Mortes morridas e mortes matadas no Espiritismo – E o “pessoal dos Direitos Humanos”?

Elizabeth Hernandes – EàE DF

Dia de execução de bandido famoso é dia de falar mal “desse pessoal dos direitos humanos”. Onde estavam na hora em que o bandido matava pais de família? Por que só aparecem quando a polícia executa os bandidos? Essa última pergunta talvez seja respondida pelo fato de que a polícia divulga com mais frequência as suas ações, enquanto os bandidos tentam escondê-las.

Foto de Clay Banks / Unsplash

Os Direitos Humanos estão onde sempre estiveram: ao lado dos humanos, defendendo humanos valores e opondo-se à barbárie cometida por qualquer tipo de bandido.

De onde saiu essa ideia de que defender direitos humanos significa ser a favor de atos ilícitos, imorais ou as duas coisas? Muito provavelmente essa ideia é difundida pelos que se beneficiam com a barbárie.

Certa vez, numa palestra de um advogado muito bem sucedido e fascinado pela cultura de “honestidade e horror à mentira” – palavras dele, dado que há controvérsias – vigente nos Estados Unidos, ele contava, orgulhosamente, que defendera o Estado contra um egresso do sistema carcerário que processou a Pátria, alegando que, no presídio, dormia com o rosto próximo à privada. “E onde mais deveria dormir um sentenciado? Por que o pessoal dos Direitos Humanos não leva pra dormir na casa deles?”

Quando você não defende direitos humanos, parte do princípio de que as pessoas se dividem em classes ou castas, talvez com variadas gradações, mas com a certeza de que você e os seus localizam-se num dos patamares superiores

Será impossível que um membro de uma família branca, abastada e letrada cometa um crime? De todo modo, se esse menino ou menina problemático (qualquer que seja a idade) vier a cometer um deslize, terá brilhantes causídicos à disposição.

Talvez um bacharel não cogite a hipótese de um parente vir a dormir – uma noite que seja – num cárcere. Mas é bom lembrar que a vida é imprevisível, doutor… E repleta de seres humanos com os quais temos de conviver. Melhor que esses “outros” tenham garantidos direitos fundamentais, como condições dignas de sobrevivência ou o devido processo legal.

É muita sorte da sociedade quando uma pessoa, que dormiu anos com a cara perto da privada, num equipamento estatal que está legalmente obrigado a preservar sua vida e integridade, está disposta a simplesmente processar o Estado. Haveria a probabilidade de essa pessoa sentir muito ódio. E tal sentimento ser jogado na cara ou na vida do primeiro que encontrasse, já que sentir ódio e concretizá-lo está tão fácil e acessível, nesse país.

Hoje todo mundo odeia alguém: políticos, empresários, blogueiros, a imprensa, os “comunistas”, o vizinho, os artistas etc. E alguns odeiam, de alma, coração, fígado e dedo indicador em posição de gatilho, o “pessoal dos Direitos Humanos”. E não vamos esquecer do ódio ao misterioso Lázaro, o assassino assassinado1, exemplo filmado de morte matada.

Por que não odiamos, por exemplo, Joseph Safra, bilionário libanês-brasileiro, morto em berço esplêndido, cuja fortuna fora estimada em US$ 18 bilhões? Ele controlava um conglomerado bancário e financeiro com ações em 19 países e foi acusado, numa operação da Polícia Federal, de pagar R$ 15,3 milhões em propinas.

De acordo com a imprensa, interceptações telefônicas e fotografias mostravam toda a movimentação de um provável preposto do grupo Safra, negociando a “gorjeta” que valeria a dispensa de 1,8 bilhão de reais em tributos. O bilionário foi inocentado. Não houve como provar sua relação com o corruptor, que aparece em fotos voltando para a sede do grupo Safra, após o conluio com os corrompidos. Embora o grupo Safra tenha-se beneficiado na negociata, caso ela tenha-se concluído, a Joseph Safra – que certamente não passará pelo buraco de uma agulha antes de um camelo – não se aplicou nem mesmo uma teoriazinha de “domínio do fato”. Ele tomara o cuidado de não ser sócio e nem empregador do negociador.2

Então um bilionário foi inocentado e… ninguém bateu panelas? Por quê? Seria porque “a conversa não chegou na cozinha, a plebe ignara não tomou conhecimento”?

E quantos direitos humanos poderiam ser garantidos com 1,8 bilhão de reais, se investidos em programas sociais? Só pra lembrar: saúde, educação e segurança são direitos humanos.

E o que diria o cidadão de bem?

Ora, ora, ora. Lá vêm esses comunistas a falar em programas sociais. A continuar nessa toada, logo vão chamar de genocídio a mortandade de mais de meio milhão de brasileiros só porque o governo atrasou a compra de vacinas, desmontou o sistema de vacinação3, que era referência internacional e não adotou estratégias efetivas para o fechamento de cidades, como ocorreu em países que já estão voltando a um modo de vida sem pandemia. Ora, ora, ora, direitos humanos. Só servem para beneficiar ‘os pês’: pretos, pobres, preguiçosos, petistas…”

Será que nós, os brasileiros, somos assim tão “brancos”, ”ricos”, “diligentes e civilizados”, a ponto de poder dispensar o trabalho desse “pessoal dos direitos humanos”? E será que acreditamos em teorias deterministas para a hora da morte, mesmo quando mais de meio milhão de compatriotas morre por uma doença para a qual há vacina e medidas outras de prevenção?

Há espíritas argumentando que “cada um tem sua hora” e citando os casos de desencarnações coletivas previamente combinadas etc. Sobre isso, um artigo de Carlos Augusto Parchen4 analisa questões, de O Livro dos Espíritos, que tratam da determinação da duração da vida. O articulista conclui que “Pode-se, portanto, afirmar que existe “um momento da morte” (ela ocorrerá inexoravelmente), mas não “o momento da morte” (ou seja, que ela está determinada e programada previamente).

A hora de morrer também é sobre direitos humanos. O direito de fruir a vida em toda a sua extensão e não ter a encarnação abreviada por fatores externos à responsabilidade pessoal. Na literatura científica, tais fatores são classificados como Determinantes sociais de Saúde.5

Direitos Humanos – e o respectivo “pessoal” – não seriam necessários num país que vivesse deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, em pleno estado de ordem e progresso. Não é o caso do Brasil.

É preciso valorizar o “pessoal dos direitos humanos” porque eles costumam empenhar a própria vida para defender as nossas vidas e, às vezes, perdem as vidas deles ou a de pessoas que lhes são caras.6

O Espiritismo não permite atitudes à moda do avestruz. Há vasta literatura que impede o impulso de enfiar a cabeça sob a terra, quando a realidade está feia de se encarar.

Se alguém aprova execuções sumárias – mesmo de perigosos assassinos – está relativizando o valor da vida, está aceitando que mortes matadas e mortes morridas são a mesma coisa. Se acredita em sintonia espiritual, está vibrando na mesma faixa da pessoa executada, bem como da dos executores. Se contribuiu, por ação ou omissão, para a constituição das autoridades que carregam nas costas a conta de mais de meio milhão de mortes que poderiam ser evitadas, é corresponsável. E se, depois de constatados tais sentimentos, continua se dizendo cristão, não entendeu nada sobre a religião inspirada nos ensinamentos de um palestino inocente, que foi denunciado, torturado e executado dentro de um processo legal conduzido pelas autoridades da época.

A boa notícia é a lição de misericórdia que nos deixou o Palestino. Reconcilie-se, principalmente consigo mesmo, enquanto está a caminho.

Orgulho de ser

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Por Jean Paul – @umgayespirita Foi no dia 28 de junho de 1969, no bar nova-iorquino Stonewall Inn, que um grupo de pessoas gays, lésbicas, transexuais, travestis e drag queens se rebelaram contra a invasão, represália e prisão por parte das autoridades policiais. Dezenas de pessoas feridas apenas por lutarem pelo seu direito de existir e se divertir. A partir de então, dezenas de protestos foram organizados, nos dias seguintes, em favor dos direitos gays (exclusivamente chamado assim à época) em várias cidades norte-americanas. No ano seguinte (1970), foi realizada a Primeira Parada do Orgulho Gay para lembrar e fortalecer o movimento que vinha ganhando aderência pela comunidade e visibilidade. Assim, a rebelião de Stonewall ficou conhecida como o “marco zero” do movimento por igualdade civil da população LGBTQIAP+.
Foto Mick De Paola/Unsplash
De lá pra cá, muitos direitos foram garantidos, muitas teorias foram refutadas (como a de se tratar a homossexualidade e a transgeneridade como doenças), maior visibilidade e representatividade foram tomando conta das mídias. Ainda assim, a homossexualidade é tratada como crime em 69 países, dos quais 13 prevêem pena de morte para homossexuais; pelo 12º ano consecutivo (em 2020), o Brasil é considerado o país que mais assassina transexuais no mundo; a cada 36 horas uma pessoa LGBTQIAP+ é vítima de homicídio ou suicídio no Brasil; direitos fundamentais como o casamento, a doação de sangue e a mudança de nome social em documentos de identificação civil ainda são negados em inúmeros países à comunidade LGBTQIAP+. A luta, portanto, está longe de terminar. Para quem se identifica como LGBTQIAP+, conhecer a história do movimento é compreender o quanto já conquistamos e também o quanto ainda precisamos conquistar; é respeitar as dores e lutas do passado, reconhecendo o privilégio de alguns direitos já garantidos no nosso país, sem deixar de ter a consciência de que ainda estamos distantes da igualdade civil plena; é saber que existir enquanto fora do padrão é resistir por si só. Para quem não se identifica como LGBTQIAP+, porém deseja um mundo onde todas as pessoas possam viver com justiça e liberdade, se posicionar enquanto aliado(a) deste movimento é uma grande oportunidade de provocar as transformações necessárias para a construção desse mundo desejado. Enquanto espíritas, portanto, sabemos que “são chegados os tempos em que se hão de desenvolver as ideias, para que se realizem os progressos que estão nos desígnios de Deus. Têm elas de seguir a mesma rota que percorreram as ideias de liberdade, suas precursoras. Não se acredite, porém, que esse desenvolvimento se efetue sem lutas. Não; aquelas ideias precisam, para atingirem a maturidade, de abalos e discussões, a fim de que atraiam a atenção das massas”. (O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo I – Não vim destruir a Lei > Instruções dos Espíritos – A nova era.)  Assim, cabe a nós somar a essa luta, enquanto cristão, enquanto co-criadores e enquanto conscientes de que a missão de nós Espíritos na Terra é “melhorar as instituições, por meios diretos e materiais”. (O Livro dos Espíritos > Parte segunda – Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos > Capítulo X – Das ocupações e missões dos Espíritos – questão 573) Enquanto LGBTQIAP+ espíritas, sabemos que nossa luta é também a de modificar as próprias instituições espíritas para que sejam verdadeiramente cristãs, acolhedoras a todas as pessoas, abertas à inclusão da diversidade nos seus postos de trabalho, aniquiladoras dos preconceitos e incompatíveis com os tabus. Sabemos, também, que a nossa existência é de orgulho, daquele que olha para si e se percebe igualmente capaz de amar e servir, trabalhar e abençoar, afirmando radicalmente a dignidade da nossa própria existência. REFERÊNCIAS

Tem cordel espírita no nosso programa de literatura

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Na quarta-feira, dia 30 de junho, 20h, acontece mais uma edição do nosso programa de entrevista LITERATURA ESPÍRITA. O programa é transmitido ao vivo pelas nossas redes sociais: Facebook, Twitter e YouTube.
Nessa nova edição entrevistamos o autor de inúmeros cordéis espíritas e não espíritas, Hélio Gomes Soares.
Hélio Gomes Soares, que é membro do EàE-RN, é artista completo, pois desenhista, pintor, letrista de músicas, poeta e, claro, autor de inúmeros volumes de literatura de cordel sobre espiritismo, educação, política, saúde e entretenimento de forma geral. É também um dos fundadores da Academia Norte-Rio-Grandense de Literatura de Cordel (ANLIC) e da Associação Cultural Casa do Cordel. Hélio é formado em Ciências da Religião pela UFRN e lá também fez especialização em Educação Holística e Qualidade de Vida.

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Em live sobre Prática da Educação Popular, EàE lança site e projeto de organização popular

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Na noite do dia 26 de junho o Coletivo Espíritas à Esquerda lançou oficialmente seu site e seu projeto de educação e organização popular, os NEPs, Núcleos Espíritas Populares. O evento online contou com a participação da Deputada Federal Natália Bonavides (PT/RN), das vereadoras de Natal/RN Brisa Bracchi e Divaneide Basílio, ambas do PT, além de Kelli Mafort , membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST.leve espiritas a esquerda

As convidadas abordaram o tema cotejando seu conhecimento das concepções de Paulo Freire com as suas experiências nos mandatos parlamentares e nos movimentos populares. Em todas as manifestações houve referências à importância do ato de ouvir como ponto de partida para uma ação construtora da autonomia, da solidariedade como valor central do processo, e da esperança como ingrediente humanizante e agregador.

A íntegra do debate está disponível aí abaixo e vale cada segundo. Além do debate, houve uma breve apresentação dos membros da coordenação do Coletivo Espíritas à Esquerda. E uma breve apresentação do projeto dos Núcleos Espíritas Populares -NEPs.

Agradecimento aos participantes da live

Agradecemos ao Mestre Paulo Freire por estar presente na transmissão do evento de inauguração deste portal, por meio das experiências, lutas e juventudes de Nátália Bonavides, Brisa Bracchi, Divaneide Basílio e Kelli Mafort.

Poderíamos remeter uma cartinha formal e individual, mas o movimento Espíritas à Esquerda é do informal e do coletivo.

Estamos felizes por iniciar o portal falando de educação popular e da imortalidade de Paulo Freire que vive, inclusive, em quem tenta combater o seu legado. Seria esse o sentido de amar aos inimigos?

O fato é que o pensador brasileiro mais citado no mundo, tem sido lembrado em nossas terras, por bons e por maus motivos. Mas o seu legado, a partilha amorosa do conhecimento, será honrado por todos e todas que almejam um mundo melhor.

Estamos esperançados. Seja pela juventude das palestrantes ou pelo compartilhamento de saberes dos que são jovens há mais tempo.

Seguimos juntos numa luta inspirada por justa raiva e jamais por ódio.

O ódio paralisa e traz estagnação. A justa raiva nos impulsiona a interferir no mundo, que está sempre sendo, como nos disse o Professor Freire.

Pois que seja justo e bom para todes, acolhendo as singularidades de cada ser.

Gratidão ao mestre Freire que nos falou por meio dessas bravas mulheres.

ASSISTA AO VÍDEO COMPLETO

O espiritismo é nada

Por Marcio Sales Saraiva Já ouvi alguns palestrantes, em casas espíritas, afirmarem que o espiritismo “explica todas as coisas”. E isso não é verdade, aliás, seria impossível. No universo em que vivemos existe uma dimensão de mistério que somos incapazes de explicar porque nem mesmo entendemos. Em “O livro dos espíritos”, por diversas vezes, Allan Kardec esbarrou no desconhecimento que os espíritos luminosos apresentavam sobre certas questões colocadas. E isso significa que os espíritos, somente por terem desencarnado, não se transformam em sabe-tudo. Eles são apenas o velho ser humano, sem a casca da carne, apodrecida no túmulo. A questão dezessete é um exemplo do que estou dizendo. Kardec pergunta se os seres humanos podem conhecer “o princípio das coisas”, isto é, a origem de si mesmo, o começo do universo material, a origem do mal etc. A resposta foi simples e direta: “Não”. E os espíritos colocaram na conta de Deus, uma concessão ao antropomorfismo, talvez para ficar mais fácil de entender. Disseram que isso não é possível porque “Deus não permite que tudo seja revelado” para os seres deste mundo em que estamos. Há um limite. Mesmo quando os espíritos dizem que “o véu se levanta” à medida que os seres vão evoluindo, ainda assim, há um problema de equipamento orgânico e cognitivo que sempre nos traz limitações e fronteiras impenetráveis. Para entendermos a origem de todas as coisas e desvendarmos todos os mistérios do mundo, teríamos que ter “faculdades” (veja a questão 18), i.e., capacidades que ainda não possuímos. Então, nossa compreensão sobre as raízes do ser e do mundo, sobre os mistérios do bem e do mal, sobre o problema do destino e da dor, é bem limitada. Ainda assim, podemos questionar e pesquisar muitas coisas, descobrir maravilhas, avançar tecnologias. A ciência está aí para isso e o espiritismo, na visão de Kardec, deve caminhar com a ciência e não com mitos e “fake news”. Sendo assim, poderemos avançar muito em conhecimento e amor através da investigação filosófica e científica. É verdade, dirão os espíritos luminosos, pois “a ciência lhe foi dada para o seu adiantamento em todas as coisas”, ou seja, a ciência é instrumento de evolução espiritual holística, em “todas as coisas”. Por outro lado, nem mesmo a ciência e todas as escolas filosóficas poderão ultrapassar os limites cognitivos que os seres humanos possuem, os “limites fixados por Deus” [ou pela lei cósmica], como dizem os espíritos na questão dezenove. Além disso, em casos especiais, através da mediunidade (ou “profecia”) —conhecida pelos estudos paranormais como clarividência ou precognição—, a divindade, usando os espíritos comunicantes, poderá revelar aos seres humanos aquilo que a ciência ignora, mas que em algum momento, ela, a ciência, poderá apreender. A reencarnação, por exemplo, é uma dessas revelações que ainda não encontra consenso na ciência, mesmo tendo um forte arsenal de casos sugestivos e evidências estudadas por alguns cientistas. Este ponto é esclarecido na questão vinte de “O livro dos espíritos”. Para terminar, saber que somos seres limitados em conhecimento é uma das formas de desenvolvermos a humildade contra todo tipo de arrogância, dogmatismo e fanatismo. E isso é muito bom, pois toda a sabedoria autêntica é fruto desta humildade do não-saber. Alguém já disse, no passado: “Só sei que nada sei”. E é deste “nada” que poderemos compartilhar algumas sementes, trocarmos pequenos saberes e experiências entre nós, mas nada de bancarmos os donos da verdade. Para lembrar Sartre, o espiritismo kardequiano é nada, por isso mesmo, é tudo o que precisamos nesse contexto, pois menos é mais.

Imagem da postagem: Garota com balões, originalmente pintada por Bansky em Shoreditch, no leste de Londres, e replicada pelo próprio autor em muro construído por Israel na Palestina invadida. Simboliza a superação dos limites humanos.

Necropolítica é demanda do capitalismo financista

Por Gastão Cassel

Necropolítica não é um termo aleatório que serve apenas para denominar o conjunto de maldades e desprezo à vida do governo brasileiro. Tão pouco é um fenômeno local, embora aqui se imponha de forma mais grotesca e cruel do que em outros lugares. A necropolítica é uma demanda do capitalismo de estágio presente de extremo predomínio do capital financeiro, do rentismo, em detrimento do capital industrial.

Vou tentar explicar de forma simples: no capitalismo “clássico” em que a riqueza (e sua acumulação) era produzida pelo trabalho nas fábricas havia sempre o “exército de reserva”, que era o contingente da população que não ocupava lugar nas linhas de produção, os desempregados que precisavam fazer à vida à margem do sistema. Este exército de reserva servia para manter os salários arrochados (“tem gente lá fora querendo teu emprego”) e para assumir o trabalho em momentos de aquecimento da economia.

O avanço da financeirização, do predomínio dos bancos, do dinheiro eletrônico, da riqueza sem lastro de valor efetivo, criou um cenário em que a riqueza se reproduz por si própria pela especulação financeira, prescindindo em larga escala do trabalho fabril. Não se trata de revogar conceitos clássicos como capital e trabalho e sua eterna contradição, mas de compreender um novo estágio do capitalismo.

Este novo estágio não precisa do exército de reserva, pelo menos em grande escala. Surgem então massas de cidadãos “desnecessários”: migrantes, refugiados, aposentados, deficientes, minorias étnicas, povos originários. Gente que, para o capitalismo financista, não tem utilidade, não serve nem para ser explorada. A necropolítica é o mecanismo de extermínio deste excedente incômodo para o sistema rentista. Uma política pública “necessária” para dar seguimento à marcha de acumulação de riqueza por muito poucos.

De alguma forma os movimentos de extrema direita, geralmente militarizados, que pipocam em várias partes do mundo, incluindo o Brasil, chegam para implantar a necropolítica e abrir caminho para uma sociedade “livre” dos “estorvos sociais” que podem custar aos Estados e limitar a concentração de riquezas.

O que assistimos no Brasil na forma de sabotagem à vacinação, liberação da violência policial nas periferias, massacres de indígenas e sucateamento da proteção social não são arroubos de um governo desorientado ou meramente incompetente. São ações deliberadas a serviço de seus financiadores: os rentistas, o mercado financeiro, os bancos e todos os que criticam o governo na sua forma, mas se aproveitam da política econômica que lhes favorece.

Se compreendermos isso, entenderemos com facilidade a conivência de vários setores, especialmente da mídia que blinda o ministro da economia e sua política socialmente nefasta. A necropolítica tem mais adeptos e financiadores do que imagina.

Foto: Photo by Leonardo Yip on Unsplash

Mães, feminismos e espiritismo

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Por Elizabeth Hernandes (EàE-DF)

Correndo aqui, antes que maio acabe e a gente não fale sobre as mães.
Mas por que correr?
Porque é maio, mês das noivas, das mães, das flores(?). Correr porque o capitalismo cria datas para gente comprar coisas para, em alguns casos, usar as pessoas. Então, dando continuidade à nossa navegação contra a correnteza, ao invés de consumir, vamos refletir. Sobre mães, feminismos e espiritismos, assim mesmo no plural.
Primeiro as mães, da forma como aborda Mariana Kotscho[1]:
“O feminismo materno também visa a lutar pelos direitos das mulheres que são mães: direito a um parto digno e sem risco de violência obstétrica, direito a ter condições de educar seus filhos, direito a tomar decisões sem julgamentos. Acho importante ressaltar aqui a crueldade dos julgamentos para todas as mulheres, sendo mães ou não. Porque as que decidem não ter filhos ou filhas também são julgadas, o que é um horror. Toda mulher tem o direito de decidir se quer ou não ter filhos. A maternidade não é obrigação de mulher alguma, nem garantia de mais ou menos felicidade. Entre outras coisas, entendo que é disso que trata o feminismo: igualdade, direitos, liberdade. Você já parou para pensar no poder de cada uma dessas palavras?”
Feminismo é tão abrangente e inclusivo que, quando uma feminista fala de maternidade, começa defendendo o direito à escolha de não ser mãe.
Outra boa reflexão vem de Patrícia Castro[2]:
“[…] o dia das mães não é bem uma data para vender perfume, lingerie e panela de pressão. É o dia destinado a vender uma ideia: a ideia, ou mito da Supermãe. O ideal da Supermulher (da qual a supermãe é subproduto) nos é vendido todos os dias, mas é especialmente celebrado no segundo domingo de maio.”
Existe maneira melhor de explorar uma pessoa do que decretar que ela é super, invencível, pode tudo e ainda de salto alto? Esse empoderamento capitalista, eu passo. Primeiro que sai caro, sob todos os aspectos, principalmente os intangíveis. E, também, é acessível apenas às mulheres brancas e com renda para consumir produtos (que vão do batom ao silicone) e serviços (que vão da academia à exploração de outra mulher, geralmente preta, para manter a casa impecável). Esse empoderamento aí é cilada, Bina!]
E tem a idealização religiosa, afinal, esse texto é para uma página espírita.
Toda religião que conheço é patriarcal, mas o espiritismo, bicho, quê que é aquilo? Joga uma tonelada de argumentos para deixar a mulherada quietinha no canto reservado às santas ou às pecadoras. Não interessa a categoria, o importante é que ela se mantenha no lugar que lhe foi destinado. E têm as heroínas dos livros espíritas, a responsabilização pelo destino de toda a família e o carma atribuído às que não aceitaram tudo, qualquer coisa e qualquer preço. Que cristianismo é esse que aprecia tanto o sofrimento feminino?
E chegamos à literatura de Chico Xavier, afinal não se fala de movimento espírita no Brasil sem levar em conta o fenômeno Chico (e também porque se não houver treta a gente nem se arruma para sair).
Destaco um dos muitos textos que exaltam a “figura santificada” da mulher, justamente pelo título: “Feminismo”. Consta do livro “Fotos da vida”[3], que abrange um conjunto de crônicas de conteúdo moral e nesta, em especial, narra-se uma suposta passagem em que Jesus e seus discípulos, perdidos no meio de uma viagem a Jericó, encontram um homem muito bruto, que se recusa a lhes orientar sobre o caminho. Depois de serem tratados com grosseria, encontram uma bela e jovem mulher que, mesmo carregando um cântaro sobre a cabeça, interrompe a caminhada e dá a informação com boa vontade e delicadeza.
Depois que a moça segue seu caminho (carregando o cântaro, claro):
“Simão aconchegou-se a Jesus e lhe falou com intimidade. – ‘Mestre, notou a diferença? O bruto que nos desconsiderou e essa menina generosa se parecem a um animal e a uma flor…’. Ante o Senhor, que se fizera pensativo, Pedro insistiu:
‘Senhor, qual será a recompensa que o Céu concederá a essa jovem que nos prestou um serviço tão grande?’. Jesus sorriu e falou ao apóstolo em voz alta: – ‘Sim, Pedro, essa jovem será recompensada; e o prêmio dela será casar-se com o homem brutalizado que passou por aqui, a fim de que consiga educá-lo para Deus e para a vida.’ Surpresa geral encerrou o assunto. É isso aí, meu caro. Se a mulher nos abandonar à própria sorte, negando-se a cumprir a missão que o Céu lhe atribui, com certeza, nós todos, os homens vinculados ainda à Terra, estaremos perdidos…”
O livro citado é de 1988, ou seja, é historicamente recente. De todo modo, a prática no movimento espírita, mudou alguma coisa, passados mais de trinta desta publicação? Até onde eu conheço, das casas espíritas tradicionais, é nesse lugar, mesmo, que os confrades esperam encontrar as confreiras. Que sejam doces educadoras, não apenas dos seus filhos, mas de qualquer marmanjo brutalizado ou macho desgovernado.
O problema é que as estatísticas[4] mostram que não há limite para os marmanjos brutalizados que, frequentemente, matam suas companheiras, sejam elas “belas, recatadas e do lar”, ou não. E esta prática vem-se acentuando ao longo do período, que ainda atravessamos, de pandemia pela covid-19.
Machos desgovernados abreviam o tempo de reencarnação de mulheres pelo fato de elas serem mulheres e é feminicídio que chama. Esse “Feminismo” descrito no livro “Fotos da vida” não é cristão e não é aceitável, é feminicida.
O título –“Feminismo”– dado para uma crônica em que o “prêmio” da mulher trabalhadora e gentil é casar-se com um homem violento, é um acinte à luta das mulheres. O autor afirma que a missão da mulher, atribuída pelo Céu (seja lá o que signifique esse Céu) é tolerar e educar homens brutalizados.
Esse Céu não interessa às mulheres. O papel da mulher, nessa psicografia, é um modelo no qual já não cabem as espíritas, em 2021. Também não interessa a programação do evento (em 2021!) cuja divulgação ilustra esse texto. A foto mostra cinco homens e uma mulher, para falar sobre as mães no Evangelho. É muito homem para essa mulher educar e… sozinha! Não é justo.
E, sim, as mulheres desempenham importante papel na educação e também na educação dos filhos. E vale a pena ler Chimamanda Ngozi Adichie[5], que admite as diferenças mostradas pela biologia, como o fato de que homens, de modo geral, têm mais força muscular que as mulheres. Mas nem isso é verdade universal pois uma mulher com treinamento pode superar um homem nesse quesito. Mas qual a importância disso, em 2021, fora da área do fisiculturismo e adjacências? A partir do momento em que se desenvolveu a tecnologia da alavanca, entre outras, força física não é ferramenta decisiva para a resolução das questões práticas da vida.
Adchie ressalta que “a questão de gênero é importante em todo canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e de mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. […] precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente. […] O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita”.
Mas até a Adchie, para conclamar todos a serem feministas, tem de ressaltar as necessidades masculinas? Tudo bem. Aqui dá para aceitar porque ela não está afirmando que essa é uma responsabilidade exclusiva das mães.
Um mundo feminista é um mundo onde as mulheres não são obrigadas a carregar, sozinhas, os cântaros ou a responsabilidade pela reprodução e evolução da espécie. E esse mundo será mais suave para todos, homens e mulheres, com e sem filhos.
Nesse mundo, que ainda “não é deste mundo”, as mães não deixarão de comer para alimentar seus filhos e não serão obrigadas a fazer do próprio corpo um escudo para protegê-los da violência urbana. Esse mundo não terá mães que sequer tiveram a oportunidade de se fazerem de escudo porque seus filhos negros são sempre encontrados pelas balas perdidas, seus filhos homossexuais pela violência homofóbica e suas filhas são mortas por machos desgovernados. Nesse mundo mais feminista, não haverá milhares de filhos e de mães, mortos precocemente, por um vírus contra o qual existe vacina e protocolos sanitários baseados em evidências científicas divulgadas em escala mundial.
Então, vou ser sincera: presente no dia das mães? Gosto sim, pode trazer, eu nem sou tão comunista como dizem as boas línguas!
Mas feliz dia das mães, perfeitamente feliz, será quando for para todas as mães e todos os filhos e filhas.

1-  “Feminismo materno: a luta pelos direitos das mulheres que são mães”. Coluna “Papo de Mãe”. Disponível em https://cultura.uol.com.br/noticias/colunas/papodemae/22_feminismo-materno-a-luta-pelos-direitos-das-mulheres-que-sao-maes.html

2 – Quem fala sobre as mães? Disponível em : https://www.todasfridas.com.br/2018/05/22/pra-nao-dizer-que-nao-falei-das-maes/

3 – Fotos da vida. De autoria do espírito Augusto Cézar, psicografado por Francisco Cândido Xavier. Disponível em https://silo.tips/download/fotos-da-vida-chico-xavier-augusto-cezar-4

4 –  “Mulheres enfrentam em casa a violência doméstica e a pandemia da covid-19” – Monitoramento da série “Um vírus e duas guerras”, realizado a partir de dados de feminicídios e violência doméstica coletados nas secretarias de segurança pública das 27 Unidades da Federação. Disponível em https://projetocolabora.com.br/ods5/mulheres-enfrentam-em-casa-a-violencia-domestica-e-a-pandemia-da-covid-19/

5 – Adchie, Ngozi Shimamanda. Sejamos todos feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Não existe Deus no céu

Hoje estrearemos uma nova coluna nas redes sociais do Espíritas a esquerda: é a “Releituras kardecistas”, do teólogo e sociólogo Marcio Sales Saraiva. É uma honra para nós contar com a presença do Marcio entre nossos colunistas.

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Releituras kardecistas

Não existe Deus no céu

O povo —chamemos de senso comum— costuma dizer que “Deus está vendo” porque ele “sabe de todas as coisas”, “castiga” e “abençoa”. Nos momentos difíceis, recomendam-nos: “segura na mão de Deus e vai”.
Todas essas expressões populares de fé têm lá sua beleza e sabedoria prática, mas nada tem com o espiritismo fundado por Allan Kardec. Basta ler a resposta da questão 1 de “O livro dos espíritos” (tradução de Herculano Pires):
“O que é Deus? — Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.”
Os espíritos negam que Deus seja uma pessoa (teísmo), tal como creem os cristãos católicos e evangélicos. Para o espiritismo, seguindo a concepção que se tornou clássica na modernidade iluminista, Deus é um mecanismo cósmico, uma “inteligência suprema” posto que é incognoscível para nós, os humanos, sapiens que derrotaram os outros humanos “concorrentes”. Além disso, Deus ou Deusa (existe sexo?) é causa primária de todas as coisas existentes no mundo espiritual e físico. Deusa é a causa, o mecanismo, a inteligência.
Esta concepção kardecista dialoga com as concepções filosóficas mais avançadas da contemporaneidade, em que existe uma imensa resistência em relação às explicações metafísicas e totalitárias, supostamente detentoras da verdade absoluta.
Se para o kardecismo, Deus não é uma pessoa lá no céu sentado em trono de ouro, mas um mecanismo cósmico-causal e inteligente, então Deus é imanente, está “dentro” da vida e não fora (concepção transcendental) ou em algum lugar especial. É este Deus imanente, causal, cósmico e criativo que irá aparecer em falas importantes do profeta Jesus de Nazaré quando interrogado pelos ortodoxos fariseus. Estes últimos queriam saber onde (lugar) está o Reino de Deus.
“[não] dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo ali! pois o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17,21).
Jesus apresenta aqui uma concepção imanente de Reino de Deus. É uma realidade interior. De igual forma, a presença do Cristo. É o que diz em Marcos 13:21:
“Se, todavia, alguém lhes anunciar: ‘Eis aqui o Cristo!’ Ou ainda: ‘Ei-lo logo ali!’ Não deis qualquer crédito a isso!”
Assim como o Reino, Cristo, a Luz, a Palavra que vem de Deus, a Palavra criadora (veja no capítulo 1 de Gênesis) está dentro de cada um de nós. Somos descendentes da causa primária, da inteligência suprema.
Na questão 3 (“O livro dos espíritos”), os mentores invisíveis da vida nos alertam para a pobreza de nossa linguagem (“incompleta”) para nomear a divindade ou mesmo defini-la em seus supostos atributos.
“Pobreza da linguagem dos homens, insuficiente para definir coisas
que estão além da sua inteligência.”
De fato, como pode a inteligência humana e limitada pelo espaço-tempo da cultura, definir com clareza o que é a inteligência suprema, a causa de todas as coisas?
O kardecismo nos ensina a sermos humildes diante da grandiosidade cósmica do sagrado. A ideia de um “pensamento fraco”, abandonando os velhos e arrogantes sistemas filosóficos que tudo explicavam, é uma ideia presente na filosofia pós-moderna de Gianni Vattimo. Nela encontramos a ênfase na caridade-amor diante de um “deus morto” (o deus do teísmo, diga-se).
“Quando rejeitamos a religião, em especial o cristianismo, como verdade e o adotamos como caridade, aí se torna possível um diálogo inter-religioso honesto onde eu não sou o portador da verdade aceitando conversar com ignorantes. Eu passo a reconhecer no outro uma fé legítima, tão legítima como a minha. E isso tem a ver com a afirmação do pluralismo cultural que, também em consequência das relações políticas alteradas entre Ocidente e outros mundos culturais, que passaram do estado de colônia ao de nações independentes, fez emergir a parcialidade daquilo que por muitos séculos a filosofia europeia considerou a essência da humanitas; tem a ver ainda com a crítica da ideologia de fundo marxista; com a descoberta do inconsciente por parte de Freud, com a desmitização radical a que Nietzsche submeteu a moral e a metafísica tradicionais, inclusive o próprio ideal da verdade” (VATTIMO, p. 185).
Pensar o espiritismo como “pensamento fraco” centrado na caridade não numa “verdade objetiva”, temos aí uma das possibilidades de hermenêutica da vida humana e do sentido da existência. Fazer isso é repensar Allan Kardec para o século 21, retomando o espanto diante das coisas novas. É pegar o pensamento de Kardec e colocá-lo em novos barris de onde sairá um vinho novo para que possamos celebrar com alegria, sem aquela repetição nostálgica do anteontem. É recriar Kardec. E não era este o sonho dele, de manter o espiritismo atualizado?
Referências:
A Bíblia Sagrada. Tradução Almeida revista e atualizada. Barueri: SBB, 1993.
KARDEC, Allan (1804-1869). O livro dos espíritos: filosofia espiritualista; tradução de J. Herculano Pires. São Paulo: FEESP, 1995.
VATTIMO, Gianni. Adeus à verdade. Petrópolis: Vozes, 2016.

Chacina de Jacarezinho é mais um ato da necropolítica.

Chacina. Matança. Extermínio. Uma operação policial que resultou em 25 mortes é em tudo um fracasso técnico e moral. Se a função da polícia é preservar a paz, a integridade dos cidadãos e a ordem da sociedade, então a operação do dia seis de maio na comunidade do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, foi um fracasso em todos os sentidos. A Polícia Civil fluminense fracassou, ou está escondendo suas intenções reais. O saldo de 25 mortos, sendo um policial, revela, na melhor das hipóteses despreparo, incapacidade, falta de inteligência e truculência. E a pior das hipóteses parece ser a mais plausível: uma ação violenta deliberada e seletiva. Com a conivência da grande imprensa, a Polícia diz que 24 mortos eram “bandidos”. A afirmação contrasta com os relatos de moradores: casas invadidas, pessoas sendo arrastadas, tiros atingindo estação de metrô, portas arrombadas, poças de sangue pelo chão, centenas de cartuchos de munição detonadas pelas ruas. Não é difícil deduzir que as vítimas são pessoas pobres e negras na sua maioria, jovens provavelmente. As versões oficiais desenham um confronto entre policiais e bandidos, como se fosse possível traçar uma linha de moralidade que justificasse a matança. Acontece que o cenário que “justifica” a operação é a suposta “guerra às drogas”, que mata mais gente do que as próprias drogas. Especialistas em segurança pública sugerem que a ação promove o enfraquecimento de determinadas quadrilhas para favorecer a ocupação de territórios por milícias, o que se traduziria numa ação de estado para favorecer um tipo de organização criminosa. Nenhuma morte se justifica. Especialmente porque dos dois lados as vítimas são sempre jovens negros e pobres, soldados de uma guerra que não é deles que beneficia elites de vários escalões. A operação do Jacarezinho, a chacina, é claramente mais uma manifestação da necropolítica, do extermínio seletivo, racista, eugenista e deplorável. Reflexo de uma sociedade que vive um evidente apartheid social que se aprofunda sob governos que tem a morte como programa de governo. E, como todo programa de governo, contempla ações pragmáticas. Não se pode ignorar a sequência de fatos, amplamente divulgada na Imprensa: 1. Menos de 12 horas antes da chacina, o Presidente da República reuniu-se com o governador do Rio, Cláudio Castro. Cláudio Castro é a pessoa que pode parar uma operação desse tipo. Ou ordenar. 2. A chacina, perdão, operação “Exceptis”, foi protagonizada pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, sob o pretexto de que traficantes estavam aliciando crianças e adolescentes. Desde quando os traficantes NÃO aliciam crianças e adolescentes vulneráveis? Por que mais uma ação de “defesa das criancinhas do Brasil” resulta em mais mortes de pretos e pobres? 3. Quem ganha com a chacina? As milícias. Simples e sinistro assim. Numa unidade da Federação controlada pelo crime, quando o tráfico perde, a milícia ganha. E o cidadão? Esse já nasce derrotado, que o digam as crianças negras vítimas de “balas pedidas”. Esta chacina foi enorme, mas não foi a primeira. Soma-se às trágicas mortes de crianças por “balas perdidas”, desaparecimentos, fuzilamentos injustificáveis (lembram daquele músico que sofreu 80 tiros?). Estancar a necropolítica que se nutre de racismo, homofobia, sexismo e toda forma de discriminação é tarefa urgente. Essa é uma nota de luto que deve ser concluída com uma esperança de luta. Faça alguma coisa para parar esse rio de sangue.

Armada e perigosa no Natal

Imagem: foto do livro feita pela  autora do texto e imagens copiadas da web
Desde que o Brasil começou a perder a esperança fui, aos poucos, evitando me expressar por meio da roupa. Acho que menos por medo e mais por cansaço ou vice-versa, não sei. Mas ultimamente tenho começado a romper a barreira do silenciamento. Neste 24 de dezembro, depois de usar uma droga que causa euforia e sensação de poder chamada beta-endorfina, conseguida após cinco quilômetros de corrida, resolvi que iria cortar o cabelo com uma profissional – pela primeira vez este ano – e usaria a camiseta dos Espíritas à Esquerda. Não conhecia o salão mas não se pode esperar nada diferente do usual numa região de Brasília onde a maioria votou em ‘você sabe quem’ no sentido J. K. Rowling da coisa e que, no exato espaço de dois quilômetros entre uma área comercial e outra, conta com uma igreja católica, três neopentecostais e uns 50 cabeleireiros. Quem conhece Brasília não vai estranhar. Aqui é uma cidade planejada e até na parte que cresce desordenadamente, os grileiros buscam inspiração em Niemeyer. Neste contexto sociogeográfico, corre-se o risco de uma camiseta dessas ser lida como ‘comunista macumbeira’. Antes de sair, o diálogo: – Cê vai com essa camiseta? Tá procurando treta, hein… – Tô na minha. Quem quiser encarar… – E o natal, fraternidade e tal? – Saco cheio dessa hipocrisia. E já que vou pra briga, volto e me preparo. Ponho Gabriel Garcia Márquez debaixo do braço, como quem põe uma arma num coldre de ombro. Saio confiante e orgulhosa pelas trinta e duas revoluções armadas que o coronel Aureliano Buendia perdeu.” Data: 25.12.2020 Por Elizabeth Hernandes Membro do “Coletivo Nacional Espíritas à esquerda” em Brasília