemos perceber a fecundidade e a importância fundamental de um diálogo entre espiritismo e psicanálise, o qual, contudo, em geral, é negligenciado.
O movimento espírita, cuja maior expansão ocorreu no Brasil, mostrou-se, em larga medida, marcado por atavismos religiosos, por uma veneração aos médiuns, por argumentos de autoridade, e por indivíduos que buscam promoção pessoal às custas do espiritismo, buscando vender uma imagem de “seres espiritualizados” e privilegiados, narrando constante contato com espíritos superiores, satisfazendo, dessa maneira, o próprio orgulho ao se sentirem superiores aos demais. Há ainda aqueles que procuram vantagens de ordem material, disfarçados de beneméritos, de médiuns ou de intelectuais, vivendo às custas do espiritismo, mercantilizando a mediunidade e os ensinamentos espíritas.
Nesse cenário de horrores, o resgate da cientificidade que sempre pautou as atitudes de Kardec é indispensável. É necessário que o estudo das manifestações espíritas seja feito com rigor e cuidado. O edifício teórico do espiritismo precisa se consolidar e avançar cada vez mais, tanto em seu aspecto científico quanto filosófico, pois, como dizia Kardec, “fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade”.
A transformação social é um horizonte que igualmente deve pautar os caminhos do espiritismo, haja vista que os incômodos diante das desigualdades e das injustiças sociais estiveram presentes no pensamento espírita desde sua origem. O filme é muito feliz ao mostrar a preocupação social de Kardec. Contemporâneo de Karl Marx, o célebre descobridor do materialismo histórico, Rivail descortinou para nós o continente da espiritualidade, demonstrando que, ao lado das determinações materiais, a realidade espiritual também exerce influência considerável nos rumos da humanidade terrena. Espiritismo e marxismo, embora com ferramentas distintas, apontam para o mesmo norte de ruptura com as explorações e opressões que se apresentam em nosso mundo.
Há um belo diálogo no filme, no qual uma das jovens médiuns que colaboravam com Kardec lhe diz: “não se pode apagar uma luz que já foi acesa”. Trata-se de uma sublime verdade. Contudo, diante dos rumos que a grande massa dos espíritas tem tomado na atualidade, é forçoso constatar que o combustível dessa luz talvez não tenha condições de vir do movimento espírita, mas de cientistas, filósofos, intelectuais e lutadores das causas sociais tão céticos quanto o professor Rivail…
Publicado no Facebook em 24 de maio, 2019.
Coluna Espiritismo, filosofia e sociedade por Juliana Paula Magalhães
A temperança é uma das quatro virtudes cardinais, caracterizada pelo domínio de si e pela moderação dos desejos.
Nos últimos anos o Brasil tem-se convulsionado e o tecido social em seu fino entrelace ameaça romper-se com consequências imprevisíveis. Em momentos assim urge evocarmos a temperança, essa virtude anda em falta, nas mentes e corações que se deixam levar pela enxurrada de informações bombardeadas diariamente ao sabor dos interesses de pessoas e grupos.
O mais novo capítulo dessa história, é o furo de reportagem do The interceptBr, sobre os bastidores da operação Lava Jato, operação que vem influenciando as decisões políticas no país nos últimos 5 anos. Diante das evidências de conluio entre os procuradores do Ministério Público da Lava Jato e o ex-juiz Moro, responsável pelo julgamento dos acusados despertou fortes emoções.
Por um lado, os defensores do ex-presidente Lula, que sempre afirmaram que ele era inocente e preso político, entraram em euforia, por outro lado os defensores do ex-juiz Moro entraram no modo ódio à máxima potência. Observando o comportamento de ambos os lados, veio-me à mente a imagem da temperança, palavra do vocabulário filosófico, mas também carta dos arcanos maiores do Tarô. Em ambos os campos, tanto da filosofia quanto da tarologia, temperança tem o significado de equilíbrio, serenidade, domínio sobre si mesmo, moderação dos desejos.
A sociedade brasileira está sob ataque, vem sendo bombardeada por informações, verdadeiras e falsas, é sempre bom lembrar, em especial na política, com graves consequências na vida de milhões de pessoas. O momento pede temperança, vamos sair da euforia e do ódio desmedido e buscar um ponto de calma e de equilíbrio para encontramos um caminho até a luz porque a noite já se faz longa demais e as pessoas estão doentes.
A negação da realidade é um dos mecanismos de defesa, contra o sofrimento e o trauma, mais comuns entre os seres humanos. A realidade da cisão provocada pelos que realmente detêm muito poder e nenhum escrúpulo adoeceu seriamente o povo brasileiro. O medo se estabeleceu e com ele veio à tona o que há de pior no ser humano, associado à uma epidemia de obsessão espiritual, em função da baixa vibração que a desesperança, a impotência e o ódio fomentaram.
Conclamo os espíritas e não espíritas, todos e todas que desejam encontrar um caminho que retire a sociedade brasileira dessa trilha para o abismo, a evocação do espirito da temperança, a calma e o equilíbrio diante do caos, só os que se pacificarem interiormente manterão a sanidade. Nada de euforia nem de ódio insano com os vazamentos das conversas entre juiz e procuradores da Lava Jato, vamos analisar os fatos à medida em que eles vierem à tona e a partir daí nos posicionarmos, sem revanchismos, sem tripudiar em cima do outro, nem ironizar seus anseios e esperanças.
As pessoas se apegaram a seus heróis por sentirem medo, desesperança e descrença, esse estado de ânimo do povo brasileiro foi, em minha opinião, orquestrado, não foi ao acaso, foi um projeto daqueles que pensam que mandam no mundo para usurparem as riquezas e deixarem a devastação e a lama para os brasileiros. A técnica é dividir para dominar, só com muita temperança seremos capazes de perceber isso e reverter este cenário.
Muitos podem odiar Lula e deveriam se perguntar a razão interna de tanto ódio, porque o ódio é um veneno que mata quem o sente. Mas mesmo para essas pessoas que o odeiam, ele está tendo um comportamento digno de ser observado. Eu assisti à sua primeira entrevista após a prisão e algumas coisas me chamaram atenção: eu vi um homem de cabeça erguida e não uma vítima; sua fala é de quem tem sede de justiça, mas não de vingança; às vezes indignado, mas sem ódio; calmo e ponderado, defendendo-se sem atacar.
Entretanto tenho lido e ouvido muitas pessoas que acreditam na sua inocência e são seus defensores se mostrarem cheios de ódio e desejo de vingança, e passaram, a partir do desmascaramento da Lava Jato, a tripudiar daqueles que nela acreditaram. Será que esse é o caminho? Será que isso não nos torna aquilo que combatemos? A ignorância deve ser esclarecida, os equívocos compreendidos e corrigidos.
Calma, serenidade, ponderação, equilíbrio, reconciliação e amor talvez sejam os antídotos para sairmos dessa longa noite. Porque por mais longa que seja uma noite ninguém segura o alvorecer.
Essa foi a coluna Dialogando com Isabel GuimarãesPublicado no Facebook em 15 de junho, 2019.
Leia a coluna anterior clicando aqui.